Papa em Moçambique: um desafio a «escrever uma nova página»

Foto: Vatican Media

Francisco recebido em festa

O Papa Francisco chegou, dia 4 de setembro, a Maputo, dando início à sua quarta viagem a África, com passagens previstas por Moçambique, Madagáscar e Maurícia, num programa marcado pela atenção aos mais pobres e aos conflitos.

A viagem a Moçambique, a convite das autoridades políticas e da Conferência Episcopal, tem o lema ‘Esperança. Paz. Reconciliação’, centrando-se na área de Maputo.

No aeroporto, o Papa foi acolhido, com honras militares e danças típicas, pelo presidente da República de Moçambique, Filipe Nyusi, um grupo de fiéis e  autoridades civis e eclesiásticas, não havendo discursos.

“Todos os moçambicanos são exortados a acompanhar esta visita. É um dia de festa, e é um momento para celebrarmos e para estarmos juntos”, afirmou Nyusi.

Do aeroporto, percorreu sete quilómetros em papamóvel até à nunciatura apostólica, onde ficou alojado na sua visita ao país, cumprimentando milhares de pessoas que o esperavam à berma da estrada.

Papa desafia jovens a «escrever nova página»

O Papa encontrou-se ontem, dia 5 de setembro, com jovens moçambicanos de várias religiões, no Pavilhão de Maxaquene, em Maputo, desafiando-os a um compromisso conjunto pela paz no país.

“Vós juntos, sois o palpitar deste povo, para escrever uma nova página da história, uma página cheia de esperança, paz e reconciliação”, declarou Francisco, numa festa ao som de cantos e gritos como “reconciliação” ou “jovens da paz”.

Após atuações de jovens católicos, hindus e muçulmanos e representantes da sociedade civil, o Papa fez o seu discurso. Elogiou a diversidade de tradições culturais em Moçambique e chamou a atenção para a paz que evita a guerra. “Um país destrói-se pela inimizade. O mundo destrói-se pela inimizade. E a inimizade maior é a guerra”, advertiu.

Sublinhou que os jovens são “importantes” para o futuro e também para o “presente”, com a sua “alegria de viver”. “Não deixeis que vos roubem a alegria”, insistiu.

Francisco lamentou tragédias como os ciclones Idai e Kenneth, “consequências do descalabro ecológico”. E deixou a todos um desafio: proteger a nossa Casa Comum”.

O pontífice convidou os jovens ao diálogo com os idosos, valorizando aqueles que “os precederam”, e pediu para  percorrerem com alegria os caminhos da paz. 

Papa alerta para «crise de identidade sacerdotal»

Num encontro na Catedral da Imaculada Conceição, em Maputo, que reuniu bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas, consagrados e seminaristas, catequistas e animadores,  o Papa Francisco alertou para o que denominou “crise de identidade sacerdotal”, lamentando o “exagero na preocupação de gerar recursos para o bem-estar pessoal”.

“Perante a crise de identidade sacerdotal, talvez tenhamos que sair dos lugares importantes e solenes; temos de voltar aos lugares onde fomos chamados, onde era evidente que a iniciativa e o poder eram de Deus”, disse. 

Num país em que os católicos são cerca de 28% da população, Francisco pediu “pastores-discípulos-missionários”, e desafiou os presentes a “encurtar a distância”, num país que procura superar as feridas da guerra, promovendo “o intercâmbio e o diálogo”, com uma atitude de “proximidade” a todos. Assinalou ainda a importância da inculturação e alertou para a “mumificação” dos responsáveis católicos, que apresentam uma mensagem “cinzenta”, incapaz de atrair.

Francisco fez uma visita privada à “Casa Mateus 25″, que trabalha com população de Maputo em situação de pobreza extrema.

O país que esperava o Papa Francisco

«Católicos e a Igreja esperamos que a paz passe do papel para a vida», afirmou o Padre Rui Ferreira. As pessoas na capital Maputo estão “mobilizadas para receber o Papa”, preparadas para “cantar, dançar e escutá-lo”, nestes dias da sua visita. O ambiente é festivo. E adiantou: “Há grande expectativa e curiosidade em receber o Papa”.

Um dos objetivos da visita apostólica “é que seja consolidada a paz”. “Uma paz efetiva não só em Moçambique, mas em todo o continente africano, que só pode vir por meio do perdão, da reconciliação “Existe um risco: circulam nas redes sociais mensagens preocupantes de grupos islâmicos a condenar e avisar os muçulmanos que o Papa é o chefe dos infiéis. É um desafio ao diálogo inter-religioso.”

Moçambique tem 23 bispos (31 de julho de 2019), 297 sacerdotes diocesanos, 362 sacerdotes religiosos, 2 diáconos permanentes, 1207 religiosas professas. Há no país 17 membros de Institutos Seculares, 97 missionários leigos e 56 871 catequistas, há 587 seminaristas menores e 599 seminaristas maiores.

Na opinião do padre Rui Ferreira o tema ambiental é fundamental no país lusófono que tem, em Pemba um “sítio paradisíaco, a terceira maior baia do mundo”. Na Província de Cabo Delgado estão “grande parte das riquezas naturais” de Moçambique, “nomeadamente gás natural”.

“A criação é altamente desprezada, vilipendiada. Ainda agora com os ataques no norte, estão a saquear as florestas, as madeiras preciosas e animais”, exemplifica. Aqui observa-se também o  clamor da natureza. 

As línguas oficiais em Moçambique são o português e o bantu; a capital Maputo tem 1, 1 milhões de habitantes; a população do país é de 27,1 milhões de habitantes.

Em Moçambique, 50% dos habitantes seguem cultos tradicionais, 28% são católicos e 20%.