Sínodo Amazónia: caminhar juntos a ouvir a «agonia da Mãe Terra»?

D.R.

Ordenação de homens casados

A ordenação de homens casados e a situação dos indígenas foram pontos centrais do debate na entrada na segunda semana do Sínodo.

D. Carlo Verzeletti, bispo de Castanhal, no Pará (Brasil), lembrou aos jornalistas a falta de um verdadeiro “cuidado pastoral” na região pan-amazónica, pela falta de clero, uma situação em que o padre se torna um “distribuidor de Sacramentos”, algumas vezes no ano.

O missionário italiano, há 38 anos no Brasil, manifestou o seu apoio à ordenação de homens casados para o ministério sacerdotal, para que “possam, de facto, acompanhar a vida das comunidades”. Disse que há “pessoas preparadas, com uma vida exemplar”, prontas para assumirem plenamente este ministério e não como padres de “segunda categoria”.

Os padres sinodais discutiram a possibilidade de ordenação sacerdotal de homens casados para as regiões mais remotas, não para “encontrar respostas à falta de vocações, mas para expressar uma Igreja que tenha uma identidade amazónica”. E este não é um problema somente amazónico.

Foi sugerido dedicar à questão um sínodo específico. Foi dito que muitos cristãos contam que foram acolhidos pelas culturas indígenas precisamente em razão de seu celibato. Outros acham que, segundo a cultura hedonista e laicista, o celibato é o último baluarte a ser abatido.

Houve quem dissesse: “Se deve ser encorajado o envio de sacerdotes de outras dioceses e regiões, não fere a comunhão na Igreja nem desvaloriza o celibato a proposta de ordenar homens sábios e de comprovada fé religiosa”. Para alguns, este representa um passo decisivo para a obtenção de um ministério ordenado não só de visita, mas finalmente de presença. 

Situação dos indígenas

D. José Ángel Divassón Cilveti, salesiano, antigo vigário-apostólico de Puerto Ayacucho (Venezuela), falou à imprensa sobre a importância do “diálogo intercultural”, de conhecer a “vida, os sentimentos” dos povos indígenas.

O religioso destacou a experiência de “partilhar a vida das comunidades” Yanomami, na Venezuela e Brasil, apostando nas áreas da Educação, Saúde e projetos autossustentáveis.

A convidada especial do Sínodo, Josianne Gauthier, secretária-geral da Aliança Internacional das Agências de Desenvolvimento pela Justiça Global (CIDSE), destacou a importância de criar “pressão política” a partir das mensagens que os povos da Amazónia, “vítimas de uma trágica exploração”, levaram a Roma.

José Mirabal, presidente do Congresso das Organizações Indígenas Amazónicas (COICA), indígena kurripako (Venezuela), considerou, por sua vez, que o Papa é a única voz “que chama para um despertar do planeta”. Defendeu “o fim da invasão violenta e sem consulta prévia”, nos territórios indígenas, por parte de “grandes projetos que vêm do mundo civilizado”, desde as centrais hidroelétricas aos projetos agrícolas e de criação de gado.

“Convido os meios de comunicação a destacar o apelo para salvar o planeta. Pedimos ao Papa que nos ajude a falar com os novos deuses dos países civilizados, que são o Google, o FMI e os governos da Amazónia”, acrescentou José Mirabal, para quem “nenhum país escapa” à violência contra os indígenas.

Entrevista à Rádio Vaticano

O Vice-presidente do Brasil, António Hamilton Mourão, esteve na canonização da Irmã Dulce Lopes Pontes, no civil Maria Rita, primeira santa brasileira, da Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus.

Sobre Santa Irmã Dulce dos pobres – disse que “esse nome é mais do que conveniente por todo o trabalho extraordinário que essa mulher fez». 

Antes, o vice-presidente teve um encontro com o Papa Francisco. Uma das questões abordadas foi o Sínodo dos Bispos para a região Pan-Amazónica, no Vaticano. “Um evento eclesial muito importante para a Igreja no Brasil e no mundo”. 

A Amazônia Legal compreende cerca de 54% do território brasileiro, com 2,6 milhões de quilômetros quadrados. É uma região com características muito especiais, uma região de difícil acesso. “Igreja e governo, dentro da região amazônica têm interesses comuns e ligados especialmente ao desenvolvimento sustentável e ao apoio espiritual àquela população”, disse. 

Depois de afirmar que o atual governo tem muito claro que é responsabilidade do Brasil preservar e proteger a Amazónia, reconheceu que “ocorrem problemas muitas vezes ligados às ilegalidades que são cometidas”.

D. Carlo Verzeletti, bispo de Castanhal, recordou à imprensa que “a Igreja sempre afirmou que o Brasil tem a soberania sobre a sua Amazónia”. Paolo Ruffini, prefeito do Dicastério para a Comunicação, sustentou  “não haver qualquer ligação entre este encontro e o Sínodo”.

Conectados à escuta do Espírito Santo

Foi sugerido que a escuta do Espírito Santo guie e inspire sempre a urgente conversão ecológica, necessária para combater a destruição ambiental que ameaça o planeta. A Criação, com efeito, foi confiada ao nosso cuidado e a Amazônia é o jardim mais belo e vital do planeta. Infelizmente, corre-se o risco de transformar este “paraíso na terra” num “inferno”, que, por causa dos incêndios, poderia privar-nos do seu indispensável património. Caminhar juntos quer dizer ouvir “a agonia da Mãe Terra” e tomar consciência da “violência do extrativismo etnocida”. 

O apelo lançado pelas organizações indígenas amazônicas é para inverter a rota e evitar cair num precipício. Todos estamos conectados uns com os outros. O “bem viver” quer dizer estar ligado ao próximo, à terra. A globalização, não obstante tenha provocado inegáveis benefícios à vida das pessoas, abriu as portas para um capitalismo selvagem. No mundo desenvolvido, se pretende-se pagar a baixo preço produtos que são obtidos com o sangue das populações indígenas. Impõe-se o apelo a um estilo de vida simples, a uma conversão ecológica que abrace um comércio mais baseado na justiça e na paz.