Braga: Primeiro cego a ser ordenado diz que vai ser um padre «entre tantos outros»

Foto: DACS

Tiago Varanda, seminarista na Arquidiocese de Braga, vai ser ordenado sacerdote este domingo. Até aqui nada de novo. No entanto, Tiago distingue-se dos seus colegas porque vai ser o primeiro cego a ser ordenado padre em Portugal.

Natural de Lamego, Tiago Varanda nasceu em 1984 com um glaucoma congénito; perdeu a visão progressivamente e, aos 16 anos, já dependia da Micha, a cadela-guia que o acompanhava na altura – agora é a Ibiza, a sua companhia, e que encontra nas sacristias um lugar especial para permanecer durante a celebração litúrgica.

Antes de entrar no seminário, Tiago frequentou o curso de História, em Viseu, e começou a dar aulas em várias escolas, também na região de Braga, tendo sido neste percurso que a questão vocacional surgiu e, “aos poucos”, foi percebendo que era chamado ao sacerdócio.

O facto de ser cego não o impediu de responder ao chamamento. Segundo Tiago, isso nunca foi um impeditivo, pelo contrário. O quase sacerdote já por várias vezes explicou que, graças à sua cegueira, desenvolveu outras habilidades, como a da escuta.

E se na altura que entrou para o seminário os receios existiam, ao longo de uma preparação de sete anos, Tiago foi perdendo os temores que, considerava, o podiam impedir de ser um dia ordenado sacerdote.

Sem rodeios afirma que o caminho não dependeu apenas da sua vontade: “foi bastante exigente, e sei que não o conseguiria sozinho”, destaca, enunciando a equipa formadora e a ajuda sempre pronta dos seus colegas no seminário.

Confiante, diz que “vou fazer um ministério como qualquer outro sacerdote, naquilo que me couber, naturalmente. Vou ser mais um entre tantos aqui na diocese, procurarei colaborar com o que o senhor arcebispo me pedir e com aquilo que as pessoas precisarem e for necessário e me pedirem”, explica em declarações ao Departamento Arquidiocesano da Comunicação Social de Braga.

A preparação da missa quer na sua ordenação, agendada para a tarde deste domingo, dia 14 de julho, como também da missa nova, não difere muito da preparação dos restantes futuros padres, com exceção de necessitar da liturgia em braille.

Sobre o seu ministério, Tiago Varanda acredita que será “um entre tantos outros” e que com o tempo as pessoas se vão acostumar. “Claro que, exteriormente, é diferente, as pessoas criam umas certas expectativas, se calhar nos primeiros tempos vão admirar, sei lá, achar surpreendente. Mas, com tempo, creio que isso se vai tornar normal e natural. E claro, vou precisar de algumas adaptações, uma ou outra na liturgia, desde logo o braille, não é… Não vou ler com os olhos, vou ler com as mãos”, afirma, explicando que nos primeiros tempos vai necessitar de ter alguém a ajudar, junto ao altar, para “pegar no cálice, para pegar na patena” e prestando alguma orientação.

A poucas horas da sua ordenação Tiago assume a sua satisfação de “missão cumprida”, e por ter conseguido dar passos que o levaram a este ponto, com capacidade para mostrar a sua “relação com Deus” e O poder levar às pessoas.