Qualidade de cuidados e doentes que envergonham

D.R.

Por P. Aires Gameiro

Em congresso de psiquiatria recente surgiu uma voz a fazer um apelo para os doentes mais doentes e mais limitados por doenças mentais não serem esquecidos do orçamento público.

No mesmo sentido surgiu o problema das famílias com membros com doença mental que precisam de cuidados para toda a vida.

Além de reabilitação, treino de capacidades, intervenção precoce, novas dependências, etc., foram apresentados temas de investigação do cérebro, de telepsiquiatria, qualidade de cuidados e estigma.

O tema da organização de serviços mostrou grandes lacunas e áreas de estigmatização; deixam-se esquecidas pessoas com doenças mais limitantes e carregam-se de estigma relegando-as os serviços do setor social e do setor da Igreja católica, mas sem os apoios necessários; os governantes parecem ter vergonha de se ocuparem dessas pessoas mais dependentes toleram que outros as assistam com as migalhas dos dinheiros públicos.

Ainda recentemente um jornalista afirmava que os “cuidados informais” no país ultrapassam os profissionais. Causa surpresa que estes cuidados sejam mais volumosos que os de profissionais, sejam prestados por familiares e com frequência em horário inteiro, noite e dia. É estranho que esses cuidadores não sejam reconhecidos e que os familiares não recebam apoio adequado para não entrarem em stresse e poderem deixar o emprego ou limitar-se a emprego parcial para socorrer os familiares.

Precisariam de ser reconhecidos, talvez legalizados, terem alguns apoios sociais e económicos, mas não para serem transformados em cuidadores “profissionalizados” e burocratizados.

Portugal atrasa-se quase sempre e passa o tempo a resistir por diversas razões a novações humanizantes, por variadas razões; faz leis de cuidados aplicáveis apenas a parcelas reduzida de cidadãos e esqueça a maioria. Tenha-se em conta os cuidados paliativos e os cuidados continuados. Mais lamentável é que alguns políticos se apressem a fazer leis fraturantes de ideologia desumanizada com os dinheiros públicos.

Além dos cuidados informais e técnico profissionais, podemos considerar ainda os cuidados de proximidade e hoslisticidade, em contraste com os tecnológicos sem humanismo e redutores das dimensões da dignidade da pessoa humana. Os cuidados de proximidade não substituem, contudo, mas complementam os cuidados técnicos e os informais.

Apresentámos no mesmo congresso de psiquiatria S. João de Deus um breve ensaio sobre o conceito de cuidados de proximidade. Sem eles, os cuidados técnicos correm o risco de ficar sem qualidade por carência de humanização, animação e de pastoral da saúde.

A proximidade faz parte integrante da qualidade dos cuidados, a sua face meta técnica, quando focados na pessoa, na pessoa toda. Todas as dimensões da pessoa terão de ser consideradas e respeitadas. A pessoa do cuidador precisa de ligar a, importar-se com, dar importância a, olhar a, etc.

A pessoa cuidada precisa de sentir-se importante, com valor, olhada, tocada, ouvida; que lhe falam, lhe prestam atenção, que gostam de lhe falar e que ela fale. E que possa sentir-se bem: foi atencioso comigo, senti-me compreendida, senti que se importou.

A distância deixa-a só, e a sentir que não lhe ligam, não lhe dão atenção, não se aproximam dela, não gostam de a ouvir, nem lhe dão sequer uns minutos….A abrangência de dimensões da pessoa vai além das dimensões técnicas, da saúde física e mental. Inclui os interesses da pessoa, da relação de pessoa a pessoa, da transcendência, das crenças, ideais, vida além da morte, fé cristã.

Nem bastam as dimensões de bem-estar físico-psicossocial e espiritual. As dimensões da pessoa não acabam aí. A transcendência e a fé na vida para lá da morte fazem toda a diferença para o bem-estar…A fórmula de qualidade de cuidados traduz-se: para igual eficiência técnica, mais proximidade, mais abrangência dimensional e mais holisticidade dão mais qualidade aos cuidados.

Funchal, 21 de abril de 2018