Entrevista – Padre Mariano: “Fui madeirense durante 12 anos e guardo boas recordações”

Pe. Mariano

Membro da Ordem Hospitaleira, o padre Mariano viveu na Madeira e na diocese do Funchal durante 12 anos, entre finais de 1967 e 1980. Trabalhou na Casa de Saúde de São João de Deus, ao sítio do Trapiche, e pregou por toda ilha. Foi assistente dos Cursos de Cristandade e das Equipas de Nossa Senhora, e capelão do Palácio de São Lourenço, residência oficial do antigo governador civil da Madeira. Ficou conhecido de toda a gente pelo seu porte físico, tom de voz potente e boa disposição. Atualmente com 82 anos de idade, voltou à ilha para celebrar as bodas de ouro da sua ordenação sacerdotal. Nesta oportunidade, o JORNAL da MADEIRA fez-lhe uma entrevista, onde revelou aspetos da sua missão, segredos da sua forma de ser e de estar, vivências e recordações de outros tempos.

Jornal da Madeira – Depois de ordenado sacerdote, em 1967, o padre Mariano veio para a Madeira, trabalhar na Casa de Saúde de São João de Deus. O que guarda desses tempos?

P. Mariano – Antes de mais, devo dizer que fui madeirense durante 12 anos, nunca mais posso esquecer. De facto, logo a seguir à ordenação sacerdotal vim para cá e fui muito bem tratado. O sentimento inicial de que vir para uma ilha é “estar preso”, isto é tão pequenino… , logo passa, acontece o contrário. Trabalhei muito com os doentes mentais e com os leigos também, em áreas de formação pastoral. Fiz 60 Cursos de Cristandade, ajudei espiritualmente muitas senhoras e homens, das Equipas de Nossa Senhora, de modo que isso me deu uma perspetiva das diferentes classes e situações madeirenses.
Na minha equipa dos Cursos de Cristandade, por exemplo, tinha o então presidente da Câmara Municipal do Funchal, dr. Almeida Couto, e o dr. Melvill Araújo; com eles aprendi muito, tanto na parte da fé como na parte humana, daí sentir-me de casa, em família. Voltei a sentir isso no Brasil, não valia a pena dizer que era estrangeiro; uma vez, no fim de uma missa, uma senhora foi ao microfone e disse “tem aqui uma mãe brasileira, não diga mais que não é brasileiro”.

Jornal da Madeira – Onde está, sente-se sempre bem acolhido…

P. Mariano – Sim, sim, em tudo. Sabe, o ser ilhéu dá uma marca, uma qualidade à pessoa, diferente das outras. Aprendi aqui que quando a gente chega a uma ilha as pessoas são desconfiadas no início; bate-se à porta e vão logo à janela ver quem é; mas, depois, passa-se o contrário, quando se pode confiar, já se diz “entre que é cá de casa”…. De modo que isto é uma coisa muito linda. Aprendi também que numa casa havia sempre um prato a mais para alguém de quem não se estava à espera, mas que podia chegar. Isso era notório no Natal, quem não era madeirense estava convidado para a ceia de Natal com aquela família, era um acolhimento que jamais poderemos esquecer. Se eu disser que durante doze anos fui madeirense é mesmo verdade.

“Aprendi também que numa casa havia sempre um prato a mais para alguém de quem não se estava à espera, mas que podia chegar”.

Jornal da Madeira – Além do trabalho na Casa de Saúde de São João de Deus, colaborou também muito com as paróquias.

P. Mariano – Sim, houve uma altura em que se realizavam as “semana bíblicas”, promovidas pelas paróquias e apoio das Irmãs Paulinas, onde eu colaborava todo o tempo, nas pregações. Foi muito interessante, havia encontros de formação, celebrações, convívios e, no fim, um cortejo, em que cada personagem bíblica era encenada. As pessoas aderiam bastante, lembro-me de um senhor idoso que dizia precisar de três horas para chegar à igreja, mas nunca deixava de participar na semana bíblica. Também pregava em muitas festas, às vezes três sermões seguidos, e dizia ao motorista – não me deixes cair nas bananeiras, de resto anda mais depressa, andava muito de um lado para outro.

Jornal da Madeira – A sua pessoa e a sua voz eram muito conhecidas em toda a parte. Há ainda quem se lembre dos seus sermões nas igrejas do Funchal…

P. Mariano – Bem, quanto à voz, é um dom que Deus me deu. Tive cuidados especiais, não fumar, por exemplo, porque sendo um instrumento de trabalho, não podia estragar um dom de Deus. Já agora, recordo que, no ano passado, estando eu no Algarve a celebrar a eucaristia, no final da missa veio ter comigo um jovem madeirense que me reconheceu pela voz. Disse-me que não me conhecia pessoalmente, mas que os pais lhe contaram que eu o tinha batizado, e ele lembrava-se da voz, não tinha mudado. São dons que Deus dá e que favorecem também o trabalho apostólico. Quanto aos sermões, faço questão de contar uma história, como Jesus fazia, para tornar mais claras as coisas e para “aterrar” na realidade. Pode-se falar com a mais alta teologia, mas se não for em modo compreensivo acontece como me diziam no Brasil – “padre Mariano fala enrolado”, então tive que aprender o “sotaque”, e isto é muito importante na evangelização, para se transmitir melhor o que Deus quer.

“Revolução do 25 de Abril” incentivou a mais evangelização

Jornal da Madeira – Voltando aos seus tempos na Madeira, na diocese do Funchal, estava cá quando se deu o “25 de Abril” de 1974… Como foi? Muita revolução?

P. Mariano – Não, foi tudo muito bonito. O bispo era D. Francisco Santana e ele incentivava a prosseguir os Cursos de Cristandade de modo seguido, mesmo que isso fosse contra a tradição. Ele dizia que eram os nossos comícios, o nosso testemunho de presença cristã; a gente não se metia na política, mas a nossa presença dava um toque importante e era muito necessária.

Jornal da Madeira – Havia contestação contra a Igreja?

P. Mariano – No que respeita ao trabalho com os doentes mentais ou os mais pobres, isso não se fazia sentir. As pessoas achavam (e ainda acham) que nem toda a gente é capaz de cuidar deles, a família não consegue ter um doente mental em casa, enquanto os Irmãos de São João de Deus acolhem centenas de pessoas. De maneira que este trabalho convence mais do que o blá-blá. De resto, lembro-me do aconteceu uma vez, no Dia de Portugal e de Camões, no Teatro Municipal. Realizaram-se umas palestras em que eu também fui convidado a falar e dizia um poema de Camões… , coisas positivas, sem qualquer problema; mas quando eu saí estava um jovem à minha espera na porta que me disse –“olhe, estava aqui para defender o senhor se lhe fizessem mal”, mas nada aconteceu e eu não tinha medo, e não esqueço o rapaz que teve esse gesto bonito.

“perceberam que estávamos a fazer o bem para os doentes, e isso é uma disposição interior muito especial que nos ajuda a avançar, a continuar a trabalhar com natural normalidade”

Jornal da Madeira – Ou seja, no contexto histórico daquela altura, agia-se dentro da normalidade, o que era preciso era dar testemunho, sem nada recear.

P. Mariano – Exato. Naquela altura estávamos a reformar a unidade da Casa de São João de Deus onde se encontravam os doentes mais difíceis de recuperar e fizemos tudo de novo. Era superior o Irmão Pimenta, madeirense, de saudosa memória, que muito trabalhou pela Casa. E durante as obras, os pedreiros estavam convencidos que as novas instalações seriam para os doentes ricos; sim, são mesmo ricos, dizíamos para não contrariar, mesmo não sendo verdade. Quando foi a inauguração, os operários foram convidados e viram que eram os mesmos doentes que tinham outras condições e ficaram muito felizes, perceberam que estávamos a fazer o bem para os doentes, e isso é uma disposição interior muito especial que nos ajuda a avançar, a continuar a trabalhar com natural normalidade.

Jornal da Madeira – O compromisso com a mensagem do Evangelho ajuda a ultrapassar qualquer contrariedade…

P. Mariano – É, esse é que é o segredo. Quando nos abordam, ou é para gozar, ou para saber coisas que não sabem, ou com vontade de aprender; com Jesus era a mesma coisa, um era para O experimentar, outro era só para ouvir o que Ele dizia, para ver se havia espetáculo. Só que Jesus dava a volta e tocava o interior da pessoa para ajudá-la a aprofundar o que não via, porque a fé é para aprofundar o que os olhos não veem, não se compra na loja.

Capelão do Palácio de São Lourenço, residência oficial do governador civil até 1974

Jornal da Madeira – Ainda na Madeira, protagonizou outras vivências, a outros níveis, não é verdade?

P. Mariano – Sim, por uma coincidência histórica ainda apanhei o antigo governador civil, D. António Braamcamp Sobral, e sua esposa, a D. Mariana, e fui capelão do Palácio de São Lourenço. Eram bons católicos. O carro oficial vinha buscar-me a casa. Foram momentos bonitos no meu trabalho apostólico. Tudo dentro da normalidade do serviço religioso e espiritual que não esqueço.

Jornal da Madeira – Depois de 12 anos, deixa a ilha e vai para onde?

P. Mariano – Primeiro para Fátima. Aí, fundámos uma casa, tipo seminário menor, mas que por falta de vocações logo se transformou numa casa de acolhimento para os peregrinos, pessoas sofridas que precisavam de uma intimidade com Deus. Ajudava também no Santuário e convivi muito de perto com o bispo de Leiria-Fátima, D. Alberto Cosme do Amaral (1916-2005). Havia, assim, uma familiaridade para bem de todos, dos doentes em particular; não se pergunta se o doente é merecedor de cuidados, mas, se precisa, é a ele que devo ajudar; sabe, o doente gosta de se sentir respeitado, de ser chamado pelo seu nome e quer que estejamos próximos, porque ele está “habituado” a ser repudiado, devemos fazer o contrário.

Depois de seis anos em Fátima, vou para o Brasil, onde fiquei 15 anos, em Minas Gerais, uma terra com muita herança portuguesa e muitas semelhanças com os ilhéus; primeiro, desconfiam, mas depois de ganharem confiança são muito amigos e familiares.

“não se pergunta se o doente é merecedor de cuidados, mas, se precisa, é a ele que devo ajudar; sabe, o doente gosta de se sentir respeitado, de ser chamado pelo seu nome e quer que estejamos próximos, porque ele está “habituado” a ser repudiado, devemos fazer o contrário”.

Jornal da Madeira – Agora, de novo em Portugal, está reformado?

P. Mariano – O que é isso de reformado? Reformado é conversão, tudo o que posso fazer ainda faço. Atualmente, sou capelão da Casa de Saúde do Telhal (perto de Sintra), com 500 utentes e o apoio de uma boa equipa pastoral . Ser capelão, hoje, tem uma vantagem porque são doentes permanentes, não é necessária a assistência a todas as horas.

Jornal da Madeira – E como nasceu a sua vocação para irmão da Ordem Hospitaleira?

P. Mariano – Olhe, sou natural de Montemor- O – Novo, terra de São João de Deus. Depois, aos 12 anos de idade, entrei numa Confraria de São Vicente de Paulo no Barreiro, com a ajuda professor de Moral; aí aprendi a visitar o pobre e a fazer leituras de espiritualidade que, por sinal, era a espiritualidade de São João de Deus. Depois, passei a ajudar no hospital de São João de Deus, em Montemor, e fui dando passos na preparação vocacional, com a ajuda de Deus, até me tornar Irmão da Ordem Hospitaleira e, por fim, sacerdote para ajudar os Irmãos. A par disso, mantenho-me alegre e bem disposto, como sempre e com agraça de Deus.

Jornal da Madeira – Qual o segredo da sua alegria?

P. Mariano – É o amor a Jesus. Há dois anos fui operado e uma enfermeira perguntou-me se era padre porque passava toda a noite a dizer “Jesus, eu te amo”; achei graça, a ligação forte é com Ele, não somos melhores que os outros, mas a disponibilidade interior que o senhor nos concede é importante

Jornal da Madeira – De tudo o que já viveu e passou, que balanço faz em comparação com os tempos de hoje? Sente mais egoísmo, menos solidariedade?

P. Mariano – Só posso fazer comparações através do sofrimento das pessoas. Este sofrimento é sempre muito grande; mas é nas várias situações que eu me situo, que estou bem, estou disponível para ouvir, para atuar, para vencer as dificuldades, o resto são filosofias baratas.

“A par disso, mantenho-me alegre e bem disposto, como sempre e com agraça de Deus”.

Jornal da Madeira – Em termos de comparação com o passado, em relação à Igreja universal, como analisa o apostolado do Papa Francisco?

P. Mariano – O Papa Francisco tem a vantagem de falar às pessoas de uma forma acessível , afetuosa. Todos compreendem a sua mensagem e, se compreendem, gostam; tem gestos de acolhimento e de bondade únicos, como podemos ver e seguir todos os dias.
Já agora, posso dizer que conheci vários Papas: João XXII, chamado o “Papa Bom”; Paulo XVI era mais diplomata, tinha um irmão médico que trabalhava com os Irmãos, tinha um outro irmão ligado à alta política; depois, João Paulo I, Papa durante poucos dias; João Paulo II, o santo que todos conhecemos muito bem; Bento XVI, um sábio, tudo muito certinho, um grande teólogo que participou no Concílio Vaticano II; e agora o Papa Francisco (desde 2013), muito popular, porque também é de origem latina, como os portugueses, os madeirenses…

Jornal da Madeira – A terminar, como vê a Madeira agora?

P. Mariano – Naturalmente muito diferente de quando estive cá. Agora até fico vaidoso, ver tudo isto bonito, com outras possibilidades; agora vê-se tudo num dia só, antigamente era mais difícil e não havia telemóvel…; apesar de tudo, tenho boas recordações. Desejo para todos o que para mim sempre fiz, que é colocar-me nas mãos de Deus, não ponho as fasquias altas para não sofrer deceções, cultivar sempre as coisas boas das pessoas.

Pe. Mariano e Pe. Aires Gameiro