D. Nuno Brás pediu ao Senhor dos Milagres que “continue a proteger-nos e a oferecer-nos a salvação”

Foto: Duarte Gomes

Milhares de fiéis foram, ontem, a Machico com o propósito de participar na tradicional procissão que trouxe  o Senhor dos Milagres da sua capela para igreja matriz. À luz dos archotes dos pescadores e das muitas velas, caminharam ao compasso da banda, acompanhados por D. Nuno Brás. 

Foi a primeira vez que o bispo do Funchal participou nesta que é uma das maiores manifestações públicas da fé dos madeirenses. Esta procissão, que reúne devotos de todas as idades e condições sociais, percorreu várias ruas da cidade, em que a iluminação pública foi desligada, e culminou com a celebração da Eucaristia, presidida pelo bispo do Funchal e concelebrada por vários sacerdotes e também pelo cónego Manuel Martins, pároco de Machico.

Eram cerca das 22.15 horas quando a imagem do Senhor dos Milagres entrou na igreja, debaixo de uma ‘chuva’ de aplausos. Foi levada até junto do altar e colocada no lugar que habitualmente ocupa nestas celebrações. 

Nas primeiras palavras que dirigiu à assembleia, D. Nuno Brás lembrou que “toda a nossa glória está na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo” e que “nele está a verdadeira salvação”. São estes, disse, “os sentimentos que nos animam, os sentimentos que nos unem nesta celebração” e “ao olharmos para a cruz, vemos o amor de Deus por cada um de nós”. 

Mais tarde, numa homilia baseada no que é a salvação, essa “capacidade de vivermos plenamente e para sempre”, e na vontade de Deus de a todos salvar, mesmo “aqueles que aos nossos olhos parecem não ter salvação, o prelado lembrou que essa vontade de Deus resulta do Seu “amor pelo mundo e por nós, que hoje aqui estamos”. 

A salvação, disse, “é fruto desse amor que Deus tem por nós”.  Uma salvação que não pode ser fabricada e que não pode acontecer sem a nossa colaboração.

“Não é cada um de nós que se salva a si mesmo. Não é a sociedade, com as suas instituições e organizações, com as suas lei e preceitos que nos pode oferecer a vida feliz e para sempre”, explicou o bispo diocesano. Aliás, “muitas vezes, demasiadas vezes, tentamos salvar-nos a nós mesmos e essas tentativas resultaram apenas em guerras, injustiças e morte, como aconteceu no passado século XX e como continuará a suceder, todas as vezes em que procuramos fabricar, por nós a salvação”.

É por isso que “precisamos de Deus”, de “um Deus que nos salve”. E Ele sabe que sozinhos “não conseguiremos viver por Ele e como Ele”. É por isso que “Ele não desiste de nós, de todos e de cada um”. De resto, “foi para nos salvar, que Deus assumiu a nossa carne e sofreu a morte”, morte na cruz, “sofrida”, “dramática”, “amada”, que transforma e dá sentido à nossa existência terrena.

Depois de algumas referências à história, em particular à do Senhor dos Milagres, cujo crucifixo foi parar ao mar na sequência de uma aluvião, na noite de 8 para 9 de outubro de 1803, D. Nuno Brás disse que “a celebração de hoje é precisamente um dos sinais do amor persistente de Deus, que não se quer distante dos homens e mulheres desta nossa ilha, mas que antes sempre regressa, sempre insiste e sempre bate à porta do nosso coração para nos oferecer a vida”. 

O facto da galera americana não ter conseguido, por forças inexplicáveis, levar a imagem que encontrara no mar, foi “um sinal de que o Senhor dos Milagres quis e quer ficar connosco, Cristo quis e quer ficar connosco. Ele insiste em estar, em viver no meio de nós povo da Madeira. Ele quer-se connosco, porque também para nós Ele veio ao mundo”. 

Por isso, “agradecemos a Sua presença, a Sua companhia, as graças que Dele recebemos e Lhe pedimos que continue sempre connosco, com a sua proteção e a oferecer-nos a salvação”. E a nós “não nos pode ser indiferente esta vontade do Senhor que quer estar connosco. De ter Deus ao nosso lado, no trabalho, nos divertimentos partilhando a nossa vida”. Porque é bem diferente “viver sozinho ou ter Deus connosco”, concluiu.

As celebrações do Senhor dos Milagres prosseguem, hoje dia 9 de outubro, com a Missa solene presidida pelo Vigário Geral, Cónego Fiel de Sousa, pelas 15 horas. Pelas 16:30 horas, inicia-se a procissão de regresso do Senhor dos Milagres à respetiva capela.

A terminar refira-se ainda que, em memória da noite trágica de outubro de 1803, em que uma violenta tempestade atingiu Machico, Santa Cruz e Funchal, celebra-se hoje o “Patrocínio de Nossa Senhora do Monte”, com uma eucaristia solene na Sé, às 11:15 horas, presidida pelo bispo do Funchal.