O cristão não ama a Deus como o fariseu

D.R.

A Lei de Deus liberta o cristão da “falsa religiosidade”, de seus egoísmos e interesses pessoais que são hoje as verdadeiras “divindades” ou “os ídolos” de muitos.

1.Na Bíblia, a Lei não é vista como um peso, uma limitação que oprime, mas como a doação mais preciosa do Senhor, o testemunho de seu amor de Pai, da sua vontade de estar próximo de seu povo, e de escrever com ele uma história de amor. Não haveria nenhum problema se o coração do homem estivesse em sintonia com o de Deus. Mas muitas vezes não é assim. 

O povo de Deus no deserto, mesmo acompanhado pela Lei divina que Moisés exortava com força a porem em prática, “o povo, sendo depositário da Lei, é tentado a recolocar a sua segurança e a sua alegria em algo que não é mais a Palavra do Senhor. Mas nos bens, no poder, em outras ‘divindades; que na realidade são vãs, são ídolos:’ 

A Lei “permanece, mas já não é a coisa mais importante, a regra de vida”. É o que no Evangelho Cristo censura nos fariseus, para os quais a Lei divina se tornou outra coisa: “Torna-se um revestimento, uma cobertura, uma pintura, e a vida segue outros caminhos, outras regras, interesses egoístas individuais e de grupo. E assim a religião perde o seu
autêntico sentido, que é viver na escuta de Deus para fazer a sua vontade, e se reduz à prática de ritos secundários, que tentam satisfazer a necessidade humana de sentir-se tranquilo perante Deus. Esse é um grave risco de toda religião, – que Cristo enfrentou no seu tempo, –  e que infelizmente, pode verificar-se, também hoje  no cristianismo.»

2.O Papa Francisco assinalou que os doutores da Lei, escribas, saduceus e fariseus, seguiam Jesus para ver se conseguiam apanhá-lo nalgum erro que cometesse. “Eram ‘engomados’. Eram rígidos. Jesus conhecia a alma deles. Escandalizavam-se das coisas que Jesus fazia quando perdoava os pecados, quando curava ao sábado. Rasgavam as suas vestes: ‘Oh! Que escândalo! Isto não é de Deus”. Não se importavam com as pessoas: importavam-se mais com as prescrições, os preceitos.

Num encontro com um desses fariseus, Jesus recebe o convite para comer em sua casa. O fariseu “ficou escandalizado” ao ver que Jesus omitia as purificações prescritas pela Lei judaica para antes de comer. A resposta de Jesus foi devastadora: “Vós, fariseus, limpais o copo e o prato por fora, mas o vosso interior está cheio de roubos e maldades”. E noutra ocasião: “Vós sois ‘sepulcros caiados’. ‘Belos por fora,… mas dentro cheios de podridão, de roubos e maldades”.

Os fariseus aproximam-se de Jesus e fazem perguntas com palavras amáveis, bonitas, melosas. Mostram-se amigos, mas é tudo falso, porque não amam a verdade. “Essa é a linguagem da corrupção: a hipocrisia, pois são eles mesmos que depois, irão prender Jesus e levá-lo a Pilatos. “São ‘os doutores das aparências’: sempre perfeitos, mas dentro, o que há?”.

3.Jesus fala aos seus discípulos: “Que a vossa palavra seja Sim, sim! Não, não!”. A hipocrisia não é uma linguagem da verdade, porque a verdade vai sempre acompanhada com o amor! Não existe verdade sem amor. O amor é a primeira verdade. Se não existe amor, não existe verdade. “Estes querem uma verdade escrava dos seus próprios interesses. Existe um amor, mas é o amor de si mesmos: a idolatria narcisista que os leva a trair os outros,  e ao abuso de confiança”. E são espetáculo!

A Igreja cresce “na simplicidade, no silêncio, no louvor, no sacrifício, na comunidade fraterna, onde todos amam e não se prejudicam”, e sem dar espetáculo. A Igreja manifesta-se “na Eucaristia e nas boas obras”, mesmo que aparentemente “não sejam notícia”, gera frutos “sem fazer barulho”, sem “tocar a trombeta como os fariseus”.

Num mundo onde se cede à tentação da mundanidade, do ‘aparecer’, Francisco recorda que Jesus escolheu “o caminho da pregação, da oração, das boas obras”, “da cruz” e “do sofrimento”, coisas que o mundo de hoje não tolera, mas esconde.

Um cristão não usa uma “linguagem socialmente educada”, inclinada à hipocrisia. “A mansidão que Jesus quer de nós não tem nada desta adulação, deste modo açucarado. É simples, como a duma criança. E uma criança não é hipócrita, porque não é corrupta.

4.Papa Francisco chama os cristãos a permanecerem atentos frente aos fariseus de hoje mais preocupados pelos preceitos do que pelas pessoas. Adverte para que “tenham cuidado com os rígidos – sejam eles leigos, padres, bispos – que se apresentam como ‘perfeitos’. Tenham cuidado. Não há o Espírito de Deus no seu coração”. 

O verdadeiro cristianismo está não em aceitar pura e simplesmente uma quantidade de fórmulas de orações, em realizar atos cultuais: promessas, novenas, peregrinações, procissões com vistosos andores, assistir a muitas missas, rezar milhares de terços, conhecer a doutrina toda como fórmulas químicas ou matemáticas,… Em tempo: de modo nenhum condenamos, mas até incentivamos, estas ‘’expressões de fé” sobretudo quando se opta pela qualidade mais que pela quantidade… Mas o cristianismo, mais que um conjunto ritos, é uma pessoa – Jesus Cristo – cujos gestos devemos encarnar na nossa vida. Ele é o caminho, a verdade e a vida. E os seus gestos são os que testemunharão a fé cristã. Gestos de caridade, de perdão, de auxílio para com os pobres e abandonados, os doentes e desprezados… Numa palavra: ser cristão é fazer como Jesus fez e ensinou. “Passou fazendo o bem”. O cristianismo é vida. Só seguindo Jesus Cristo é que temos a vida “e vida em abundância”. Ser cristão implica viver ao jeito de Jesus, e anunciá-lo através de gestos de amor e fraternidade.