Brasil: “É preciso mudar de uma Igreja que visita para uma Igreja que permanece”

D. Sebastião Bandeira, bispo de Coroatá, Maranhão, Brasil | Foto: AIS

O Sínodo dos Bispos para a região da Amazónia chamou à atenção não apenas da Igreja mas de todo o mundo. A defesa da casa comum, o cuidado com os povos indígenas e ribeirinhos, e também os novos caminhos para o ministério sacerdotal estão na ordem do dia.

D. Sebastião Bandeira é o Bispo de Coroatá, no estado do Maranhão, nordeste do Brasil. Nascido na Amazónia Legal, trabalhou practicamente toda a sua vida nesta região. Recentemente, D. Sebastião esteve na sede internacional da Fundação AIS (ACN), onde falou sobre a situação do povo e sobre as esperanças depositadas neste Sínodo.

Fundação AIS: A Amazónia é fundamental não só para quem está na região, mas também para a saúde do planeta. Quais as expectativas desse Sínodo para que se olhe não apenas as pessoas que estão lá, mas também para o mundo todo que, de certa forma, depende da Amazónia para o seu equilíbrio?

D. Sebastião: Embora o Sínodo seja de uma região particular que é a c Amazónia, o seu tema e as decisões com certeza irão influenciar a Igreja e o mundo todo. O Papa Francisco escolheu o tema “novos caminhos para a Igreja e por uma ecologia integral”. Então, como Igreja, temos de aproveitar este momento privilegiado que estamos a viver com o Papa Francisco, que se tem mostrado muito corajoso e aberto em relação à Amazónia, o que está a dar muito destaque à Igreja na região. Precisamos de encontrar novos caminhos para que a evangelização se torne mais firme e mais sólida.

E o tema da ecologia integral?

É um clamor do mundo inteiro, e nós queremos olhar os povos amazónicos. Por exemplo, no Maranhão temos uma população indígena razoável, mas também temos a população quilombola (comunidades rurais formadas por descendentes de pessoas que foram escravizadas) muito expressiva que faz parte da realidade maranhense e de um todo da Igreja na Amazónia. Queremos ter essa preocupação com as pessoas, com o meio ambiente e, sobretudo, queremos procurar novos caminhos para que a Igreja possa exercer o seu papel neste momento tão decisivo que estamos a viver.

Falou sobre os novos caminhos e a Evangelização mais sólida. Vemos muitas comunidades na Amazónia que recebem a visita de um sacerdote apenas uma ou duas vezes ao ano, por causa das distâncias e pelo número reduzido de padres. Que expectativas podem ter estes povos, como os ribeirinhos e os indígenas, do Sínodo?

Em primeiro lugar, a Igreja na Amazónia teve um papel muito importante dos missionários que marcaram religiosa e culturalmente toda essa região. Foram verdadeiros heróis que dedicaram as suas vidas naquelas terras tão longínquas procurando o desenvolvimento integral e a evangelização. Também na Amazónia é expressiva a religiosidade popular, até mesmo porque muitos nordestinos foram para a Amazónia levando consigo a sua religiosidade popular que também foi uma maneira de resistir à investida de outras religiões na Amazónia. Por outro lado, sabemos que a Amazónia precisa ter uma Igreja com o rosto próprio. E como o documento de preparação do Sínodo afirma, é preciso mudar de uma “Igreja que visita para uma Igreja que permanece”. Essa presença da Igreja só irá acontecer quando tivermos pessoas, ministérios que estejam lá no dia a dia com o povo para que esse povo se sinta realmente Igreja e participe de maneira mais efectiva da vida da Igreja. Acredito que o tema dos ministérios será muito discutido porque é realmente uma preocupação: como ter uma presença institucional numa situação tão distante e tão desafiadora como é a da Amazónia.

Aproveitando que tocou nesse assunto dos ministérios. Acredita que a Igreja é capaz de oferecer uma evangelização mais consistente a estes povos?

As nossas comunidades estão em perigo de desaparecer de muitos lugares, porque não temos pessoas. Muitos missionários estão cansados e estão desanimando. Por isso, precisamos de dar uma resposta para que a Igreja continue viva e activa nesta região que é tão difícil e tem as suas características próprias. Muitos lugares do planeta em situações diferentes também têm reflectido sobre este ministério que é fundamental para que a Eucaristia, que é o sacramento por excelência, possa ser recebido e possa fortalecer as nossas comunidades. O Papa Francisco não deixa de colocar na pauta os problemas, mesmo que sejam desafiadores, de modo a que encontremos soluções adequadas para que a Igreja continue a existir, activa, continuando a missão de Jesus, uma Igreja profética que seja um sinal no mundo, servidora mesmo que tenha que enfrentar a perseguição. Mesmo que a Igreja tenha muitas dificuldades o mais importante é continuar a sua missão nesse mundo. Nós, os pastores, recebemos essa tarefa e não podemos negligenciar de forma alguma.

Sobre enfrentar as dificuldades, a Amazónia está no coração da AIS desde a década de 70, quando a Fundação Pontifícia enviou 320 camiões que foram fundamentais para pôr sobre rodas o Evangelho na região. Que soluções vislumbra para dar um novo impulso ao Evangelho na Amazónia, nos dias de hoje?

Em primeiro lugar eu quero expressar o meu profundo agradecimento à Fundação AIS, que tem ajudado sempre as nossas Igrejas, inclusive a Diocese de Coroatá, no Maranhão, tem sido beneficiada pelo apoio da instituição na construção de igrejas, na aquisição de veículos, dando rodas para que o Evangelho chegue a tantas comunidades afastadas e também necessitadas. As religiosas também recebem muita ajuda.

Respondendo à sua pergunta o que vejo é o seguinte: para nós, na Amazónia, o mais importante é investirmos na formação das lideranças locais. Procurarmos ver como melhorar a formação da liderança e multiplicar o número de líderes, porque são eles que vão transformar a nossa sociedade. Claro que também acredito muito nos meios de comunicação sociais, não restam dúvidas de que eles chegam de maneira rápida em tantos lugares que nós não podemos alcançar. Na Amazónia, sabemos que as paróquias são distantes uma das outras. Por isso vejo que as directrizes da Igreja no Brasil são muito iluminadoras quando falam das comunidades eclesiais missionárias. Isto é, formar comunidades que, à luz da fé, se tornem evangelizadoras, que testemunhem o anúncio de Jesus Cristo com entusiasmo. Por isso tenho muita esperança, porque só a experiência do processo de preparação do Sínodo já é uma grande vitória. Nunca um Sínodo foi tão ouvido nos últimos tempos como este, que as bases, os indígenas, os quilombolas, os jovens, os pescadores, as periferias, todos tiveram a oportunidade de falar. Com certeza muitas coisas vão surgir porque o Espírito está na Igreja e quando ela se reúne é sempre para abrir novos caminhos e responder aos novos desafios à luz da Palavra de Deus.

Entrevista conduzida por Rodrigo Arantes.