Sé do Funchal: Descrição geral do edifício

Em memória dos 500 anos da dedicação da Sé do Funchal (1517-2017)

D.R.

Por Cónego Vitor Gomes

Pároco da Sé do Funchal

 

Em 1722, Henrique de Noronha escreve as suas memórias para a história da Diocese do Funchal e detém-se a considerar o imponente edifício da Sé que descreve segundo as medidas da época e com palavras admirativas pela sua «maravilhosa arquitectura»:

«Tem de cumprimento o corpo desta Igreja duzentos palmos geométricos [um palmo é o equivalente, sensivelmente, de 22 centímetros]; de largo, nas três naves, cem palmos geométricos; e de alto, na do meio, noventa. Tem de cumprimento o cruzeiro cento e oitenta palmos e de largo quarenta, correndo com altura igual a Igreja. A capela maior tem de comprido sessenta e sete palmos, de largo trinta e oito e de alto sessenta e quatro. O corpo da Igreja é de três naves: a do meio, com o cruzeiro, forma uma perfeita cruz»[1].

Estas indicações que se mantêm na actualidade apresentam um cumprimento para a totalidade do edifício da Sé de quarenta e quatro metros; uma largura, incluindo a nave central e as naves laterais de vinte e dois metros. A altura da nave central é de cerca de vinte metros. A capela-mor tem cerca de quinze metros de comprimento, oito de largo e catorze de altura. Estas dimensões enquadram-se num plano de Catedral em forma de cruz, como era costume na época. A fachada principal é totalmente em cantaria vermelha do Cabo Girão, uma cantaria mole que dá à Sé um cunho próprio muito embora seja sujeita facilmente à erosão. O pano central da fachada está ligeiramente destacado em relação aos laterais que são caiados e rematados por cunhais de cantaria vermelha. O arco que envolve a porta de entrada na Sé é de estilo gótico composto por seis arquivoltas e rematado por uma copa de elementos vegetalistas. Ao alto estão as armas do rei D. Manuel que coroam o portal gótico. Duas lápides em cantaria que se estima serem do século XVII ladeiam a porta principal com a respectiva inscrição: «Louvado seja o Santíssimo Sacramento» e «Louvada seja a Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria». A fachada da Sé tem também uma rosácea cujo rendilhado próprio do gótico apresenta no centro uma pequena cruz de Cristo. No cume da fachada domina também uma cruz de Cristo.

Nas paredes laterais da Sé, encontramos nas naves laterais quatro janelas em forma de fresta e na parte superior da nave central outras quatro frestas decoradas com motivos de estilo gótico e manuelino. Embora de dimensões reduzidas, elas permitem a entrada de luz natural na Catedral. Para além disso, há ainda duas portas laterais que foram abertas nos finais do século XVIII e que destoam do restante estilo gótico. Elas substituíram as primitivas portas laterais cuja localização desconhecemos mas que Henrique de Noronha, em 1722, descreve assim:

«As portas travessas que ficam a Norte e Sul ambas saem ao mesmo adro, que cerca todo o corpo da Igreja até se terminar nas paredes do cruzeiro; pela parte sul, desce com oito ou dez degraus à rua; e pela do Norte sobre com cinco ou seis [degraus] a um desafogado território que se fecha com outro peitoril de cantarias que acompanha a rua»[2].

Em cada uma das capelas do transepto há, como na fachada da Sé, uma rosácea, sendo que existe ainda uma janela grande na parte da capela de S. António com traços góticos que datam da construção da catedral, assim como, do lado oposto, na capela do Senhor bom Jesus, dois janelões que, se existiam já na primitiva traça da catedral, foram posteriormente modificados. Para além da torre, a parte mais notável é a cabeceira da Sé onde brilha claramente o esplendor do estilo gótico iluminado pela arte manuelina que lhe dá um traço muito próprio. A cabeceira é formada pela capela-mor e por dois absidíolos que são hoje as capelas de Nossa Senhora do Amparo e do Santíssimo Sacramento. A cabeceira é toda ela de cantaria vermelha, sendo a capela-mor como a Capela do Santíssimo facetada e com vários contrafortes. A capela mor apresenta hoje um remate com uma varanda em cantaria e os seus contrafortes são encimados com pináculos torsos. Restam também algumas gárgulas em forma de canhão. Do mesmo modo, a capela do Santíssimo possui uma varanda em cantaria decorada com várias cruzes e, sobre os contrafortes, grandes pináculos torsos. A capela-mor foi antigamente coberta por um telhado para evitar que a água da chuva, penetrando pelas juntas da cantaria da abóboda, caísse no interior. Actualmente, tanto a capela-mor como as capelas anexas são cobertas por um terraço devidamente preparado para evitar as infiltrações e com um sistema de escoamento de águas.

No lado norte da Catedral, entre a capela do Amparo (actualmente capela de Nossa Senhora de Lurdes) e o braço norte do transepto ergue-se a imponente torre da Sé. Tem uma estrutura quadrangular e uma altura de cerca de 105 metros. Tem quatro pisos, todos eles interiormente terminados por abóbadas, a começar pela sacristia da Sé, onde está o altar de Nossa Senhora do Monte dos Varadouros, altar que foi introduzido nesta sacristia depois da demolição da capela dos Varadouros. Possui uma escada em caracol feita em cantaria com 158 degraus. As escadas são iluminadas por pequenas frestas, próprias do estilo gótico. Em cada um dos compartimentos do primeiro e segundo pisos, há ainda pequenas janelas góticas em cantaria saliente e, no piso da sacristia, uma grande janela. O piso dos sinos, o último antes do coruchéu, é aberto por oito grandes arcos, dois em cada lado, onde estão os seis sinos comprados em Lisboa em 1814. O pequeno terraço superior sobre o «andar dos sinos» e onde está o relógio é rematado por ameias à maneira dos castelos medievais. Em toda a construção da torre foi usada a cantaria vermelha do Cabo Girão que é aliás muito sujeita à erosão provocada pelas intempéries. Houve mesmo necessidade de repará-la depois do terramoto de 1748, o que foi feito com cantaria rija e é visível ainda hoje na parte leste da torre. Como já fizemos referência, em 1514, D. Manuel deu indicações para que o coruchéu da torre fosse revestido de azulejos. O coruchéu da torre, em forma piramidal, foi edificado sobre oito arcos góticos de cantaria com capitéis ornados com folhas. A grimpa que actualmente está sobre o coruchéu não é a primitiva que chegou à Madeira com os azulejos enviados pelo rei D. Manuel. Esta foi derrubada por um raio, como dá conta o P. Pita Ferreira, citando um documento da época, na noite do dia 28 de Dezembro de 1591. Nessa noite, «ficou a Sé mui desbaratada nos telhados e guarnições da capela-mor que caíram» por causa da queda da grimpa. O cobre e o ferro da grimpa foram depois vendidos e em Outubro de 1601 foi colocada, no alto da torre, a actual grimpa que se caracteriza por uma esfera armilar e um cata-vento[3].

Quanto aos sinos da torre, pensa-se que foram inicialmente oferecidos por D. Manuel. Gaspar Frutuoso afirma, nas «Saudades da terra», que os sinos da Sé eram muito grandes e sobretudo um era «mui muito grande» de tal maneira que os corsários que saquearam a Sé em 1566 não foram capazes de o fazer descer. O mesmo autor diz-nos que este sino do relógio estava colocado sob a cúpula do coruchéu, levava na sua concavidade «trinta alqueires de trigo» e tinha «tão soberbo e grande som que se ouvia de duas léguas»[4]. Os quinze sinos da Sé tiveram o seu fim em 1566 quando os corsários franceses os destruíram, deitando-os da torre abaixo. Sabemos contudo que em 1590 outros sinos já tinham substituído os que foram destruídos pelos corsários. Em 1840, o Cº Pedro de Abreu e Mota quis adquirir um repique de sinos para substituir os antigos que a Catedral possuía e são esses que se encontram actualmente em funcionamento através dum sistema eléctrico de repique. O relógio da torre foi colocado em 1775 a expensas do governador João António de Sá Pereira mas foi substituído por um novo relógio oferecido com os sinos que o acompanham por Michael Camport Grabham e seus filhos, em memória da sua esposa e duma filha já falecida, em 1922. O sino das horas veio no entanto do extinto convento de S. Francisco e tem a data de 1739.

[1] Henrique Henriques de Noronha, op. cit., p. 136.

[2] Henrique Henriques de Noronha, op. cit., p. 138.

[3] Pe Manuel Juvenal Pita Ferreira, A Sé do Funchal, Ed. da Junta Geral, Funchal, 1963, p. 22.

[4] Cit por P. Pita Ferreira, op. cit., p. 327