Por Cónego Vitor Gomes
Pároco da Sé do Funchal
O tecto da Sé
O tecto da Catedral é todo feito em madeira de cedro da própria ilha e segundo um projecto de estilo mudéjar que encontramos noutras Igrejas antigas da Madeira. Na opinião do Pe Pita Ferreira, trata-se do «tecto mourisco mais belo e mais rico que se construiu na Madeira e possivelmente em Portugal. A direcção destas obras de vulto não nos é conhecida mas alguns avançam que poderia depender de Pero Anes, «mestre das obras de sua Alteza e que por 1514 se encontrava a dirigir a construção da Alfândega do Funchal. A utilização de carpintaria mourisca é muito antiga em Portugal e vem da época em que os mouros ocupavam a península ibérica. As formas decorativas do tecto são de inspiração islâmica. Há três variantes de cobertura mudéjar na Sé do Funchal: a do tecto da nave central, a das naves laterais que é dum lanço só e a das capelas do transepto em forma de caixotão de oito panos. Todo ele é composto dum conjunto de figuras geométricas entrelaçadas e devidamente pintadas. No tecto da nave central destacam-se ainda um conjunto de estrelas de quatro e oito pontas, grandes florões e conjuntos de prismas convexos e côncavos dourados. Quatro frisos, em estilo renascença enriquecem o tecto do transepto, da nave central e laterais. São pintados sobre um fundo verde e emoldurados por duas cordas em talha. Nestes frisos destacam-se diversas figuras de anjos, ânforas, grifos, águias, centauros, escudos com a cruz de Cristo e esferas armilares. Esta pintura decorativa é a única da época de quinhentos existente na ilha. Esperamos que um dia este tecto possa vir a ser restaurado para podermos apreciar melhor a sua complexidade, o detalhe dos seus pormenores, a sua mais genuína beleza.

As construções anexas à Sé
Na parte da cabeceira da Sé, situam-se algumas construções de apoio à organização do culto na Sé que foram levantadas ao longo dos seus cinco séculos de existência. Estando a casa do cabido em estado bastante ruinoso no início do século XVIII e a antiga sacristia da torre revelando-se muito exígua, o bispo do Funchal D. Manuel Coutinho mandou que fosse construída uma grande sacristia e uma nova casa do cabido. As obras decorreram entre 1731 e 1735 e foram orientadas pelo mestre das obras reais Diogo Filipe Garcês. A obra de talha da sacristia, em estilo barroco, embora nunca tenha sido dourada, é da responsabilidade de Manuel Pereira e de Julião Francisco Ferreira. No centro, há um altar onde está uma pintura sobre madeira, de S. Gregório. Existem ainda várias telas nas paredes laterais que, não sendo de muito valor artístico, poderão até ter vindo duma outra Igreja. Algumas delas estão datadas e encontram-se actualmente em fase de restauro. Junto à sacristia situa-se a casa do Cabido, de dois pisos. É da mesma época e foi construída em simultâneo com a sacristia. No piso superior, possui duas salas amplas. Numa estão os armários dos cónegos e na outra, que é propriamente uma sala de reunião, podem ver-se os quadros de todos os bispos que governaram a diocese. Também nestes anos de 1730-1735 foram construídas as instalações da Confraria do Santíssimo da Sé, como já foi referido.


























