Bispo do Funchal apela aos sacerdotes para que sejam “humildes e conscientes das suas fragilidades”

D. Nuno Brás presidiu hoje à Missa Crismal, na Sé do Funchal. No início da Eucaristia, referiu-se à tragédia de ontem, no Caniço. Homenageou ainda os padres que fazem 60 e 50 anos de sacerdócio.

Foto: Duarte Gomes

Os sacerdotes não podem julgar que são suas “as capacidades ou a missão” de que são investidos. Na verdade, “por nós, por muito sábios que porventura sejamos; por muito bons e clarividentes que nos julguemos ou que nos pensem os nossos semelhantes, nunca deixaremos de ser pecadores e frágeis, incapazes de pronunciar com verdade o ‘hoje’ de Deus.”

O alerta foi deixado por D. Nuno Brás na Missa Crismal desta Quinta Feira Santa, dia 18 de abril, na Sé, durante a qual o prelado acrescentou que “Jesus quer proclamar o hoje de Deus, connosco e por meio de nós. E essa vontade divina, esse olhar que repousou sobre nós e nos escolheu por motivos que apenas Ele conhece, só nos pode tornar humildes e conscientes das nossas fragilidades, para que em nós, no nosso ministério, no nosso pensar, agir e falar, no nosso ser apareça de um modo mais evidente e claro, a pessoa de Jesus.”

Esta Missa Crismal, a primeira que D. Nuno presidiu enquanto bispo do Funchal, contou com a presença dos bispos eméritos, D. Teodoro de Faria e D. António Carrilho, bem como com a presença de muitos dos sacerdotes da Diocese, que na ocasião fizeram também a renovação das suas promessas da ordenação sacerdotal.

“Não vos posso esconder a minha comoção ao presidir pela primeira vez a esta celebração que nos é, felizmente, tão querida”, começou por frisar D. Nuno na homilia, para logo lembrar que “na impossibilidade de, por motivos pastorais, concelebrarmos a Missa da Ceia do Senhor da tarde deste dia santo, quis a sabedoria da Igreja convidar-nos para, nesta Eucaristia de consagração dos santos óleos, tomarmos consciência do presbitério que somos, da missão que Jesus nos confia, a cada um e a todos, sinais visíveis da Sua graça, sacramentos vivos e para sempre da Sua presença no meio da história”.

Nesta festa do presbitério, o bispo do Funchal reconheceu ainda que “nos nossos dias um padre é solicitado por várias tarefas, muitas em si boas e que integram a sua missão, mas que não raras vezes o afastam do centro da sua existência”.  Mais: “É tentado por tantos outros pensamentos que o podem desviar daquilo que ele é, e das tarefas que o Senhor lhe confiou”. São, disse o prelado, “tentações do poder (político ou religioso), da importância, do estatuto social, ou tentações de se deixar diluir por entre a multidão, de ser como os demais e, quando muito, exercer o seu serviço em horários determinados, qual funcionário de uma instituição religiosa.”

O bispo do Funchal percorreu ainda as leituras meditando sobre “as palavras de Jesus: cumpriu-se hoje a passagem da Escritura que acabais de ouvir”. Deixai que, por alguns momentos, vos proponha uma meditação acerca do que pode representar para cada um de nós este “hoje” a que Jesus se referia”.

“Jesus é o hoje de Deus: Aquele para onde caminham todos os tempos, culturas e civilizações; Aquele de onde parte o sentido último e definitivo da própria vida humana — de todas as vidas humanas, da existência de cada um de nós.”, frisou.

E é “por causa deste hoje — que apenas Deus pode pronunciar com toda a verdade no seio da história — que aquela mesma palavra de Jesus, longe de ficar prisioneira de um passado, continua a ser proclamada no nosso tempo com todo o seu vigor e atualidade”.  Hoje, prosseguiu, “Jesus, o Ungido, o Messias, o Cristo do Pai continua a proclamar o Evangelho, a realizar a salvação no seio da história — aqui, bem presente no meio de nós que celebramos a Eucaristia nesta Sé do Funchal. E este hoje significa igualmente a realização da sua missão de anunciar a Boa Nova aos pobres, proclamar a libertação aos prisioneiros, a vista aos cegos, a liberdade aos oprimidos”.

Continuando, o prelado sublinhou: “A este hoje que atravessa a história, que lhe dá qualidade divina e permite a salvação de todos e cada um dos seres humanos, de todos os tempos e culturas, a este hoje divino que apenas o Deus feito Homem pode pronunciar plenamente, o Senhor associa homens frágeis e pecadores, dando-lhes a participar da sua unção, do seu sacerdócio, enviando-os a celebrar o memorial da sua paixão, capacitando-os para dizerem com toda a verdade as palavras da Última Ceia, enviando-os a espalhar o seu perdão. Não por sua causa ou para seu deleite, mas por causa de uma humanidade — os homens e mulheres do nosso tempo — a quem Ele não desiste de oferecer a salvação; a quem Ele não desiste de proclamar o ano da graça do Senhor.”

Hoje como em todos os tempos, acrescentou, “Ele vem ao encontro do mundo, ao encontro de todos os seres humanos, quaisquer que eles sejam, mas particularmente dos pobres, dos que têm o coração atribulado, dos cativos e prisioneiros, enredados nas malhas de tantos vícios e pecados. A esses urge que chegue a notícia do “hoje” da graça do Senhor, que chegue o Evangelho”.

No início desta Eucaristia, D. Nuno referiu-se ainda à tragédia de ontem, com um autocarro de turismo, no Caniço, e homenageou os padres que fazem 60 e 50 anos de sacerdócio, nomeadamente os padres Rafael Andrade e Mário Tavares (Bodas de Diamante), o Cónego Carvalho e o padre Adelino Macedo (Bodas de Ouro).

O bispo do Funchal procedeu ainda à bênção dos óleos dos catecúmenos e dos enfermos, e à consagração do óleo do Crisma.