Fragmentar, manipular… E a família curativa?

D.R.

Dia internacional da família, festas das famílias. Que bom, não estar esquecida a família! Bastante se tem feito para isso. Na verdade, solidão rima com depressão, tédio, infelicidade e abandono. A solidão é vivida em ilhas do só, da sociedade fragmentada e dividida. O indivíduo avoluma-se, autocentra-se, corta laços de dar e receber. Negada a pessoa relacional, quase desaparece a família funcional, harmoniosa e solidária de entreajuda. Nem as redes sociais chegam para manter relacionamentos significativos em que circulam os eu, os tu e os eles.

A cultura do pretendido progresso do ter e do prazer de consumir, em vez de amor e de felicidade, avassala a cultura e a moda do tédio. As grandezas dos egos não ganharam o desafio de dar mais felicidade aos cidadãos com cada vez mais coisas, mas sem vizinhança e sem família. Os desvios do progresso deixaram as pessoas feridas por separações, disfunções e ruturas familiares de muitos eus justapostos, sem nós e sem laços, à procura ansiosa de pensos e bálsamos para os seus rasgões e stresses. Bebés aqui, crianças ali, mães naquele compartimento, pais em lugares longínquos, jovens oito horas por dia na escola e, as restantes, fechados a dedilhar o telemóvel ou nos espaços de curtir mágoas e vazios de confiança. «Só para jovens» traduz-se em mais do mesmo, sem diversidade etária nem vida multiplicada; mais vezes disfuncional em paralelo com os disfuncionamentos do pai e da mãe e dos irmãos (as)! Ah! Mas há dias mundiais de emergência e discursos de proclamação para tudo! Sim, mas tudo em separado, fragmentado.

Dia da criança não é o dia da mãe. O dia do pai não é o dia da mãe; o dia dos idosos não liga com o dia da juventude nem com família; nem o dia dos pobres com o dia dos ricos. Tudo em condomínios ultra protegidos, para multimilionários; ou, para pobres e miseráveis, as favelas e bairros de miséria, povoados de polícia, gangues e violência. Timidamente começa-se a falar mais no dia da família, mas mais na Igreja católica. A família não está na moda. Na moda estão as uniões casuais “à la minute” para os dias “não”. Os temas da família, agora, infelizmente, até estão nas bocas dos meios de comunicação pelas piores razões: violência familiar, agressões e morte. Não será porque tem andado a promover direitos de guerreiros, a armar egos e a fornecer munições defensivas e ofensivas a cada individuo? E a silenciar deveres, responsabilidades e entendimento? O jogo das violências rege-se pelo desafio de quem é o maior: se tu sobes a parada, eu dobro. Não serão tantas violências efeitos de misturas explosivas de frustrações, solidões de abandono, humilhações recíprocas, com ensaios agressivos de se libertar com investidas contra os obstáculos de ser o maior, entre desiguais; e lutas para ser primeiro, entre iguais. Badala-se muito a família com vazios de mãe, filhos, pai; e, mais estranho, às vezes, com pretensões de fazer passar por “família” a de dois homens ou de duas mulheres com orgulho. A sociedade continua a fabricar “ilhas” com o risco de pôr de parte a promoção de arquipélagos com informações massacrantes e manipuladoras, mas sem comunicação de vida entre os seus ilhéus rochosos.

Até nas paróquias há atividades para crianças, jovens, viúvas, idosos, em separado; mas poucas para famílias com pai, mãe e filhos e menos ainda com netos, filhos, pais e avós, em conjunto. Separar, fragmentar, inflacionar os egos, somar fragmentos humanos e solidões agrava os sofrimentos, os egoísmos, e reduz o apoio de proximidade. No meio destas securas ecoa a palavra fraternidade, tantas vezes, apenas a filha da revolução francesa, sem Pai; e sem rezar o Pai Nosso que Jesus ensinou às famílias dos homens e à família dos filhos de Deus e por isso irmãos. «Rezai assim: Pai Nosso…» (Mt 6, 9-13). Assim só é possível a fraternidade que rima com dupla orfandade, as de pais da terra e do Pai de vida eterna. Não foi Jesus que perguntou: “Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?» E, estendendo a mão para os discípulos, disse: “Aqui estão minha mãe e meus irmãos! Pois quem faz a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12, 48-50).Todos temos o mesmo Pai, todos somos família. Não foi também Jesus que disse para ser e estar próximos uns dos outros. Estar juntos em família e comunidades pode ser um remédio curativo contra a solidão; e tanto mais quanto os desolados sofredores e os acompanhantes aceitam estar juntos com Quem os convida: «vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei» (…) «encontrareis descanso para o vosso espírito» (Mt. 11, 28-29). Tereis relacionamentos de partilha e cura; e vidas de comunhão e alguma felicidade. Em vez de disfuncionais e doentes, muitas famílias poderiam, então, curar solidões e concorrer para alguma paz e harmonia na caminhada terrena.