Conversas de férias sobre fé cristã 

D.R.

Nas férias acontecem conversas casuais, motivadas por encontros em lugares de origem e identidade cristã; umas com amigos, em ambientes esperados; outras inesperadas com desconhecidos em lugares de turismo e peregrinações. Assim ocorreu recentemente, nas férias na minha terra e em excursões de turismo, para mim de caráter religioso, pela Bulgária e Roménia, em igrejas e monumentos carregados de história e arte sobre a fé cristã.

As pessoas animam-se, trocam impressões, dialogam ou discutem calorosamente sobre temas religiosos e sobre assuntos cristãos católicos em que há desacordo nas convicções sobre a fé e práticas cristãs. Abundam dúvidas pessoais e situações complexas. Todos parecem procurar respostas e soluções, mas não sossegam com as apresentadas. Ora se fica por opiniões ora se passa à discussão acesa sobre convicções humanas e de fé cristã. Abordam-se temas de festas católicas de patronos das paróquias, procissões de velas e outras e as iniciativas de arraial com espetáculos profanos e quase pagãos.

Os interlocutores, com frequência, divergem; uns tentam conciliar tudo, nivelando pelo pensar relativista, outros defendem que nas festas da Igreja até à procissão participam os praticantes da fé; os espetáculos de diversão no arraial destinam-se mais aos que só vem para eles e que sem eles acaba tudo e as igrejas ficam vazias. Nem vale a pena alguém dizer que as festas da Igreja católica são de evangelização e celebração da fé. Acham outros que a Igreja também pode funcionar como empresa de espetáculos profanos. Convicções tão distantes impressionam e crescem se há um padre, gente jovem ou um leigo católico envolvido na Igreja.

Noutras discussões entram aspetos políticos, económicos, morais e religiosos; pobreza, injustiças sociais e os males da sociedade e culpas da Igreja. Cada interlocutor apresenta o seu ponto de vista, razões e argumentos. Dá-se a primeira ronda, a segunda e volta-se a repetir o já dito. Uns adaptam-se ao dizer do outro com versões  revistas. Será que se converte alguém? A discussão torna-se repetitiva e desemboca num impasse. Um mantém, o outro mantém. Não se avança. De repente começa a emergir  impercetível o desejo de uns se sobreporem aos outros, de ter mais razão e de obter um pequeno triunfo. Em linguagem chã, joga-se ao desafio de uns imitarem os outros, mas um ponto acima para serem maiores. Numa palavra, cai-se na conta de que todos procuram algo de novo sem saber bem o quê.

Serão inúteis estas discussões? Se forem sinceras como a conversa de Natanael no Evangelho (Jo 1, 45-49), talvez não. Podem, porém, envolver um erro frequente na lógica da fé e prática cristã: pretender que uns se convertam ao pensar e agir dos outros: com adesão a esta ou aquela pessoa de entre os presentes, a um livro, um autor, um sistema de pensar. Esquece-se o essencial da fé cristã e católica. O outro não tem que se converter a qualquer dos interlocutores. Mas a Cristo e por Ele à Igreja. Estas conversas, só por si mesmas, não chegam. Alguns frutos podem vir mais tarde no encontro com Cristo. Ninguém tem que converter alguém a si mesmo. Após o impasse, ocorre falar com o Interlocutor da fé, Cristo, como aconteceu com Charles de Foucault quando se apresentou cheio de dúvidas na igreja de Santo Agostinho de Paris ao padre que estava a confessar. Tenho muitas dúvidas e desejava falar consigo, disse. O padre, após um momento de pausa, disse; ajoelhe-se e confesse-se! Errado, dirão alguns, mas não foi. Ali mesmo realizou o encontro com Jesus Cristo e não apenas com o sacerdote. Ocorre lembrar uma frase de entrevista de Marcelo Rebelo de Sousa (Expresso, 3.08.2019, cad. p.33) «Da mesma forma que nunca conseguirei convertê-lo (Ferro Rodrigues) ao catolicismo ou ao PSD, nunca conseguirei passar a ser ateu nem socialista». Nas polémicas sobre a fé cristã não seria de recorrer mais vezes à conclusão: agora é a vez de cada um falar com Aquele que se procura e em quem se deseja confiar e acreditar? Ele acabará por responder e esclarecer as dúvidas, mas não todas de uma vez.

Férias, Agosto, Festa de S. Bartolomeu de 2019/Aires Gameiro