D. José Tolentino Mendonça: Arquivo do pontificado de Pio XII documenta a «grande ajuda» aos prisioneiros de guerra

Bibliotecário e arquivista da Santa Sé afirma que a Biblioteca do Vaticano é um local para «frequentar o futuro» e conta como colabora com o programa deste pontificado.

Foto Agência Ecclesia/MC

Lisboa, 25 mai 2019 (Ecclesia) – O bibliotecário e arquivista da Santa Sé, D. José Tolentino Mendonça, afirmou que a Biblioteca do Vaticano é para “frequentar o futuro” e que o arquivo sobre Pio XII comprova que ajudou prisioneiros de guerra, num pontificado “assombroso”.

Por decisão do Papa Francisco, anunciada no dia 4 de março último, os documentos do pontificado de Pio XII (1939-1958) que estão no Arquivo Secreto da Santa Sé vão ser “tornados acessíveis” aos investigadores a partir do dia 2 de março de 2020, data em que se assinala o octagésimo aniversário da eleição papal de Eugenio Pacelli.

“A grande ajuda do Papa e da Santa Sé aos prisioneiros de guerra é um trabalho incrível. No Arquivo Secreto temos uma quantidade de documentação verdadeiramente extraordinária”, afirmou D. José Tolentino Mendonça.

O bibliotecário e arquivista a Santa Sé disse também que a documentação que vai ser aberta a investigadores mostra o que Pio XII fez em termos de caridade, que é “verdadeiramente assombroso”.

“Das milhares e milhares de pessoas que escreviam ao Papa, a pedir uma ajuda, uma ajuda material, não houve nenhuma que não fosse atendida”, referiu o arcebispo português.

D. José Tolentino Mendonça referiu que a documentação de um pontificado longo, num dos “períodos cruciais da história contemporânea”,  onde o “momento central” é a II Guerra Mundial” e se encontram referências a outras questões como a preparação do Concílio Vaticano II aos acontecimentos em curso em Portugal, vai acontecer após 13 anos de trabalho.

“É um pontificado muito interessante, quer pela questão de Fátima quer pela questão do regime político, por aquilo que se vivia nas várias dioceses” portuguesas, lembrou.

“O Papa Francisco disse, quando nos recebeu e fez o anúncio da abertura do Arquivo de pontificado de Pio XII, que a Igreja não tem medo da história. E é, no fundo, com essa atitude que o Papa decidiu abrir este pontificado, porque não tem medo da história e temos submeter-nos também, com humildade, ao juízo da próprio história”, sublinhou D. José Tolentino Mendonça.

Para o arcebispo português, “será uma abertura que é muito esperada e que, certamente, atrairá muitos historiadores”.

Na entrevista à Agência ECCLESIA, D. José Tolentino Mendonça descreveu o trabalho que faz na Biblioteca e no Arquivo da Santa Sé, cuidando de um “grande património” onde se conta uma “história que vem de longe”, com 2 mil anos, e inclui todos os saberes e referências a todas as geografias, também a portuguesa.

“Tudo o que é humano está dentro desta biblioteca e, neste sentido, é um espelho muito fiel da paixão do cristianismo pela pessoa humana e pela História”, sustentou o arquivista e bibliotecário da Santa Sé.

“Uma pessoa vai à Biblioteca e fica cheio de perguntas a pensar sobre o que é o Cristianismo ou a Igreja. É um projeto tão grandioso e tocante, tão amplo e abrangente que não deixa ninguém indiferente”, afirmou.

D. José Tolentino Mendonça disse que o Papa Francisco tem uma “relação de grande afeto” e “grande conhecimento” em relação ao mundo dos livros e considera que uma Biblioteca tem de estar ligada ao “futuro do cristianismo”.

“O Papa diz muitas vezes que o drama da Igreja, o seu pecado, é a autorreferencialidade. Uma biblioteca desta natureza recentra a Igreja na sua missão fundamental: ser um serviço, em nome de Deus, à pessoa humana. Essa vontade de servir a humanidade, a humanidade de todos, está ali bem patente”, afirmou o arcebispo português.

D. José Tolentino Mendonça considera que está “completamente ao serviço” do Papa, colocando o “tesouro” que constitui a Biblioteca do Vaticano em sintonia com “as linhas-mestra” e “o programa deste pontificado”, que “tem sido uma verdadeira primavera para a Igreja”.

“Nós somos colaboradores do Papa. Isso dá um sentido à nossa missão, que não teria se fosse só um projeto individual. Mas, mais importante até do que esta pessoa ou aquela, é estarmos todos juntos a colaborar para que o Papa possa governar a Igreja e ser a figura de Pedro, hoje”, disse D. José Tolentino Mendonça na entrevista à Agência ECCLESIA.