Por Cónego Vitor Gomes
Pároco da Sé do Funchal
A capela do amparo (hoje de N. S. de Lurdes), situada à direita da capela mor, foi mandada construir pelo rei D. Manuel, por volta do ano de 1508. Ela tem uma porta gótica de acesso à única sacristia existente até ao século XVIII. Até 1628, ela teve como titular S. Tiago maior, passando depois a ser dedicada a Nossa Senhora do Amparo com a criação da confraria de Nossa Senhora do Amparo. É uma capela gótica com dois tramos e abside de três panos. No museu de arte sacra, há uma pintura de S. Tiago Maior, de estilo flamengo, que possivelmente pertenceu à antiga capela de S. Tiago da Sé. Com a criação da confraria do Amparo, esta pintura que, segundo o P. Pita Ferreira, era levada todos os anos em procissão até à Igreja de S. Maria Maior, teria ficado definitivamente aí. «Sendo o voto feito no dia 11 de Junho de 1521 e a procissão realizada no dia 21 de Julho seguinte, não houve tempo, em tão pequeno espaço, para se encomendar e adquirir na Flandres o retábulo do santo. Para resolver a dificuldade, certamente o Cabido deitou mão do quadro de S. Tiago Maior, existente na sua capela da Sé, e fê-lo convicto de que o povo não faria distinção entre Maior e Menor»[1].
Como a necessidade se fez sentir, desde o início da construção da Sé, de abrir um acesso para a parte traseira da Sé, o cabido, pouco depois de 1550, resolveu abrir uma porta na capela do Amparo e para isso o altar foi levantado e construída uma escada de acesso ao altar. Debaixo do altar havia uma porta que comunicava com o exterior onde se encontrava a casa do cabido. Depois de 1628, a Capela do Amparo voltou a sofrer modificações. Foram colocados, a par de uma pintura central muito valiosa e mais antiga de Nossa Senhora do Amparo datada de 1543, quatro quadros laterais de menor valor – uma Sagada família, Jesus entre os doutores, as bodas de Caná e uma fuga para o Egito – assim como várias peças em talha de estilo renascença que pouco se adaptam ao estilo gótico, relativamente austero, da sua arquitectura. Além disso, sobre o arco gótico que dá para o transepto, foi construída uma estrutura de talha onde ficou uma grande pintura de Nossa Senhora do Amparo, na qual a Virgem ampara, sob o seu manto, personagens de diferentes classes sociais e religiosas. Dois anjos sustentam uma fita na qual está escrito: «À tua protecção nos acolhemos, ó Virgem».
Entre 1731 e 1735, a Capela do Amparo voltou a ter novas modificações. A escada que ficava na parte central da capela foi substituída por duas escadas laterais. O altar foi ainda mais levantado e enriqueceu-se a entrada com dois panos de azulejos ao estilo do século XVIII representando a Anunciação do Senhor e o nascimento de Cristo.
A Capela do Santíssimo Sacramento
Esta capela que se encontra à esquerda da capela-mor foi mandada construir pelo rei D. Manuel e supõe-se que já estava pronta em 1508. Tem a mesma traça gótica da capela do Amparo. A abóboda está ornamentada por nervuras que se cruzam no centro e se prendem por chaves onde estão esculpidos vários símbolos eucarísticos, – o cordeiro, espigas de trigo e um cacho de uvas. No seu conjunto sofreu várias transformações através dos séculos, sendo a mais importante a dos fins do século XVIII.

Antes de ser remodelada, a capela do Santíssimo Sacramento possuía quatro quadros nas paredes, conforme dá conta um inventário da confraria do Santíssimo de 1709. Em 1722, Henrique de Noronha refere a existência destas pinturas e ainda duma pintura central, um calvário relativo à morte de Jesus na cruz que fazia parte dum camarim onde se expunha o Santíssimo. Esta tela encontra-se actualmente no museu de arte sacra. É considerada como uma peça do início do século XVI[2]. Em 1701, decidiu a confraria fechar a capela do Santíssimo com uma grade de prata que ficou pronta em 1705. Estas grades de prata estiveram 129 anos a enriquecer a entrada da capela do Santíssimo até que, em 1834, a confraria resolveu retirá-las e substitui-las, em 1839, pelas que hoje aí se encontram e que foram feitas por um mestre de sobrenome «Pires». Com uma parte da prata da cancela foram feitas várias jarras para ornato da capela e a outra parte acabou por ser vendida.
As obras de maior vulto na capela do Santíssimo começaram em 1769 e terminaram em 1772, e foram realizadas por uma equipa liderada, por certo, pelo mestre das obras reais Domingos Martins. É de notar as semelhanças entre o retábulo da capela-mor da Igreja de S. Jorge, benzido em 1761, e a talha da capela do Santíssimo da Sé. As principais peças foram realizadas pelo escultor Agostinho José Marques, em especial, as figuras femininas que ocupam as paredes laterais da capela e que designam as três virtudes teologais: fé, esperança e caridade, assim como as duas figuras centrais que ostentam símbolos eucarísticos. O dourador foi José António da Costa, natural das Canárias. O chão e as paredes da capela estão revestidos a mármore importado de Lisboa e de Londres através de William Smith. O sacrário que se encontra actualmente no altar do Santíssimo foi adquirido pela confraria e é obra dum ourives madeirense, provavelmente Simão Lopes que, por esta altura, começava a execução do sacrário em prata da Igreja de santa Clara. Nos fins do século XVIII ou princípios do século XIX, o sacrário foi modificado sendo-lhe retirados os dois corpos superiores e o remate, para com a sua prata ser feita a actual maquineta (isto é, o expositor do Santíssimo Sacramento) da Sé que se encontra hoje por cima do sacrário. Em tempos, o altar do Santíssimo também possuiu um frontal de prata.
O conjunto da capela do Santíssimo, tal como o encontramos hoje, apresenta uma harmonia própria dum período de transição entre o estilo barroco e o rococó, com as suas colunas salomónicas profusamente decoradas e os seus baldaquinos finamente entalhados que encimam as diversas imagens da capela e o espaço superior do altar. Sobre o arco gótico que dá para o transepto, há ainda um conjunto de talha ladeado por dois anjos e no centro uma tela representando a última ceia, um conjunto que foi aí colocado no século XVII.
A confraria do Santíssimo Sacramento da Sé foi instituída em 1638 pelo bispo D. Jerónimo Fernando, altura em que foram aprovados os seus estatutos. Em 1648, decidiu a mesa da confraria construir um camarim para a exposição do Santíssimo Sacramento na Quinta-feira Santa, conjunto que só estaria pronto em 1652. Esta peça foi confiada a vários entalhadores da ilha, de modo particular a Manuel Pereira que foi aquele que esculpiu as personagens da última ceia, prontas em 1652, assim como os painéis com os evangelistas, as cenas da paixão e ainda os cinco anjos. Para guardar as peças do camarim, a confraria adquiriu um terreno ao lado da Sé e aí construiu uma casa em 1655. Com as sucessivas montagens e desmontagens do camarim, algumas peças perderam-se, outras peças foram colocadas no retábulo do altar-mor. As que restaram estão hoje expostas no museu de arte sacra. Em 1732, começou a ser construída a sala da confraria sobre as ruinas duma antiga capela das almas. Esta sala foi ornamentada com um rico painel de azulejos e dotada dum móvel para guardar as pratas da Confraria.
Anexa à capela do Santíssimo Sacramento, encontra-se uma pequena sacristia cujo tecto foi decorado com motivos em estuque tendo, no centro, o brasão de armas do rei D. José. Ao centro está o altar de Nossa Senhora dos Anjos com uma pintura datada de 1688 e encomendada pelo mercador Manuel Gonçalves de Freitas a uma oficina de Lisboa. Na parte superior do altar existe, esculpida na talha, uma representação da coroação de Nossa Senhora. O altar é atribuído à oficina de entalhamento de Manuel Pereira de Almeida.
[1] P. Pita Ferreira, op. cit., p. 274.
[2] Henrique Henriques de Noronha, op. cit., p. 140.






















