O interior da Sé do Funchal

Em memória dos 500 anos da dedicação da Sé do Funchal (1517-2017)

Por Cónego Vitor Gomes

Pároco da Sé do Funchal

Podemos constatar que «o interior da Sé apresenta-se […] como profundamente manuelino, quer nas molduras e na inscrição dos vãos, como nos capitéis, mísulas e chaves das abóbadas das capelas da cabeceira, hoje pintados, com decorações vegetalistas, zoomórficas e antropomórficas. Os capitéis das elegantes colunas das naves apresentam simples decoração de meios-pelouros, tornando-se a decoração mais exuberante nas mísulas polilobadas dos arcos do transepto»[1]. Se a estrutura geral da Sé foi sempre a mesma com capela-mor e duas capelas adjacentes, o transepto e três naves houve, no entanto, ao longo dos séculos algumas transformações como a abertura de portas para o exterior, o redimensionamento das janelas ou ainda a criação de altares nas naves laterais nos finais do século XVIII.

Para além da capela-mor e das duas capelas laterais, de que faremos referência mais à frente, a Sé teve no princípio o conjunto dos seus altares na zona do transepto, como refere Henrique Henriques de Noronha em 1722:

«O cruzeiro se reparte com oito altares e duas capelas colaterais: pela parte do Evangelho [à direita da capela mor] segue-se à capela-mor o altar de Nossa Senhora da Conceição; e logo a Capela de Nossa Senhora do Amparo, que no seu princípio teve por orago Santiago Maior […] A esta capela seguem-se os altares de S. Jorge e do arcanjo S. Miguel; no topo do cruzeiro fica o de S. António; e da parte de Baixo outro altar das almas […] Pela parte da Epístola, segue-se à capela-mor [pelo lado esquerdo] o altar de Nossa senhora do Rosário, ao qual se segue a capela do Santíssimo, correspondente à do Amparo […] Os altares que se seguem a esta capela são o de S. José e o da Ascensão do Senhor; e no topo do dito cruzeiro, defronte do de S. António fica o do Bom Jesus, que antigamente se chamou de Santa Ana cujo dia foi sempre de guarda nesta diocese […] e depois se transferiu para o altar de N. S. da Conceição».

Como podemos observar, esta disposição dos diferentes altares no espaço do transepto difere quase por completo da disposição que hoje possuímos. À parte os dois altares de S. António e do Bom Jesus que se encontram sempre, embora remodelados, no «topo do cruzeiro», como diz Henrique de Noronha, todos os demais foram transferidos nos finais do século XVIII para as naves laterais.

A capela-mor, assim como as duas capelas laterais do Amparo e do Santíssimo Sacramento são exemplares típicos do estilo gótico, com particular destaque para as abóbadas ogivais unidas por chaves com motivos manuelinos, como as armas do rei D. Manuel, a cruz manuelina e a esfera armilar ou ainda outros motivos vegetais. Os arcos góticos com que as capelas comunicam com o transepto apresentam a austeridade própria da época mas o da capela-mor é ainda ornado com lóbulos como noutras catedrais portuguesas da mesma época.

No interior da capela-mor, destacam-se ainda duas frestas onde foram colocados, em Julho de 1959, dois vitrais da autoria de J. Rebocho. O que mais sobressai, no entanto, na capela-mor é a obra de talha do cadeiral e o próprio retábulo, recentemente restaurado, um conjunto que pode ser datado do primeiro quartel do século XVI. Desconhece-se qual seria o autor ou autores do retábulo ou das pinturas que nele se encontram, mas podemos reconhecer os traços da pintura e da arte flamengas. A influência desta arte do norte da Europa ficou a dever-se à vinda de artistas de formação flamenga para Portugal, os quais fizeram escola entre os artistas nacionais. O retábulo não podia ser feito na Madeira pois, entre 1493 e 1508, ainda não existiriam artistas capazes de conceber um conjunto tão elaborado e, além disso, temos indicações de que os altares das primeiras Igrejas da Madeira vinham sempre do continente. Como observa o P. Pita Ferreira, «o seu desenho e talha revelam-nos um artista de garra, conhecedor profundo do gótico flamejante, desenhador perfeito, executor hábil e homem de fama, para merecer ter, entre os seus fregueses, a El-Rei D. Manuel»[2]. O mesmo autor avança a hipótese de que o retábulo da Sé do Funchal tenha sido executado ao mesmo tempo que o do altar da Igreja de S. Francisco em Évora e portanto deveria ter chegado à Madeira antes de 1508.

[1] Rui Carita, A Sé do Funchal, Ed. D.R.A.C., Funchal, 2015, p. 44.

[2] P. Pita Ferreira, Op. cit., p. 240.