Por Cónego Vitor Gomes
Pároco da Sé do Funchal
O retábulo do altar-mor
O retábulo do altar-mor da Sé do Funchal é composto por cinco corpos cobertos, na parte superior, por um sobrecéu decorado com um fino rendilhado de talha e onde estão, ao centro, as armas reais e, ao lado, esferas armilares. No corpo central, em baixo, fica o sacrário, rodeado de pequenas imagens de anjos músicos; na parte intermédia a imagem da padroeira da Catedral, Nossa Senhora da Assunção, imagem que veio da Igreja de S. Pedro e foi colocada aí já no século XX. A primitiva imagem de Nossa Senhora teria sido destruída pelos corsários no saque da Sé de 1566. Ao alto, haveria um nicho com o Senhor crucificado que o último restauro realizado em 2014 repôs em evidência, tendo sido retirada a pintura do Senhor do horto que aí estava anteriormente. Sobre as pinturas de influência flamenga há uns frisos góticos em talha que são apenas réplicas do friso inferior, o único ainda existente. Antes do restauro de 2014 havia elementos de talha do antigo camarim da Sé que aí tinham sido colocados porque faltavam já os frisos originais. Outros elementos de talha do antigo camarim encontravam-se no nicho onde está a imagem de Nossa Senhora mas foram, no último restauro, retirados para dar lugar a um fundo azul donde ressalta o esplendor barroco da Senhora da Assunção.
As pinturas do retábulo cujo autor se desconhece, mas que várias hipóteses apontam para as oficinas do mestre da Lourinhã, devem ser lidas numa sequência horizontal. A começar de cima para baixo, a primeira série evoca a Páscoa de Jesus (no horto das Oliveiras, no caminho do Calvário, no alto da Cruz e como ressuscitado), a segunda série alude aos acontecimentos da vida de Nossa Senhora (Anunciação do anjo, nascimento de Jesus, o Pentecostes com a presença de Maria no Cenáculo, Assunção ao céu), a terceira série tem a ver com a Eucaristia e relaciona o Antigo e o Novo Testamento (O sacrifício de Abraão oferecido diante de Melquisedec, a última ceia, a celebração da Missa segundo o tiro gregoriano, o maná no deserto). Os acontecimentos da Páscoa, Maria e a ceia pascal formam um todo e revelam a presença permanente do Evangelho, fonte de renovação da vida da Igreja no presente.
O cadeiral do Cabido
O cadeiral da Sé do Funchal é um conjunto de grande valor artístico cujo autor ou autores se desconhecem, embora diferentes hipóteses tenham sido avançadas. O Pe Pita Ferreira considera que se trata de um desenho de Olivier de Gand executado pelo conjunto de artistas que o acompanhava. Rafael Moreira atribui a realização do cadeiral a Machim Fernandes, em parceria com o «carpinteiro de Tomar» João do Tojal. O mestre Machim tinha sido recrutado em Toledo para várias obras durante o reinado de D. Manuel, em especial as várias obras na Igreja matriz de Tomar, entre as quais a talha para o cadeiral dos cónegos. Supõe-se que terá vindo à Madeira com a sua equipa para terminar a obra no próprio local. O cadeiral compõe-se de duas ordens de cadeiras corais, uma mais alta e destinada aos Cónegos e a inferior aos capelães. A parte alta termina com um baldaquino onde se encontra finamente esculpido um rendilhado em talha dourada. Sobre cada um dos assentos da parte superior está esculpida uma imagem que se considera ser dum apóstolo ou de um profeta. Embora algumas destas representações nos pareçam designar os Apóstolos ou outras personagens bíblicas, Moisés e os profetas, pela maneira como se apresentam e pelos símbolos que ostentam, outras imagens são mais enigmáticas. No espaldar das vinte e duas cadeiras, as imagens esculpidas apresentam vestes amplas e são concebidas num estilo de influência flamenga. Na parte inferior, os remates das cadeiras dos capelães, assim como os braços e a parte inferior dos assentos móveis são ornados com pequenas figuras que nos sugerem a imaginação, a fé, a ironia, a sátira dos artistas que as esculpiram. Eis como o Pe Pita Ferreira as descreve: «As mais interessantes encontram-se na parte inferior dos assentos, em que se vê um javali fiando, um touro, um borracheiro, uma águia com uma serpente no bico, um burro a cantar diante dum livro, um homem a tapar os ouvidos para não ouvir, um urso comendo, uma raposa vestida de burel tentando enganar uma galinha, um cavaleiro com um saco à cabeça, S. Paulo descendo os muros de Damasco, uma raposa e um galo, um homem fabricando um borracho, um animal com um filho às costas, um oleiro, um carregador com seu carro de mão, um homem com um burro às costas, um leão, uma cadela com seu filho. Sansão estrangulando o leão, um lavrador apanhando fruto e um cão a se lamber»[1]. Todo o estilo do cadeiral é gótico com alguns indícios da influência da primeira renascença, por exemplo no espaldar das cadeiras dos capelães. O cadeiral da Sé sofreu ainda algumas modificações ao longo dos séculos. Nos finais do século XVI abriu-se uma porta da capela-mor para a Capela do Amparo, porta que ainda conserva a sua forma do lado da capela do Amparo mas que foi posteriormente fechada. Em 1755, o cadeiral tomou a sua forma actual. A comunicação com a capela do Amparo voltou a ser cortada, as cadeiras retiradas em 1588 para a abertura da porta, foram respostas e todo o cadeiral foi pintado e dourado.
São muito interessantes os capitéis das colunas que sustentam o teto da capela-mor. Eles diferenciam-se dos restantes capitéis da Sé pelas figuras que neles estão esculpidas, a saber: os símbolos dos quatro evangelistas, Santo Estêvão mostrando uma das pedras do seu martírio, S. Lourenço segurando a sua grelha, S. Paulo com a sua espada e outros apóstolos.
Nos finais de 1745, o cabido da Sé resolveu valorizar as paredes laterais da capela-mor com um projecto para pintar em seis painéis os doze frutos do Espírito Santo, dois em cada painel. A ideia não será finalmente aprovada, mas os painéis serão pintados com motivos bíblicos, alusivos ao nascimento de Jesus (adoração dos magos e fuga para Egito) e à vida de Nossa Senhora (a sua apresentação no Templo, o seu casamento e a anunciação do anjo Gabriel). Embora estas pinturas de grandes dimensões, ainda hoje nas paredes laterais da capela-mor, não estejam assinadas, estima-se que tenham sido feitas por diferentes pintores e o Pe Pita Ferreira sugere mesmo que algumas delas (anunciação e nascimento de Cristo) poderiam ser do pintor Vieira Lusitano. Na mesma época fez-se também a pintura decorativa do tecto da capela-mor.
Importa ainda destacar o altar da capela-mor que foi feito em pedra da Arrábida e trazido para a região antes de 1517. Com este altar teria vindo também a própria pia baptismal, também esculpida na mesma pedra, assim como o púlpito da Catedral, a que nos referiremos mais adiante. Este altar relativamente pequeno que hoje se encontra por detrás da Cátedra do Senhor Bispo foi inserido num altar maior em madeira situado junto ao retábulo. Com a reforma do concílio Vaticano II foi construído um novo altar no transepto e, retirada a estrutura de madeira, ficou o pequeno altar de pedra na sua traça inicial. Foi aí que se descobriu o documento da sagração da Sé a 18 de Outubro de 1517.
[1] P. Pita Ferreira, op. cit., p. 244.




















