Férias com escrita de Cirilo e Metódio em países de ortodoxia

Capela de S. Jorge Redondo, Bulgária | D.R.

Por terras de Trácios, Spartacus, Drácula e vampiros descobrem-se semelhanças e diferenças entre a Roménia e a Bulgária. Tocam o mar Negro, ladeiam o baixo Danúbio, rodeados de países eslavos, pertencem à União Europeia. De maioria cristã ortodoxa ostentam extensas planícies de girassóis e cordilheiras acima de dois mil metros: Cárpatos, Balcãs, Rila. Países colonizados pelos romanos, enfrentaram perseguições religiosas de romanos, otomanos e comunistas e conservaram a fé cristã ortodoxa. As guias com erudição descrevem esses períodos e traumas.

Na Roménia as histórias do Drácula enchem castelos de turismo. Em Sighisoara almoçámos na casa onde viveu o verdadeiro Conde (Vlad Tepes, “empalador” 1431-1476) “filho do Dragão” (Draco=diabo) donde Drácula na historieta, o qual, no real, foi herói implacável contra os otomanos no s. XV; e visitámos o castelo que lhe foi atribuído na lenda hollywoodesca, em Bran, engarrafado de turistas.

A Bulgária dos Trácios recebeu dos gregos a língua da liturgia cristã e o domínio imperial bizantino. Pelo s. IX passou a usar a língua cirílica eslava, (criada a partir do alfabeto arcaico do primeiro império búlgaro e do alfabeto glagolítico), a qual se tornou foco das línguas e literaturas de uma dezena de países; ao passo que a Roménia passou do latim para a língua latina-romena. Na Roménia o domínio dos otomanos terá sido mais suave e de tipo comercial. Depois de alguns séculos sob o domínio bizantino, a Bulgária viveu alguns séculos de idade de ouro de cultura cristã eslava. Nos séculos XIV-XIX foi oprimida pelos muçulmanos otomanos que a forçaram a pagar o tributo de sangue de crianças escravizadas e muitas castradas para o seu exército dos “jenízaros”. Esta subjugação escravizante levanta a questão de como o país tenha mantido a fé cristã?

O turismo religioso descobre-nos camadas e cenários históricos político religiosos surpreendentes que as guias, cheias de convicção, ajudam a decifrar. Alternam-se épocas de fé em liberdade, de opressão e de libertação. A fidelidade a Cristo, ao Evangelho e à identidade ortodoxa búlgara emergem durante as visitas. A Sérdica, Sófia a partir do s. XIV, foi conquistada pelos romanos em 29 a.C., e Constantino pensou fazê-la capital do império, talvez devido às suas quarenta fontes termais de 30-90 graus. O cristianismo terá chegado à Bulgária por ação de S. Paulo a partir de Tessalónica e Filipos. Os vestígios político religiosos dos seus dois mil anos de fé cristã, mantém-se com 80-90 % de cristãos e uns 10% de muçulmanos, católicos e judeus. Impressionam a grandeza e sumptuosidade das igrejas Santa Sofia, s.XIV, onde estava a ser batizada uma criança, a igreja da mártir Santa Nedélia, construída em 1829, destruída por comunistas em 1925 e construída a atual em 1927-1931, a bela basílica de Alexandre (II) Neveski, construída como voto de libertação dos otomanos, ajudada pelos russos, no início do s. XX. Os povos Trácios, bárbaros e antigos gregos do norte da Grécia não deixaram os romanos em paz. O artístico túmulo Trácio, património da Unesco em Kazanluk, ainda o atesta, ao passo que Sandanski, a sul, deu uma estátua ao escravo Spartacus, herói trácio contra os romanos.

São impressionantes os vestígios romanos no centro histórico de Sófia: estrada romana e termas; e em Plovdiv os restos monumentais do teatro romano e do circulo de corridas de cavalos, etc. Não faltaram numerosos mártires cristãos, como santa Nedélia, em perseguições que só terminaram na liberdade dada por Constantino em 313, para a fé cristã sem imposição do culto de ídolos gregos romanizados, repescados dos povos vizinhos, e das narrativas monoteístas do Antigo Testamento escritas a partir do seculo XII a.C. Estas, segundo S. Justino, foram adulteradas com mitos e ídolos pelos poetas gregos.

Verifica-se que a Igreja cresceu na maior parte da Europa desligando-se consideravelmente da helenizarão e da hegemonia bizantina e tornando-se sucessivamente latina, eslava e germano-saxónica (s. XVI). Os santos irmãos Cirilo e Metódio ensinaram a escrita da língua búlgara no século IX e tornaram-se os pais dos países eslavos ortodoxos. Admiram-se artísticas capelas, igrejas e mosteiros eslavos, a que vieram a misturar-se as mesquitas a partir do s. XIV. A capela mais antiga dos tempos romanos é a de S. Jorge Redondo do s. IV, ao lado da praça onde o Papa celebrou em 5 de maio de 2019. A de Boiana, ostenta preciosos frescos dos s. XI-XII, tal como a do mosteiro de Rila, fundado pelo eremita S. João de Rila, s. X, a 120 kms a sul de Sófia que são tesouros de arte cristã eslava antiga, classificadas como Património Mundial (Unesco). Nos frescos do mosteiro de Rila, S. XII, já do tempo do alfabeto cirílico, admiram-se as lendas de S. Nicolau, o triste moribundo sem dinheiro para casar as três filhas que recebe do santo três sacos de moedas para os seus dotes. Fica a questão: como explicar que a fé cristã tenha resistido às ondas de perseguição romana, otomana e comunista? Concorreram diversos fatores, mas a contemplação dos frescos e dos olhos das suas cenas sugere-nos algo muito significativo que deixamos para outro texto.