Por Cónego Manuel Martins
Correção fraterna passa por amar
A liturgia deste 23º domingo, aponta para a corresponsabilidade na convivência, que consequentemente implica a correção fraterna. Na verdade não podemos viver indiferentes ao mal que nos cerca, e aflige o nosso próximo limitando-lhe a realização pessoal e a felicidade.
Por esta razão, o profeta Ezequiel afirma na primeira leitura, que foi colocado por Deus como sentinela atenta para vigiar sobre a cidade dos homens. A sua missão passa por estar atento ao projeto de Deus e às realidades humanas a fim de que estas sejam impregnadas da vida divina e não se subvertam criando infelicidade e morte. Como sentinela, o profeta alerta a comunidade para os perigos que a ameaça.
A missão de corrigir, implica denunciar. Mas esta é uma matéria muito delicada. Então Jesus ensina normas simples e práticas de como proceder nas ocasiões de conflito entre os irmãos.
Porém, é necessária muita delicadeza e habilidade para praticar a correção fraterna, porque esta não é simplesmente chamar a atenção para um erro ou um ajuste de contas perante as imperfeições do outro.
Jesus ao falar deste tema da correção fraterna ensina os seus discípulos sobre a liberdade espiritual necessária para restaurar a boa convivência entre as pessoas. Cristo previne que não se trata apenas de um procedimento social, mas de uma atitude mística, nascida da comunhão com Deus.
Aquele em cujo coração habita o amor de Deus, nunca abrirá espaço para algo que venha a prejudicar o seu irmão.
A correção fraterna que Jesus fala, exige sensibilidade e delicadeza. Para alcançá-la, há três caminhos possíveis. Tentarmos pessoalmente resolver a questão e se não tivermos sucesso, podemos contar com a ajuda de mediadores, amigos ou parentes, que servirão de agentes e testemunhas da reconciliação. Se ainda assim fracassarmos, ainda podemos recorrer à Igreja que implica entrar no âmbito sacramental do sacerdote.
Realmente, temos a obrigação e o dever de corrigir o nosso irmão para que, ao causar-nos mal, ele não permaneça no pecado. Mas como isto é difícil de realizar! Pois torna-se um dos maiores desafios para quem vive em comunidade, o perdão.
Sem a capacidade de perdoar, a convivência torna-se impossível. O perdão é absolutamente necessário para refazer as pontes, encurtar distâncias e estabelecer diálogos que refaçam a harmonia e a paz. Quem não for capaz de perdoar, torna-se refém do próprio ódio e perde a liberdade.
É o perdão que possibilita a própria existência e a sua saudável convivência na comunidade. Quando este falta, não é possível a correção fraterna, nem qualquer tipo de convivência harmoniosa.
O Evangelho deste domingo aponta essencialmente para a nossa responsabilidade de cristãos em nos ajudarmos mutuamente a corrigir os nossos erros. Esse ensinamento também salvaguarda a necessidade de respeitarmos o nosso próximo, embora não possamos pactuar com atitudes erradas por ele praticadas. Se aplicarmos aqui os ditos proverbiais de que quem ama corrige, então perceberemos que a correção fraterna a que somos convidados a praticar passa pelo corrigir, questionar, discordar e interpelar, sem esquecer que para tal precisamos antes amar muito, para que as nossas correções não magoem mais o outro e muito menos o deixe mais atolado no fundo da miséria. Quem não for capaz de amar, não será capaz de corrigir.
























