Páscoa: do gelo da escuridão à alegria da descoberta do próximo

Ao descrever o Inferno, Dante Alighieri imagina o diabo sentado num trono de gelo; habita no gelo do amor sufocado. («Imperador do reino em dor tamanho / saía a meio peito ao gelo baço» (Inferno XXXIV, 28-29).  Eis a questão:: “o amor corre o risco de se apagar em nós?” 

D.R.

1.A ganância é “raiz de todos os males» (1 Tm 6, 10); depois dela, vem a recusa de Deus. Estes males fazem abater sobre nós a violência expressa nas ameaças que nos envolvem: a violência doméstica (que abrange esposos, crianças e idosos), o terrorismo (homens-bomba), o tráfico de droga e de seres humanos, as novas escravaturas do trabalho mal pago e da mulher despojada dos seus direitos e dignidade, a cultura da morte (no aborto, na eutanásia, nos conflitos) os assassinatos (em casa, na rua, nas discotecas, nas escolas), os idosos abandonados, os milhões de crianças a morrer à fome em guerras intermináveis alimentadas por armamentos fornecidos por aqueles que, por outro lado, pedem acordos de paz – numa hipocrisia mais ou menos descarada), os doentes desprezados e abandonados sem serviços públicos de saúde convenientes, porque atempados, as crianças sem escola porque têm de trabalhar para ajudar a salvar a família da miséria, as crianças e jovens raptados para a guerra (crianças-soldado), os corruptos que utilizam em seu favor os dinheiros públicos (ladrões de milhões), e porque não?, o próximo que não corresponde às nossas expetativas.

2.Nunca mais acabaríamos com a narrativa dos males que nos envolvem. Mas não posso esquecer a perseguição silenciada ou escondida sob termos “não chocantes”, que se vem fazendo contra minorias étnicas (por exemplo, a invasão do territórios dos índios, como em Roirama e na Amazónia, de que se vai falar muito este ano por causa do sínodo e da posição de Bolsonaro), contra minorias étnicas ou religiosas que são autênticos genocídios como a perseguição aos cristãos na Nigéria com centenas de mortos por causa da sua fé…. em holocaustos de tiros e de fogo destruindo aldeias inteiras…

E ainda, o Planeta está envenenado por resíduos lançados por negligência e por interesses; os mares, também eles poluídos, devem infelizmente guardar os despojos de tantos náufragos das migrações forçadas; os céus – que, nos desígnios de Deus, cantam a sua glória – são sulcados por máquinas que fazem chover instrumentos de morte. Os mares são armazéns de toneladas e toneladas de plásticos, que por vezes dão à praia. Preocupados, os seres humanos percorrem as ruas em marchas proclamando: “Salvemos o Planeta”.

3.Na Exortação apostólica Evangelii gaudium o Papa Francisco descreveu os sinais mais evidentes da “falta de amor nas nossas comunidades: a acédia egoísta, o pessimismo estéril, a tentação de se isolar empenhando-se em contínuas guerras fratricidas…” (EN nn. 76-109)

Deixemos a ganância e procuremos descobrir o nosso próximo, vítima de calamidades, abandonado no lixo, fazendo da partilha com ele o estilo de vida de todos – não só cristãos – em favor das Igrejas e populações em dificuldade. Os Apóstolos incentivavam os membros das comunidades a partilharem os seus bens. O amor reanima a vontade de sermos úteis.

“Se vos aflige, como a nós, a difusão da iniquidade no mundo, se vos preocupa o gelo que paralisa os corações e a ação, se vedes esmorecer o sentido da humanidade comum, uni-vos a nós para invocar juntos a Deus, e dardes o que puderdes para ajudar os irmãos!”, pede o Papa Francisco.

4.Na noite de Páscoa, a luz, tirada do «lume novo», pouco a pouco expulsa a escuridão e faz-se luz à nossa volta. «A luz de Cristo, gloriosamente ressuscitado, nos dissipará as trevas do coração e do espírito», para que todos possamos reviver a experiência dos discípulos de Emaús: ouvir a palavra do Senhor e alimentar-nos do Pão Eucarístico, viver a alegria dos discípulos em Jesus ressuscitado, permitirá que o nosso coração volte a inflamar-se de fé, esperança e amor.