Piedade: Bispo desafiou fiéis a serem “discípulos como Nossa Senhora” e a “ajudar a salvar o mundo”

Foto: Duarte Gomes

Cumpriu-se a tradição no Caniçal. Milhares de pessoas passaram, no fim de semana de 14 e 15 de setembro, pela pequena vila piscatória para louvar Nossa Senhora da Piedade.

A Eucaristia da Festa teve lugar ao início da tarde de domingo, 15 de setembro, tendo sido presidida por D. Nuno Brás que se estreou nesta celebração, a maior daquela comunidade.

Na homilia, o prelado falou da vida de Nossa Senhora, ela que “tem um lugar muito particular no coração dos madeirenses e neste caso dos homens do mar”, ela que acompanhou Jesus, desde o nascimento até à morte na cruz. “Ela que nos acompanha também a nós, na nossa vida”. Ela que, explicou D. Nuno Brás, foi “discípulo de Jesus”, verdadeiro exemplo do que deve ser um cristão. Um exemplo que o bispo diocesano desafiou os presentes a seguir, para que “nada na nossa vida seja vivido fora de Jesus Cristo”, e para que Ele entre na nossa casa, no nosso trabalho e no nosso divertimento, porque frisou, “isso é que é ser cristão”.

Claro que “podemos andar felizes e contentes sem Jesus Cristo”, mas os que o fazem não vão ter a “vida eterna”, lembrou D. Nuno, para logo sublinhar que tal facto não deve, no entanto, levar os cristãos a viver no egoísmo. Antes pelo contrário. “Devemos partilhar com os outros que existe uma vida eterna e que a morte não é onde tudo acaba, mas onde tudo começa. É onde começa a vida de Deus connosco”. Mais: “temos de ajudar o próprio Jesus a salvar o mundo”. E como? “Sendo como a Virgem Maria, Senhora da Piedade, Senhora das Dores” aos pés da cruz, sendo os olhos, a boca, os ouvidos, as mãos e o coração de Deus, para ajudar os que estão ao nosso lado, sem julgar ou condenar, mas tendo sempre uma “palavra de salvação”, concluiu.

Procissão marítima levou Senhora a “casa”

Terminada a Eucaristia seguiu-se a procissão que levou a Imagem da Senhora da Piedade, com o Filho morto nos braços, até ao cais. Ali, os muitos atuneiros aguardavam, já apenhados de gente a que se juntavam as muitas pessoas espalhadas pelo cais. O único que ainda se mantinha mais ou menos vazio era o ‘Baía do Funchal’, a quem calhou em sorteio a responsabilidade de ir buscar e depois levar a imagem de Nossa Senhora.

Foi nessa embarcação, devidamente engalanada, que seguiu a imagem, mas também o bispo do Funchal, o Pe. José Pereira, pároco do Caniçal e o Pe. Carlos Almada, a Banda Municipal de Machico e muitos devotos com as suas velas e cirios para pagarem as promessas feitas à Virgem. 

Devido ao seu tamanho, o ‘Baía do Funchal’ não conseguiu acostar no pequeno cais da Quinta do Lorde, razão pela qual houve necessidade de fazer o transbordo para uma embarcação mais pequena. Só então, em terra firme, a procissão prosseguiu monte acima, até chegar à pequena capela do Monte Gordo onde Nossa Senhora permanecerá até ao próximo ano, altura em que todo o ritual se irá repetir.

Enquanto a procissão subia a encosta, no mar os barcos espalharam-se desde a Quinta do Lorde até quase à Ponta de São Lourenço. A bordo, a tradição também se repetia: a tripulação oferecia de comer e de beber a quem quisesse. Sandes de atum e de gaiado de escabeche, sumos e cerveja.

Entretanto, quem subiu à capela regressou ao cais. Repetiu-se transbordo e os barcos, na sua esmagadora maioria atuneiros, regressaram ao cais da vila, navegando em águas calmas, certamente muito diferentes daquelas que enfrentaram os pescadores de outros tempos. Aqueles que, na aflição, prometeram construir a pequena capela e a lá colocar a Senhora da Piedade, em honra da qual todos os anos fazem festa, porque nesta altura, dizem os versos, “Vão as traineiras a navegar/Na procissão tão linda no mar/Os pescadores vão à capela/Buscar a Virgem a mãe mais bela.