O mestre de obras da construção da Sé do Funchal

Em memória dos 500 anos da dedicação da Sé do Funchal (1517-2017)

© Luis Fernandes

Por Cónego Vitor Gomes

Pároco da Sé do Funchal

Não há documentação da época quanto aos trabalhos de construção da Sé nem quanto aos artífices que aí trabalharam. Apenas conhecemos a referência a um mestre de pedreiros da Sé, Gil Enes que teve a seu serviço toda uma equipa, dedicada não só a esta obra mas certamente a outras que se seguiram como a construção da Alfândega.

É possível distinguir uma primeira fase de levantamento das paredes que fazem parte da estrutura da Sé, uma outra de levantamento das capelas do transepto e uma outra ainda da construção da torre que constituiu uma obra monumental.

Em 1722, Henrique de Noronha escreve a propósito do mestre de obras da Sé: «O arquitecto de toda esta obra foi um Juliannes como se vê do letreiro da sua sepultura que está na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, freguesia do Arco da Calheta, obra também da sua mão na qual se lê: Aqui jaz, Juliannes, Mestre das obras da Sé»[1]. É de presumir que um bom número de operários, mestres de obras e canteiros tenham vindo do Reino embora com uma base importante de bons mestres madeirenses.

O Pe Pita Ferreira, no seu livro sobre a Sé, tem algumas dúvidas que este Gil Enes seja de facto o arquitecto da Sé uma vez que a expressão de «pedreiro-mestre, gravada na sua pedra tumular» não significa forçosamente arquitecto na concepção actual. É verdade que na Idade Média o termo não existia, mas antes o de mestre de obra ou de mestre-pedreiro.

Ele observa com razão que «mestre-pedreiro» não significa o mesmo do que mestre da obra mas apenas duma parte da obra. Por isso, Gil Enes deve ter sido apenas um responsável por uma secção da obra relativa ao entalhamento e construção da obra em pedra. Para além disso, há referência na mesma época, nas obras da Alfândega do Funchal, dum Pero Anes, mestre das obras de sua Alteza que deverá também ter supervisionado as obras da Sé, uma vez que encontramos a sua assinatura na pedra de cantaria da antiga sacristia da Sé. Nesse caso, Gil Enes, enquanto pedreiro mestre, estaria sob a direcção geral de Pero Anes. Uma tradição de que Henrique de Noronha já dá conta, em 1722, consiste em atribuir-lhe a máscara que se vê no púlpito da Sé e que pode ser aproximada duma outra que fecha a cantaria exterior da porta lateral da capela de Nossa Senhora da Encarnação no Funchal.

Na ausência de documentos relativos às obras da Sé e aos seus responsáveis, os poucos indícios que temos só nos permitem algumas conjecturas cujos limites são evidentes.

[1] Henrique Henriques de Noronha, Memórias seculares e eclesiásticas para a composição da história da Diocese do Funchal (1722), Nova edição D.R.A.C., 1996, p. 135-136.