Maurícias: uma «conversão ecológica integral» num oásis de paz 

Foto: Vatican Media

Homenagem ao «apóstolo» dos escravos

O Papa Francisco chegou no dia 9 de setembro, à República da Maurícia, para uma viagem de oito horas. Foi recebido na capital do país, Port Louis, por dezenas de milhares de pessoas, num dia de chuva e forte vento, depois da cerimónia oficial de boas-vindas no aeroporto, com a presença do primeiro-ministro Pravind Jugnauth e o bispo local, cardeal Maurice Piat.

A visita foi marcada pela homenagem ao Beato Jacques-Désiré Laval (1803-1864), missionário e médico francês beatificado em 1979, cujas relíquias estiveram expostas no altar da Missa a que o Papa presidiu, no belo Monumento de Maria Rainha da Paz, centro de peregrinações, e que eu tive a graça de conhecer numa visita à ilha, durante uma semana. (Ilha com uma orla de poucos kms de turismo – belas praias e bons hotéis à volta – e um interior de muita pobreza).

 A celebração contou com a presença de 100 mil fiéis da Maurícia e outras ilhas do Oceano Índico. Evocando o religioso espiritano, o Papa disse: “O amor de Cristo e dos pobres marcou de tal maneira a sua vida que ele “aprendeu a língua dos escravos recém-libertados e anunciou-lhes de maneira simples a Boa Nova da salvação”. Francisco desafiou a Igreja  a confiar nos “pobres e descartados”.

A população saudou o Papa com ramos de palma, como símbolo das 100 mil palmeiras que vão ser plantadas na ilha para reflorestar o país.

A primeira Missa na ilha Maurícia foi celebrada em 1616 pelos jesuítas e a sua evangelização teve um grande impulso com a chegada dos padres vicentinos, no século XVIII; a maior parte da população é hindu, devido à imigração indiana, e os católicos representam cerca de 28% dos 1,3 milhões de habitantes. São João Paulo II visitou a Maurícia de 14 a 16 de outubro de 1989. 

Jovens são a primeira missão da Igreja

Segundo o jesuíta Padre Cheung, o grande desafio nas Maurícias, para a Igreja e para  sociedade,  é o problema da droga. Há muitos jovens que são completamente “escravos da droga”. 

Francisco deixou uma mensagem muito forte e de confiança nos jovens: “O beato Jacques Laval deu à Igreja mauriciana uma nova juventude. Os jovens são a primeira missão da Igreja. Na ilha, não obstante o crescimento económico, são eles os que mais sofrem com o desemprego e a falta de perspetivas.”

“Um futuro incerto, que os descarta e obriga a conceber a sua vida à margem da sociedade, deixando-os vulneráveis e quase sem pontos de referência perante as novas formas de escravidão deste século XXI.”

 “ Não deixemos que nos roubem o rosto jovem da Igreja e da sociedade! Não permitamos aos mercadores de morte roubar as primícias desta terra!”, acentuou.

Proteção dos mais pobres e da natureza

Estou feliz, disse o Papa, “pela possibilidade que esta breve visita me dá de encontrar o povo mauriciano, caraterizado não só por um rosto multiforme no plano cultural, étnico e religioso, mas também e sobretudo pela beleza que provém da capacidade de reconhecer, respeitar e harmonizar as diferenças em função de um projeto comum”. 

“Acolhei os migrantes como os vossos antepassados souberam acolher-se uns aos outros, como protagonistas e defensores duma verdadeira cultura do encontro, que permita a todos a sua dignidade e os seus direitos.”

“Merece nosso apreço a tradição democrática, que contribui para fazer das Ilhas Maurícias um oásis de paz. Faço votos de que possa ser cultivado e desenvolvido, contrastando nomeadamente todas as formas de discriminação com este estilo de vida democrática, referiu.

“O crescimento económico nem sempre beneficia a todos – e o Papa propôs o desenvolvimento duma política económica orientada para as pessoas, com “criação de oportunidades de trabalho e promoção integral dos mais pobres”.

Francisco apelou a uma “conversão ecológica integral”, como escreveu o cardeal Maurice Piat.

“Manifestou o apreço pelo modo como trabalham juntas, nas Ilhas Maurícias, as várias religiões, contribuindo para a paz social e recordando o valor transcendente da vida contra todo o tipo de reducionismo”, disse o Papa.

Exemplo de convivência pacífica

A respeito da visita do Papa às Maurícias – antes do evento – o jesuíta padre  Georges Cheung traçou  um quadro da realidade da Igreja local e dos problemas que afligem o país colocando em evidência a riqueza da convivência pacífica entre as várias camadas da sociedade.

Há dois aspetos para a Igreja Católica: é uma grande alegria, porque é o Papa é o chefe da Igreja que visita nosso país. Para os outros também é uma grande alegria, porque o povo das Maurícias respeita muito as autoridades, a figura do Papa.

Para receber o Papa Francisco devemos preparar o nosso coração, o nosso espírito como quando fazemos uma peregrinação à Terra Santa. O povo espera uma palavra do Papa que reforce a nossa fé porque temos muitas dificuldades: a pobreza, as drogas… e algumas vezes nos sentimos desencorajados… 

E termina, dizendo acreditar que a população de Maurícia possa dar também uma mensagem de esperança. É verdade que temos os nossos problemas, mas ainda sabemos viver mais ou menos em paz, e num lugar onde se pode viver feliz.