Deus na sua misericórdia cura e salva

Rembrandt, O Retorno do Filho Pródigo (pormenor), Séc. XVII, Museu Hermitage - São Petersburgo

1.Afirma o Papa Francisco que Deus manifesta sua misericórdia divina como sinal de omnipotência e não como sinal de fraqueza. Na liturgia, nas coletas mais antigas somos convidados a rezar: «Desejo que os anos futuros sejam permeados de misericórdia para ir ao encontro de todas as pessoas levando-lhes a bondade e a ternura de Deus!» A todos, crentes ou não crentes, possa eu fazer chegar o bálsamo da misericórdia como sinal do Reino de Deus.

Deus é misericordioso pois sua bondade prevalece sobre o castigo e a destruição; perdoa as culpas e cura as enfermidades; é Ele que resgata a vida do túmulo e nos enche de graça e ternura (Sl 102,3-4); liberta os prisioneiros e ainda mais: cura os cegos, levanta os abatidos, ama o homem justo. O Senhor protege os que vivem em terra estranha e ampara o órfão e a viúva, mas entrava o caminho aos pecadores » (Sl 145, 7-9). E, para terminar, aqui estão outras expressões do Salmista: «(O Senhor) cura os de coração atribulado e trata-lhes as feridas. (…) O Senhor ampara os humildes, mas abate os malfeitores até ao chão » (Sl 146, 3.6). A misericórdia de Deus provém como um sentimento profundo, natural, feito de ternura e compaixão, de indulgência e perdão.

2.« Eterna é a sua misericórdia »: tal é o refrão que aparece em cada versículo do Salmo 136, ao mesmo tempo que se narra a história da revelação de Deus. Em virtude da misericórdia, todos os acontecimentos do Antigo Testamento aparecem cheios dum valor salvífico profundo. A misericórdia faz da história de Deus com Israel uma história da salvação. O fato de se repetir continuamente «eterna é a sua misericórdia», parece querer romper o círculo do espaço e do tempo para inserir tudo no mistério eterno do amor – o «grande hallel», como lhe chamam – nas festas litúrgicas mais importantes.

Enquanto instituía a Eucaristia, como memorial perpétuo d’Ele e da sua Páscoa, Jesus colocava simbolicamente este ato supremo da Revelação sob a luz da misericórdia. No mesmo horizonte da misericórdia, viveu Ele a sua paixão e morte, ciente do grande mistério de amor que se realizaria na cruz. Este fato torna este Salmo, para nós cristãos, ainda mais importante e compromete-nos a assumir o refrão na nossa oração de louvor diária: «eterna é a sua misericórdia».

3. O Papa Francisco, a respeito das bodas de Caná diz aos jovens na Exortação Apostólica ‘Cristo Vive’: os jovens são encarregados de uma tarefa imensa e difícil. Com fé no Ressuscitado, eles serão capazes de enfrentá-la com criatividade e esperança, como colaboradores do primeiro sinal de Jesus, que é apresentado apenas pela entrega de sua mãe: “Fazei tudo o que Ele disser” (Jo 2.5). Misericórdia, criatividade e esperança fazem a vida crescer. (Cristo Vive, 173).

Jesus declara que a misericórdia se torna critério para conhecermos os que são verdadeiros filhos de Deus. Somos pois, chamados a usar de misericórdia porque primeiro, ela foi usada para connosco. O perdão das ofensas torna-se a expressão mais evidente do amor misericordioso e, para nós cristãos, é um imperativo de que não podemos prescindir. Como parece difícil perdoar! Deixar de lado o ressentimento, a raiva, a violência e a vingança são condições necessárias para se viver feliz. Acolhamos, pois, a exortação do Apóstolo: «Que o sol não se ponha sobre o vosso ressentimento » (Ef 4, 26). Jesus colocou a misericórdia como um ideal de vida e como critério de credibilidade para a nossa fé: «Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia » (Mt 5, 7)

«Deus é amor» (1 Jo 4, 8.16): afirma-o o evangelista João. Em Jesus, este amor tornou-se visível e palpável. O seu relacionamento com as pessoas, que se abeiram d’Ele, manifesta algo de único e irrepetível. Os sinais que realiza, sobretudo para com os pecadores, as pessoas pobres, marginalizadas, doentes e atribuladas, decorrem sob o signo da misericórdia. N’Ele, nada há que seja desprovido de compaixão. Tudo n’Ele fala de misericórdia.