Irmã Paulina: “Para ser religiosa é preciso abertura de coração e coragem”

Foto: Duarte Gomes

A 30 de Junho de 1969 nascia Paulina Henriques, a 13ª filha de uma família humilde, que tinha na terra o seu sustento. Desde pequena que se lembra de rezar. Era o Anjo da Guarda, a Avé Maria, o Pai Nosso e mais tarde o Terço, que era rezado em família. No entanto, nada fazia prever o rumo que a sua vida iria tomar. Não até aquele verão em que conheceu a Congregação das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus. Aí tudo mudou. O chamamento foi entendido e o convite do ‘vem e segue-me’ aceite. Até hoje! E já com 26 anos dedicados à vida consagrada a Irmã Paulina deixa um conselho às jovens para que estejam atentas, porque a vocação pode surgir em qualquer altura da vida e é preciso ter “abertura de coração para a escutar” e “coragem para a abraçar a escolha”.

Jornal da Madeira – Quem é Paulina Henriques?

Irmã Paulina Henriques Paulina Henriques é a 13ª filha de uma família muito humilde, de uma zona da então Paróquia do Estreito de Câmara de Lobos, que hoje pertence à Paróquia do Garachico. Quando eu nasci o meu pai já tinha 60 anos e a minha mãe 43 anos. Éramos 7 raparigas e 6 rapazes e praticamente quem tomou conta de mim foram os meus irmãos, porque era assim mesmo: os mais velhos iam cuidando dos mais novos. 

Jornal da Madeira – Como é que foi a infância e a juventude?

Irmã Paulina Henriques Foram as normais para a época. Foi um pedacinho difícil aceitar que os meus pais já tinham uma certa idade, que os pais das minhas colegas eram muito mais novos. Mas, de resto, a vida normal de quem nasce numa família grande, em que os mais velhos vão crescendo e saindo de casa. Só conheci a minha irmã mais velha quando tinha 37 anos. Eram realidades diferentes. 

Jornal da MadeiraQuando é que a jovem Paulina se começa a aperceber da sua vocação? Havia alguma religiosa na família, alguém que a tenha influenciado?

Irmã Paulina HenriquesDesde pequena que me lembro de rezar. Eram aquelas orações básicas: Anjo da Guarda, Pai Nosso, Avé Maria e o Terço. Apesar de sermos uma família humilde, com muitas dificuldades, crescemos a apreender valores humanos e cristãos no seio familiar. Rezar e ir à missa fazia parte das nossas rotinas. Tínhamos na família uma religiosa, das Irmãs Vitorianas, mas eu não tinha muito contato com ela, por isso não foi por aí. Eu diria que a minha vocação nasceu por acaso. Naquele tempo era o carteiro que trazia a correspondência e a deixava num determinado sítio. Às vezes nós íamos lá e trazíamos a nossa e a da vizinha, outras vezes era ao contrário. Então chegou uma carta para mim, mas a vizinha só me entregou no dia seguinte. Era um convite para um encontro precisamente de Nossa Senhora das Vitórias e que eu já não consegui ir. Lembro-me que fiquei aborrecida, mas a vida continuou. Entretanto, aos 19 anos, houve um encontro de jovens no Salão Paroquial do Estreito. Durou uma semana, mas eu só participei no último dia e lembro-me que houve um diaporama, ‘tudo me fala de Deus’, que me chamou a atenção. Entretanto, o senhor padre, Dehoniano, referiu que  na sacristia tinha uns folhetos para preencher e eu preenchi. Ao fim de 10 dias recebi a carta para participar num de muitos Campos de Férias na Casa de Saúde de Câmara Pestana. Lá fui. Não conhecia a casa, aliás o Funchal não era um lugar onde eu habitualmente viesse. 

Jornal da MadeiraFoi o primeiro contato já com as Irmãs Hostitaleiras…

Irmã Paulina Henriques – Sim é verdade. Nesses dias, vivemos vários momentos de oração, mas também refletimos sobre o ser jovem, sobre o serviço aos doentes.

Ao fim dos 10 dias de campo de férias, voltei a casa e às rotinas, mas dava por mim a pensar: a esta hora estava a dar de comer a este doente, agora estava a rezar, agora estava a fazer isto agora aquilo. Era o principio de algo.

Nesse ano de 1988 ainda fiz vários campos de férias e outros encontros para conhecer a congregação e a missão. Aliás, passei esse fim do ano num encontro na Casa de Saúde de Câmara Pestana e desde essa altura, nunca mais passei nenhum fim de ano em casa. No ano seguinte, 1989, já estava a estudar no Liceu Jaime Moniz, o que me possibilitou um contato com a Irmã Maria Isabel Santos que foi-me aproximando da instituição. Em abril de 1989, volto a participar num encontro onde me cruzo com o Senhor Padre Agostinho Pinto, Dehoniano, que me perguntou se eu alguma vez tinha pensado ser religiosa. Eu respondi que sim, mas que tinha uma vida complicada devido à idade avançada e à doença dos meus pais. 

Jornal da MadeiraFoi fácil para a família aceitar a sua decisão?

Irmã Paulina Henriques – Devido à idade dos meus pais, não foi fácil. A minha mãe já andava desconfiada do caminho que eu queria seguir. Chegou-me a dizer que não estava a gostar muito das minhas idas à Casa de Saúde Câmara Pestana. Mal sabia ela que eu ia mais vezes até do que ela sabia, porque eu ia e vinha a pé. Naquele tempo as mães queriam que as filhas casassem, tivessem filhos… Certa vez, a mãe chegou-me a dizer: olha que se tu sais por aquela porta, já não voltas a entrar. Eu por um lado rezava para que ela não me recebesse. Andava sempre a ralhar comigo… Já o meu pai não sabia de nada. Um dia, estávamos sentados à mesa, e eu perguntei-lhe se ele gostava de ter um filho padre ou uma filha freira. O meu pai respondeu: gostar eu gostava, mas onde está o juízo deles? Foi aí que eu lhe disse que o barulho que a mãe costumava fazer era por causa de eu querer ir para freira, mas foi só isso. Quando em 1990 me foi proposto deixar a minha terra para avançar para a etapa seguinte, a minha mãe disse-me que era para não dizer nada ao meu pai, eu assim fiz. Disse-lhe só que tinha arranjado um trabalho e que ia ir menos vezes a casa.

Jornal da MadeiraEm 1990 começa o percurso mais a sério, com o postulantado e por aí fora até à profissão perpétua, em 1998, com passagem por várias casas das Irmãs Hospitaleiras…

Irmã Paulina HenriquesÉ verdade. Primeiro fui para a Casa de Saúde da Idanha, que é a sede da Congregação em Portugal, onde fiz o Postulantado. Nessa altura trabalhava na Unidade de São Camilo, com doentes muito perturbados.

Jornal da MadeiraA Irmã acaba por trabalhar sempre com essas pessoas que se encontram numa condição difícil… Isso nunca lhe causou impressão?

Irmã Paulina HenriquesNão. Nós contactávamos com todo o tipo de pessoas, desde as mais agressivas às mais calmas, passando pelos idosos e pelos jovens.

E uma das coisas que nos foi sempre muito incutida foi que não era um doente que ali estava, mas era a imagem de Jesus Cristo de quem era preciso cuidar e amar.

Além disso, o facto de vivermos em comunidade também nos ajudava, e continua a ajudar, a ultrapassar eventuais dificuldades, assim como a oração, os encontros e as festas, porque tudo faz parte. Além disso, eu cheguei a manifestar o desejo de ser enfermeira. Tanto que uma das minhas irmãs, no ano que me fui embora, ainda me disse que eu que fosse para enfermagem, a ver como é que me dava… e então estaria mais segura da minha vocação.

Jornal da Madeira – E a família? Já estava mais convencida ou nem por isso?

Durante o período do Postulantado, quando eu vinha à Madeira, a minha mãe ainda me dizia: vem embora para casa, olha as tuas coisas, a fazenda. Eu só respondia: mãe, eu não preciso de nada disso, deixe-me estar que eu estou bem. Nessa altura, já o meu pai estava bastante debilitado embora consciente. Depois iniciei o noviciado na Casa de Saúde do Bom Jesus em Braga, tendo este sido um tempo de encontro com o Senhor e de estudo dos documentos Congregacionais. Foi um tempo para perceber também se era de facto esse o caminho que Deus queria e eu também, uma reflexão que se prolongou no ano seguinte, 1992, especialmente durante os dias de férias que passei na comunidade do Assumar. Não foi um ano fácil. Em outubro, no dia 30, o meu pai faleceu. Foi um dia muito marcante, porque nesse dia fazia anos que uma das nossas Fundadoras falecera, Maria Josefa Récio. Vim à Madeira, ainda convencida que o pai estava vivo, mas já não se encontrava. Fiquei por casa uns oito dias e depois voltei à minha vida. Em 1993 a 18 de setembro fiz a Profissão Religiosa Temporária. Foi de novo um ano de missão por excelência e também de grandes abanões a todos os níveis. Mas eu estava segura e ‘convicta’, uma palavra que, diga-se, causou alguma confusão à minha Mestra, na altura a irmã Maria Preciosa, e não só, que às portas de eu vir passar umas férias à Madeira, me disse que:” eu que visse se aquele era realmente o meu lugar”. Mais ou menos estas palavras.

Jornal da Madeira – Pelos vistos era…

Irmã Paulina Henriques Confesso que aquelas palavras me caíram mal. Mas a verdade é que eu vim de férias e regressei e continuei o meu percurso. Fiz o primeiro ano de juniorado na Casa de Saúde da Idanha, depois fiz os outros três na Casa de Saúde de Santa Rosa de Lima, em Belas, e mais um ano de novo na Idanha.

Jornal da Madeira– Entretanto a caminhada formativa ia se aproximando do fim…

Irmã Paulina Henriques– É verdade. Em 1998 iniciei a preparação para os votos perpétuos. Passei três meses na Comunidade de Ciempozuelos, em Espanha, terra das nossas fundadoras. Não tinha palavras para descrever a alegria que sentia: era a língua, os encontros, as visitas às outras comunidades. Tudo dava um sentido de universalidade. A caminhada ia-se completando para o grande dia da entrega definitiva. 

Jornal da Madeira – Que aconteceu a 6 de setembro de 1998…

Irmã Paulina Henriques – Exatamente. Depois desse tempo em Espanha, regresso à Idanha para no dia 6 de setembro de 1998 fazer a profissão perpétua com outra irmã.

Dizer um ‘SIM’ para sempre e sempre renovado em cada dia, porque “só é duradouro o que se renova em cada dia”.

Jornal da Madeira – A família esteve presente?

Irmã Paulina Henriques Sim, a minha mãe foi tanto à Profissão Religiosa Temporária como à Profissão Perpétua. Já estava muito debilitada, mas a minha irmã lá a conseguiu levar e eu fiquei muito satisfeita. Ela de certo modo resignou-se e acreditou quando, num aniversário da congregação, ela e um irmão meu que veio da Venezuela, me foram visitar à Casa de Saúde de Câmara Pestana. A minha irmã diz que a partir desse dia a minha mãe tinha mudado completamente.

Jornal da Madeira – Arrepende-se em algum momento da escolha que fez?

Irmã Paulina Henriques – Não, Nunca! É verdade houve momentos difíceis, muitas quedas, crises, mas a verdade é que os momentos bons têm compensado todos os outros. Mas dou muitas graças a Deus por todos aqueles que Ele colocou no meu percurso e que me ajudaram a fazer caminho. Sem eles eu não teria chegado até aqui, e certamente me vão ajudar a continuar a praticar missão da hospitalidade.

Jornal da Madeira – E há a escrita, que também ajuda…

Irmã Paulina Henriques – Sim… Se bem que nunca vi a escrita como um refúgio. Apenas gosto de escrever e sinto uma leveza quando o faço. Faz parte da minha realização pessoal e eu sou feliz com aquilo que faço e com aquilo que sou.

Jornal da Madeira – Pelo caminho ainda há uma Licenciatura…

Irmã Paulina Henriques – É verdade. Depois da Profissão Perpétua fiquei três anos na Casa de Saúde da Idanha. Nesse tempo retomei os estudos e fiz a Licenciatura em Psicopedagogia Curativa na Universidade Moderna. Terminei o curso a 22 de setembro de 2003, outra vez o mês de setembro a ter um significado para mim, e fui convidada a ir para Moçambique, para o Centro de Reabilitação Psicossocial das Manhotas, onde permaneci de 2003 a 2007 e onde vivi intensamente a vida missionária, naquela terra que pouco tinha, mas onde existia muita alegria. Em 2005 ainda vim a uma formação religiosa (CURES) em Itália. Em 2007 voltei para a minha terra, para o Centro de Reabilitação Psicopedagógica da Sagrada Família, onde fiquei 11 anos, e até ser de novo chamada para seguir caminho, sempre a praticar a hospitalidade…

Jornal da Madeira – Depois deste percurso de 26 anos –  a Irmã comemorou as suas bodas de prata o ano passado – que conselhos deixa às jovens que possam estar com dúvidas relativamente à sua vocação?

Irmã Paulina Henriques

Primeiro diria tem de haver disponibilidade e abertura de coração para escutar. E se ouvirmos a voz de Deus, ter confiança, coragem e ânimo e não fecharmos o coração e ter fé.

Depois é preciso ter acompanhamento espiritual. Muitas vezes os amigos podem não entender, a família pode não entender e é sempre bom ter a ajuda de alguém que vá trabalhando connosco e ajudando a crescer e a ultrapassar essas e outras situações que vão surgindo. Até porque não há uma receita há, isso sim, uma entrega. Um ‘eis-me aqui’ que tem de ser renovado todos os dias. De resto, é essa renovação que eu própria faço e espero continuar a fazer, sempre feliz com a caminhada que o Senhor fez em mim. 

Caminho para a Hospitalidade