Comentário à Liturgia do XXVII Domingo do Tempo Comum

D.R.

Tenho sede do teu amor

 

A imagem da vinha, do trabalhador e do proprietário

Ultimamente todas as leituras usam o tema da vinha para falar da vida cristã, de Deus, de nós, da Igreja, do Reino. Quem não recorda o proprietário que saiu a toda a hora a chamar os desocupados que estavam na praça da cidade? O nosso Deus não nos deixa ficar sem trabalho, não quer ver ninguém acomodado. A todos chama e propõe o trabalho na sua vinha. Quem não recorda o pai que tinha dois filhos e quer que trabalhem os dois na sua vinha. Um diz não o outro diz sim. O primeiro reconsiderou, mudou de atitude e foi. O último disse sim, mas foi palavra vazia, oca, diz o povo: “muita parra e pouca uva”. Deus quer de nós um sim consequente, um sim cheio de vida, um sim e um agir intimamente ligados para trabalhar na sua vinha. Em qualquer momento e em qualquer situação em que nos encontremos há sempre tempo de voltar para Deus e dizer-lhe um sim e agir conforme ao sim dado.

Deus espera bons frutos

«Havia um proprietário que plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar e levantou uma torre…” (Mt 21, 33).

Sem dúvida a imagem da vinha é uma das imagens bíblicas mais belas para falar da relação de Deus com o seu povo. A primeira leitura deste Domingo está intimamente relacionada com o Evangelho, se bem que de forma diferente, toca na imagem da vinha. Esta imagem faz imediatamente recordar uma das últimas palavras de Jesus na Cruz: “tenho sede!”. Nessa altura, um soldado deu-lhe a beber vinagre embebido numa esponja. Esse soldado sou eu e somos nós. Deus espera de nós bons frutos, frutos doces e saborosos de caridade, mas pelo contrário, tantas vezes damos-Lhe vinagre azedo da nossa incapacidade de corresponder ao Seu grande amor. É esse o significado da primeira leitura. O amigo planta uma vinha e cuida dela com uma enorme narração de cuidados e atenções. Porém, quando esperava vir a colher boas uvas, vai apenas encontrar agraços. E agora que irá fazer? Esta é uma pergunta que nos compromete e nos envolve.

Ao primeiro impulso, a apetece responder que se fosse connosco iríamos arrancávamos aquela vinha que só produz espinhos e plantávamos outra, mas rapidamente percebemos que nós somos essa vinha e que o melhor será pedir a Deus que tenha misericórdia de todos nós. Que tenha paciência e espere mais um ano para que possamos produzir as uvas saborosas tão esperadas.

Somos simples instrumentos na mão de Deus

A leitura do Evangelho, se bem que use a mesma imagem da vinha, vai é identificar os vinhateiros com os judeus fariseus. Aqueles que não souberam não só cuidar da vinha, como não reconheceram o seu dono. Pensaram que eram os proprietários e donos da vinha e não reconheceram o Senhor da messe. Aquela vinha só pode ser entregue a quem saiba respeitar o dono e a quem saiba bem cuidar da vinha em nome do verdadeiro proprietário.

É uma verdadeira chamada de atenção para a nossa forma de estar e ser Igreja. Não podemos tratar da Igreja como se fôssemos donos dela. Cristo é o Salvador e o Senhor da Igreja. Nós somos apenas instrumentos nas Suas mãos, somos apenas servos. No entanto, Ele trata-nos como amigos. Senão soubermos viver bem a alegria de ser cristãos, então Deus chamará outros e nos seremos colocados de parte. Ser cristão é um verdadeiro dom, mas é também uma responsabilidade a viver plenamente o dom recebido por Deus.

Ser cristão é…

A segunda leitura de São Paulo foge diretamente ao tema da vinha, mas com atenção veremos que os frutos que Deus espera de nós é que tenhamos confiança de que estamos nas suas mãos e que ser cristão é ser verdadeiro e nobre; é ser justo e puro; é ser amável e de boa reputação.

Como dizia São João de Deus, pelas ruas, como um louco: “O Amor não é amado”.

A todos desejo um feliz Domingo!