Corpo de Deus: Tapetes de Flores são “sinal exterior de comunhão”

Todos os anos, neste dia de Corpo de Deus, o ‘coração’ do Funchal ganha mais cor e beleza com os Tapetes de Flores, que o Pe. Rui Pontes diz serem um “sinal exterior de comunhão”. A cidade é envolvida por um colorido e por um aroma únicos. Mas desengane-se se pensa que tudo isto surge da noite para o dia. Mesmo antes dos tapetes se começarem a compor nas ruas, já há quem some horas e horas de trabalho. Mas com fé, dizem, tudo se faz.

Foto: Duarte Gomes

O cheiro a cedro cortado sente-se mal se passa à porta do salão paroquial das Eiras. Lá dentro um grupo, maioritariamente masculino, vai ‘picando’ punhados de ramos verdes já limpos dos galhos mais grossos. 

Enquanto uns cortam, outros vão recolhendo o cedro cortado e levando para outras zonas do salão. Conversa-se, mas o som que se sobrepõe a todos os outros é o dos objetos de corte a baterem nos tocos de madeira que facilitam a tarefa do corte.

A rapidez com que esta operação é feita, deixa qualquer um de boca aberta. Se a pancada falha, o resultado pode ser desastroso. Mas a prática, ao contrário do que se diz do hábito e do monge, faz com Sidónio Quintal vá falando connosco sem pousar a catana que está a manusear.

Paroquiano das Eiras, coordenador da catequese e do grupo de jovens, entre outras funções, assumiu mais esta empreitada. Naquela segunda-feira, 17 de junho, lá estava dando o seu contributo. Pouco passava das 19.30 horas quando estivemos nas Eiras, mas naquele dia Sidónio já ali estava desde as três da tarde e outros desde as 10 da manhã.

Sendo um trabalho voluntário todos contam, e todo o tempo que possam dispensar também. “As pessoas vêm consoante a sua disponibilidade. Uns meia hora, outros uma horinha, outros a tarde. É conforme”, explica-nos Sidónio, para logo acrescentar que “não se pode desprezar o trabalho daquele que só vem meia ou uma hora, porque já alivia uma hora a alguém”. Ao todo, adianta, são para cima de 50 as pessoas envolvidas. O que as move? Sidónio responde, mas diz que só pode falar por si: “Acho que acima de tudo tem de haver fé. Se não houver fé acho que ninguém se envolve nestes projetos. É o meu caso. Faço isto porque há algo em que acredito”.

Distribuição de tarefas

Sobre os preparativos diz que já começaram “há mais de um mês, com a distribuição de tarefas”, mas que se intensificaram esta semana. A primeira coisa foi conseguir a verdura para a base do tapete. O pedido foi feito ao Instituto das Florestas e da Conservação da Natureza, que “já tratou de fazer uma primeira triagem aos ramos, de modo a que não se ocupe muito espaço”. E é precisamente por haver ali mais espaço que as tarefas foram concentradas nas Eiras, embora o tapete seja da responsabilidade também da Paróquia do Caniço.

Às poucas senhoras presentes aquando da nossa visita cabia precisamente a tarefa de ir separando, com recurso ao podão, algum galho mais grosso que ainda pudesse ter ficado para trás. Edite Alves,  do Sítio da Quinta, Paróquia do Caniço, era uma dessas senhoras. Apesar de ser a primeira vez que estava a desempenhar tal tarefa não só estava a gostar como achava que não se estava a sair mal. O facto de ser cozinheira e de “já ter as mãos calejadas”, ajuda no manuseio do podão e dos galhos e até vai dando para dois dedos de conversa, o que faz com que aquele tempo seja “um bocadinho bem passado”. 

Flores separadas por cores

Mas, e as flores? Bem, essas, só chegaram ontem, dia 19 de junho. Se tivessem vindo mais cedo acabariam por se estragar, e ninguém se pode dar a esse luxo.

Como sempre acontece nestas ocasiões, as paróquias pediram a colaboração das respetivas comunidades para conseguir flores em quantidade e diversidade. Mas aqui as coisas complicam-se. É que, lembra Sidónio Quintal, “apesar do Caniço ainda ter uma parte do seu território considerado zona rural”, a verdade é que “muitos jardins deixaram de existir”. Além disso, com o passar dos anos, perdeu-se o hábito que havia de “plantar flores para a altura do Corpo de Deus, como acontecia, por exemplo, com os não-me-deixes”. Por outro lado o calor, que “veio um bocadinho cedo”, também fez com que muita flor se estragasse antes do tempo. 

Perante esta realidade, pediu-se a colaboração de outras paróquias que não tendo este ano uma participação direta, poderiam ceder flores. Santana respondeu ao pedido.

A flores lá foram chegando. São tratadas com carinho e esmero e vão ter que dar para as obras de arte que, a partir das 15 horas, vão começar a surgir. São, como é hábito, separadas por cores, e acondicionadas em caixas, para facilitar depois o seu uso nos diferentes motivos do tapete. A tarefa da separação, embora contando com a mão de alguns homens, fica entregue sobretudo às senhoras.

Enquanto isso, os homens vão vendo alguns moldes e pensando na melhor forma de os usar. Antigamente, os desenhos eram feitos sem recurso a estas armações de madeira. Hoje já não é assim. No entanto, isto não significa que as pessoas tenham menos trabalho ou dificuldade para os executar. Curiosos, quisemos saber se haverá novidades a este nível, mas a resposta foi a que já esperávamos: “É procurar os cantos que nos estão reservados, em frente à Sé e ao pé do Comando, para ver”. Uma coisa é certa: “o esmero vai ser o de sempre”. Ainda assim admite que há sempre uma rivalidadezinha “saudável” entre as paróquias. E este ano, a realização dos tapetes vai estar a cargo das Paróquias do Caniço e Eiras e ainda da Calheta, Atouguia e São Francisco Xavier, Estreito de Câmara de Lobos, Canhas e Carvalhal. Cada uma viu ser-lhe atribuído, por sorteio o local, onde vai realizar a sua obra prima.

A procissão, que sairá assim que termine a Eucaristia agendada para as 18 horas, no Largo do Colégio, seguirá pela Avenida Zarco, Avenida Arriaga, Rua Conselheiro José Silvestre Ribeiro, Avenida do Mar, subida pela avenida Zarco, Avenida Arriaga até à Sé do Funchal.

É ao longo destas ruas que vamos poder admirar os tapetes, que o Pe. Rui Pontes, pároco do Caniço e Eiras, diz serem um “sinal exterior de comunhão”. Apesar de saber que o desafio era grande, principalmente por causa da falta de flores já referida por Sidónio, o mesmo foi aceite também por ser uma forma de “demonstrarmos a nossa fé”. 

Quanto ao facto de terem de pedir a colaboração a outras comunidades paroquais, o Pe. Rui Pontes diz que isso acaba por ter o seu lado positivo, já que “mostra que não temos tudo e que precisamos uns dos outros”. Além de que, acrescenta, ajuda a “criar amizade, cumplicidade e a aproximarmo-nos de outra maneira”.