Peregrinar pela micro e macro-história. Que Sentido?

D.R.

Peregrinar para interpretar e buscar compreender. Retomo alguns pontos de recente tertúlia em Fátima e da conferência na Academia Portuguesa da História sobre aparições marianas. Um historiador percorre factos circunscritos à procura de sentido. Investiga de acordo com os dados e documentos disponíveis; procura explicar e compreender. Reflete para compreender acontecimentos. Na compreensão de fenómenos históricos complexos político-religiosos põe objetividade e subjetividade, convicções, ciência, crenças humanas e divinas da fé. Renan, por exemplo, em 1863, com fé ou sem ela, chama a Lurdes e a La Salette “grands évènements religieux”. Em 2017 nos congressos internacionais de Lutero 500 e dos 100 anos de Fátima era comum falar de “fenómenos”. Os fenómenos político-religiosos abrangem e envolvem acontecimentos no tempo, geografia, ciências e grupos sociais e religiosos. A sua compreensão obedece a argumentos de ciência e convicções de fé humana e divina, como dissemos. Nas aparições marianas e seus contextos, por exemplo, os fenómenos apresentam-se semeados de acontecimentos com surpresas divinas que uns captam e outros não. A abordagem sistémica apresenta hipóteses de compreensão que dependem de “leitores” desses factos e fenómenos. Uns aceitam ou rejeitam o científico; outros aceitam ou recusam as razões de credibilidade dos videntes e a fé nas mensagens. Aqueles negam a credibilidade das experiências dos videntes e apresentam interpretações de alucinação, delírio, ou manipulação social e enganos. Assim nas aparições de Lurdes, Fátima, Guadalupe e outras. Estes fenómenos político religiosos, cristãos-católicos, tomam relevo nas representações sociais. Quando se fala de Portugal, França, Paris, México sobressaem Fátima, Lurdes, Paris (Medalha milagrosa), Guadalupe como fenómenos a desafiar crentes e não crentes. Abrangem factos verificáveis que lhes podem dar sentido científico e razões intelectuais de fé. Entre eles o número anual dos peregrinos, os ícones observáveis e inexplicáveis, as pessoas que se converteram por seu intermédio. A imagem de Nossa Senhora de Guadalupe desafia as explicações das ciências. Este e o ícone da medalha milagrosa são tão eloquentes em razões de fé e teologia em que não bastam as explicações humanas. No dizer de Jean Guiton nenhum designer seria capaz de desenhar medalha de tanto sentido que a faz um grande tratado bíblico-teológico. Por outro lado, cerca de uma dezena de ciências e seus métodos (em catos, tecidos, pintura, ótica, história, cultura azteca, etc.) não conseguem explicar o quadro de Guadalupe. Nem repugna compará-lo à imagem do misterioso Sudário de Turim que continuará a desafiar as investigações de cerca de duas dezenas de ciências e dos seus sofisticados métodos de análise. O fenómeno do sol em Fátima com cerca de 70 mil testemunhas tem desafiado as explicações científicas dos astrofísicos, um pouco como a estrela dos Reis Magos. Encolher os ombros perante estas dimensões não denotaria muito intelecto.

O historiador de factos circunscritos de micro-história espelha a realidade; os historiadores-pensadores de macro-história de fenómenos político-religiosos (cristãos, católicos) complexos refletem e buscam uma compreensão mais abrangente de coincidências com outros fenómenos políticos dos mesmos períodos. As interpretações e compreensão das aparições aliam, com efeito, as ciências, as convicções, crenças humanas e a fé no sobrenatural.  

A busca de compreensão nas aparições busca harmonizá-las com a fé em Jesus Cristo Senhor Salvador e Senhor da história e da Igreja. Os contextos históricos sistémicos da macro-história destes acontecimentos encaminham, pela fé cristã, para o seu sentido geral integrado na teologia da história. «Criação, Encarnação e Redenção devem ser vistos como três aspetos de um mesmo processo», diz Teihard de Chardin. As aparições privadas, (em que os católicos não são obrigados a acreditar), para os que as aceitam, farão parte deste contexto universal do acontecido, do acontecer e devir da história; passado, presente e futuro. O seu centro é o Filho de Deus, o LOGOS eterno (Cf. Jo 1, 1-18). Da pré-história ao Apocalipse todos os factos e acontecimentos humanos contrariam ou se inserem no sentido divino-humano da História. São seus sinais, balizas e profecia. Só Cristo fundamenta e garante esse sentido e serve de Bússola ao caminhante. O peregrino leva Cristo, procura Cristo ou deseja encontrá-lO. A alternativa é um não. Mas na fé cristã dos batizados e evangelizados, a questão da liberdade (talvez desviada pelo orgulho) tornará sempre difícil entender: porquê, uns aceitam e outros (ainda) rejeitam a fé em Jesus Cristo-Filho de Deus, na sua presença real no pão e vinho consagrados, na sua salvação e na sua Igreja?