A paróquia de São Martinho, criada por alvará régio do cardeal D. Henrique, rei de Portugal, a 3 de março de 1579, tem estado em festa por estes dias celebrando não só o seu padroeiro, mas também Nossa Senhora do Patrocínio. Ela e a sua igreja são hoje o alvo da nossa atenção neste espaço.
O nome da paróquia e da freguesia deveu-se à existência, na proximidade da chamada igreja velha, de uma pequena capela erguida por Afonso Anes, com a invocação de São Martinho de Tours (316-397). A escolha do nome do padroeiro acontece em 1579, com o alvará da criação da paróquia, indo ao encontro da tradição do culto a São Martinho, a quem os madeirenses haviam implorado a intercessão, durante a peste que assolou o Funchal. A 23 de julho de 1537, a vereação do Funchal fez um voto a São Martinho, para que prontamente desaparecesse a peste. Deste modo, decidiram erguer um altar na Sé com uma capela perpétua, onde se rezaria uma missa todas as quintas-feiras. Ao mesmo tempo, criou-se uma confraria com o nome do santo. O arcebispo D. Martinho (1533-1547) estabeleceu o dia de São Martinho como feriado na diocese do Funchal.
A construção da igreja nova
Depois de uma primeira capela, foi edificada no séc. XVII a igreja velha, hoje igreja de Nossa Senhora do Rosário. Todavia, perante o crescente aumento da população, a igreja velha foi-se tornando exígua. Começou-se então a pensar na construção de uma igreja de maiores dimensões. Para tal, foi escolhido um terreno no alto do pico da igreja, que viria a ser adquirido a 4 de março de 1881. A 15 de janeiro do ano seguinte, foi adquirido outro terreno anexo. Nessa altura já decorriam os trabalhos de terraplanagem.
Com grande dedicação e esforço do pároco de então, padre Manuel Pinto Correia, e também dos paroquianos, foi lançada a primeira pedra no dia 8 de julho de 1883, com a bênção do bispo D. Manuel Agostinho Barreto. Mas a obra não segue o seu curso normal, devido às dificuldades financeiras. Chega mesmo a estar parada durante cerca de 30 anos. Só graças à herança de José de Abreu, que legara quase a totalidade dos seus bens para a construção da igreja, foi possível retomar as mesmas.
Foi o pároco, padre Teodoro João Henriques, quem deu continuidade ao sonho. No dia 24 de junho de 1918, foi benzida a nova igreja e aberta ao culto. Dizem os jornais da época que o bispo benzeu a nova igreja às oito horas da manhã. Durante a tarde, realizou-se uma procissão com a imagem do Sagrado Coração de Jesus, da igreja velha para a igreja nova, terminando com novena e sermão pelo padre José Marques Jardim. Durante todo o dia, funcionou no adro um bazar, cujas receitas reverteram em benefício das obras da igreja.
A decoração da igreja nova
O padre Eleutério Caldeira, natural de São Vicente, foi quem “embelezou toda igreja com as pinturas do teto e das paredes e a colocação da talha do altar-mor, oriundo do Convento de Santa Joana em Lisboa, que havia sido oferecido por D. João V, cuja vinda para a Madeira foi providenciada pelo padre Casimiro Augusto de Freitas. Aí, podia-se ver até 1955, altura em que foi retirado para o Museu de Arte Sacra, o tríptico de Nossa Senhora da Encarnação, bem como a crucificação de Cristo, do século XVIII, pertencentes ao antigo mosteiro da Encarnação no Funchal.”
A decoração e pintura da capela-mor terminaram no dia 14 de agosto de 1956. Dois dias depois começaram os “trabalhos de colocação dos andaimes destinados à pintura do teto do corpo da igreja e à decoração das capelas laterais. Foi celebrada missa de ação de graças pelo Padre Caldeira, no dia 31 de julho de 1956, em atenção pela conclusão dos trabalhos da capela-mor e por se terem tirado os andaimes sem perigo (Cf. Notícia histórica da igreja nova de São Martinho).”
Em todos estes trabalhos de embelezamento do interior da igreja nova, estiveram presentes os artistas: Henrique Afonso Costa, Alfredo Bernes e João Silvino. Ao artista Afonso Costa coube a orientação dos trabalhos bem como a confeção dos respetivos projetos, pintura no teto dos motivos centrais e quadros sobre a vida de São Martinho integrados na decoração das paredes. “Os quadros baseados em motivos eucarísticos, que decoram a capela-mor, bem como o tríptico colocado na capela de São João Baptista são da autoria de Alfredo Bernes, sendo ainda deste artista e de João Silvino, toda a restante pintura ornamental. Os trabalhos de talha incluindo os lustres da nave central, bem como os bancos e lambris da mesma, estiveram a cargo do artista entalhador Alfredo Pimenta. Os trabalhos de douramento de talha foram executados pelo artista madeirense José Severino de Caires Soares (Cf. Notícia histórica da igreja nova de São Martinho; Dicionário das Festas, romarias e devoções da Madeira, de Manuel da Encarnação Nóbrega da Gama).”
No dia 19 de fevereiro de 2014, “foi benzido o novo altar da igreja, entalhado pelo mestre Jorge Andrade, e um novo ambão proveniente de Valência, Espanha. Em 2015 a igreja ganhou um novo guarda-vento e suportou restauros importantes no seu interior e nas imagens de culto como o Senhor dos Passos, Nossa Senhora das Dores, Santa Rita, Senhor Morto e Cruz. Uma pintura da Imaculada Conceição foi oferecida para a capela de São José. Do mestre Jorge Andrade são também a peanha da Cruz de Cristo, proveniente da igreja velha e o suporte em talha do Círio pascal.”



























