Desembarcar na Madeira – Guia ao espanto insular

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Por José Tolentino Mendonça

 

Desde o século XVIII, que a Madeira entrou na órbita da chamada literatura de viagens. Grande parte são diários privados ou textos epistolares, de cariz vagamente etnográfico ou comercial, na sua maioria exercícios escolares, sem especial profundidade, como os praticados por aguarelistas amadores. Mas também encontramos anotações curiosas e bem certeiras em textos literários como os de Ellen Taylor, e sobretudo de Raul Brandão, John dos Passos ou de Graham Green. Ora, poderíamos colar todas essas narrativas de descobrimento, fazendo um grande tapete textual, e encontraríamos o mesmo sentimento repetido para falar do primeiro embate com a Madeira. E o primeiro embate é de encantamento.

É verdade que, ao final, passado um tempo que nem tem de ser longo, os forasteiros ficam como que mareados, assaltados por uma inesperada melancolia, como quando subimos a uma altitude demasiado alta, à qual não estamos habituados, e sentimos o incómodo da cabeça andar à roda e o chão fugir-nos debaixo dos pés. Como esse mal da montanha, que na América do Sul se designa por “soroche”, também há um mal insular para quem não teve tempo de fazer-se a este local. Basta ler “As ilhas desconhecidas” de Raul Brandão para perceber isso. Brandão sente-se expelido para a sua terra de proveniência, como se a própria ilha o repelisse.

 

Mas o embate inicial, dizia, é de emaravilhamento. E a avulsa literatura de viagens que chegou até nós testemunha isso abundantemente. No início do século XIX, um viajante anónimo que escreveu um “Guia da Madeira”, deixava, aos seus leitores, o seguinte aviso: “Aquele que nunca fez uma viagem por mar para fora do continente europeu ficará muito espantado com a visão da Madeira”.

Emily Shore, que chegava de Londres no inverno de 1838, construiu este retrato: “O sol ainda não se erguera, mas podia ver da minha janelinha que navegávamos passando a nobre costa da Madeira… A manhã levantara-se numa beleza luminosa e, através de uma atmosfera que nenhum verão inglês pode igualar, olhámos a magnificente mole de montanhas cortadas por sulcos que se erguem abruptamente dos fundos do oceano e furam as nuvens com os seus cumes. E isto é a Madeira”.

O visitante Duncan Maclaren, vindo de Edimburgo, gravou no seu diário de 1844, a lacunar, mas impressiva locução: “Depois de uma viagem de 14 dias, chegámos à vista da Madeira… Foi uma das mais belas visões que os meus olhos alguma vez contemplaram”.

O escritor americano Anthony Drexel Biddle, deixou este registo, já à entrada do século XX: “A aproximação à Madeira por barco e com bom tempo oferece-nos a mais sublime e bela visão a ser desfrutada em qualquer parte do mundo. Perante os olhos cansados da contemplação do mar, o espetáculo das torres da ilha de montanhas verdejantes sob uma névoa brilhante”.

Há duas antologias muito úteis a quem se interessar por esta espécie de florilégio do desembarque madeirense. São da autoria de António Aragão (“Estrangeiros na Madeira”, Drac, 1981) e de António Marques da Silva (“Passaram pela Madeira. Textos de autores anglo-saxónicos que visitaram a ilha”, Coleção “Funchal 500 anos”, 2008). É certo que quem nunca se viu no olhar do outro, verdadeiramente nunca se compreendeu. Aquelas antologias recolhem essa visão. São espelhos embevecidos, mas também irónicos e distanciados, numa neutralidade sem favorecimentos. Mantêm, por isso, um interessante potencial revelador acerca da Ilha.

 

A ilha avistada, em aproximação marítima ou em sobrevoo, como agora a experiência de aviação nos permite, causa, de facto, um impacto de arrepiar. Já todos sentimos esse arrepio alguma vez. E eu arriscaria dizer que o sentimos de todas as vezes, porque o que é próprio da beleza extrema é encontrar-nos impreparados face à sua revelação. De que natureza é esse arrepio? – perguntaríamos. Atravessando o vasto oceano, a Madeira emerge como um milagre verde e vertical que transporta, mesmo quem já viu muito mundo, até ao seu princípio. Talvez as ilhas permitam essa espécie de reencontro com o paraíso e daí o seu interminável fascínio. A Madeira não é o finisterra, os confins do mundo ou uma das suas fronteiras remotas. A Madeira é o início do mundo, é qualquer coisa antes da história, que na sua geografia precisa, a 973 Km de Lisboa e a 685 km da costa africana, resiste e explica a própria história. A Madeira não é uma jangada à deriva no tempo. A Madeira é um útero, um vácuo cósmico onde o tempo não corre, o colo de um vulcão maternal.

 

Acontece-me, por exemplo, sempre que regresso. E outros conterrâneos que interrogo dizem o mesmo. Posso estar meses ou anos sem vir à Madeira. Chego e, automaticamente, há uma coisa estranha, uma vertigem avassaladora. É como se nunca tivesse saído daqui. E mais. É como se nada, mas mesmo nada, em caso algum me tivesse ligado ou ligue ainda a outras paragens. Compreendo então, com aquela aceitação que, a dada altura, os incuráveis reconhecem, não sem surpresa, em si próprios, que, ao contrário do que julgava, nunca pertenci a alguma parte que não fosse esta e afinal não saí nunca deste lugar. Os emigrantes sabem isso: são locatários de uma paisagem mental, não apenas das paisagens reais que os olhos avistam. Os emigrantes são ubíquos, estão na diáspora do mundo e continuam inscritos aqui, conjugadores de mundos visíveis e invisíveis. De facto, podemos estar a milhares de kms de distância e nunca ter provado uma extraterritorialidade efetiva em relação àquela paisagem original que trazemos dentro de nós e guarda a porção sagrada do nosso passado. Não admira que a Madeira, no plano sonhado, tenha uma força centrífuga que nos prende a mil braças de profundidade, que atua no inconsciente e se desdobra com gestos infindos na nossa memória. A sua lava adormecida é uma linfa permanentemente desperta. Mesmo quando fugimos dela, ela corre em nós. A lava não é só o sangue da terra: é também o nosso.

 

Todos os relatos de aproximação à Madeira dizem o mesmo e dizem alguma coisa que sabemos, mas por um outro tipo de conhecimento, mais da ordem do intuitivo ou do onírico. Dizem que esta terra não é um cenário, mas é protagonista. Não é inerme, mas respira. Sendo de pedra o seu corpo pode tornar-se imaterial, como uma aparição. Pode levitar, ser múltiplo e fantasmático, como se fosse o duplo de si mesma. Esta terra tem contrações, mexe-se como se não coubesse em si, desloca-se pelos promontórios avançados e fajãs em movimentos velocíssimos, ao mesmo tempo, tão subtis que nos colocam incessantemente perante a dúvida de tratar-se de uma ilusão. A relação com a Madeira, para os que ela gerou, será sempre um transe imaginário. Mas não somos apenas nós que a imaginamos, ela também nos imagina, a ilha também nos sonha, como se fossemos uma consequência do lugar, forjados nas suas entranhas, imersos dos seus abismos, levantados das mesmas encostas onde há centenas e centenas de anos, longe do ruído dos homens, cresce a floresta laurissilva como uma pálpebra que o vento primordial entreabre. A Ilha também nos sonha, nas linhas subidas das levadas que redesenham um atlas de mundos sigilosos, diferentes do nosso, nas grutas sucessivas onde os limos gotejam uma neblina gelada, no disco negro dos poços tapados pela vegetação e pelo silêncio. A Ilha é como o globo luminoso de uma lâmpada, uma incandescência, o ponto de uma estrela a fazer a chamada de todos os nomes.

 

Recordo o que se pode ler no livro II de “Saudades da Terra”, de Gaspar Frutuoso. Cito: “E por verem dali sobre a ilha da Madeira sempre muita névoa e vulcão, sem nunca se desfazer nem mudar, no ano de 1424 fizeram duas barcas grandes e, metendo-se nelas com os homens que consigo tinham, foram ter detrás da ilha da Madeira”. Segundo Gaspar Frutuoso, os navegadores aproximaram-se da Madeira pelo mistério que os deixava intrigados, a névoa e o vulcão que não se desfaziam nem mudavam, e os levava a perguntar que seria aquilo. E vieram, costeando cautelosamente a ilha, como se tateassem o sono de um animal, a pele do desconhecido. Tristão foi por um lado e Zarco por outro, numa circum-navegação semelhante à dança de certos primitivos à volta do fogo ou de outro qualquer enigma. É verdade que os historiadores têm fundadas razões para considerar o texto de Frutuoso mais um enredo romanesco do que um texto historiográfico, e tomam as devidas distâncias em relação a ele. O autor parece ignorar razões políticas e estratégicas, contributos facilitadores da técnica ou as ambições da economia. Mas um romance pode ser um ensaio sobre a alma, um instrumento de verificação das entranhas e tem, claramente, uma capacidade de representar a realidade de um modo que não fica aquém das formas científicas de abordagem. Isso fica, a meu ver, manifesto na descrição de Gaspar Frutuoso. Ele explica que o que nos levou à ilha pela primeira vez é o que nos leva a ela ainda: um enigma, um não sei quê que nos deslumbra, um espanto repetido.

 

O termo espanto deriva do latino expaventare que descreve a forte impressão originada por uma coisa inesperada e repentina. Se procurarmos sinónimos, encontramos assombro, admiração, surpresa. Espanto é, assim, o contacto (consciente, fulgurante, desarmado, rendido) com a vida maior do que nós, a vida em aberto, não pré-determinada. No espanto, a nova e surpreendente expressão da vida prende a nossa atenção à maneira de um relâmpago, de um rasgão imprevisível. Não a conseguimos encaixar no nosso quadro habitual, pois o seu carácter inédito torna inúteis todas as previsões, saberes, experiências, etiquetas, mapas, preparações. O espanto obriga-nos a uma revisão do que sabemos de nós próprios e do mundo. Obriga-nos a recomeçar, como se fosse um nascer. Como outras terras são abundantes em recursos minerais, como o ferro ou o cobre, para não falar já do ouro e alimentam uma indústria que faz a riqueza dos seus povos, o minério da Madeira é o espanto. Nem temos outro petróleo. O nosso petróleo é o espanto. Somos guardiães e exportadores de espanto. É essa a riqueza que a Madeira pode oferecer. Cuidemos dela com sabedoria. A tentação enorme da massificação, a domesticação violenta que atropela a paisagem, a implementação acrítica de modelos urbanísticos constitui uma ameaça enorme sobre um ecossistema tão delicado como o insular. O filósofo Baruch Espinosa dizia: não somos nós que decidimos a forma das coisas; mas são as coisas em nós que decidem a sua própria forma. Não seremos capazes de administrar o espanto se ocuparmos a paisagem substituindo-nos a ela, quando o que seria necessário era aprofundá-la, deixá-la enigmática e límpida, silenciosa e imensa, ouvindo-se respirar o mundo através da ilha, a solidão do oceano, os céus indecifráveis e altos, o vento e a luz que são cúmplices do nosso estar sobre a terra. Conservar intacta a reserva do espanto é uma responsabilidade de nós todos.

 

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Nos relatos de estrangeiros sobre a Madeira, há dois elementos constantes que chamam a atenção: o espanto pela beleza da terra, que os seduz à maneira de uma teia mágica e a descrição da pobreza endémica que caracteriza os seus habitantes. Ambas as coisas aparecem ligadas nessas narrativas, de uma maneira que para a sensibilidade de hoje pode até ser um pouco chocante. Mas contar a história da Madeira é também contar uma história de escassez, de pobreza de recursos, de emigração massiva em tantos períodos em busca de contextos de vida mais estáveis. Um relato emblemático é o da autoria de Isabella Hurst, uma inglesa que casou com um rico proprietário madeirense de sobrenome França e que viajou até à Madeira em 1853, deixando um conjunto variado de testemunhos, quer através do seu diário, quer através das hábeis aguarelas em que tomou como objeto e a paisagem e a vida da Madeira.

Vejamos dois passos do seu diário:

“Seguimos num carro de bois pelo caminho de que já falei, mas a certa altura parámos para ver a Quinta de D. Mécia, pertencente ao Conde Carvalhal. A casa alugam-na às vezes a estrangeiros, mas os belos passeios, a fonte sob um maciço de árvores, com bancos à volta (…), tudo isso cai em ruínas, e, em vez de ocupado por senhoras e cavaleiros brilhantes, é na atualidade frequentado por mulheres enxovalhadas, que lavam trapos nas fontes e os põem a secar nos bancos, e por crianças lastimosas quase nuas, que importunam os visitantes com pedidos de esmola”.

A mendicidade é causticada por Isabella de França, mas sem que ela se pergunte, para lá da visível embirração que lhe causam os mendigos, pelas razões sociais mais profundas daquele fenómeno. Diz ela: “Os pedintes são a maior praga da Madeira! (…) No campo, quase todas as mulheres pedem esmola, as crianças fazem o mesmo (sem exceção), e muitos homens também. Antes que o pequeno saiba pronunciar qualquer palavra, a mãe ensina-lhe a erguer as mãozinhas e a emitir uns sons que significam “dez reizinhos”, logo que se aproxima um desconhecido. Às vezes as próprias mulheres caem de joelhos à beira da estrada e levantam as mãos num gesto de súplica, desfiando as suas implorações em voz lamentosíssima. Se se encontram em casa, correm para a rua e, se estão a trabalhar, largam tudo e vêm para o caminho mal descobrem uma pessoa decentemente vestida. Imploram-nos pelo amor de Deus, pela alma dos nossos pais e muito mais ainda pela nossa própria saúde! Não há dúvida que muitos deles vivem miseravelmente, mas não será fácil distingui-los, porque todos pedem do mesmo modo… A verdade é esta: falta-lhes amor próprio”. Provavelmente também faltará amor próprio aos madeirenses que Isabella de França encontra a meio do século XIX. Mas realisticamente seria necessário reconhecer que lhes faltam condições objetivas de sobrevivência e que isso explica os ciclos de emigração. Pode ler-se, por exemplo, no Elucidário Madeirense que entre 1835 e 1855 – datas que coincidem com a estadia de Isabella na Madeira – saíram da Ilha cerca de 40 mil madeirenses, das quais menos de metade levavam passaporte, significando isso que saíram como clandestinos, mais vulneráveis e sujeitos a situações ainda mais difíceis, muitos deles, nessa época, a caminho do Brasil e dos Estados Unidos. Aliás, desde o século XVI que temos emigrantes a deixar a Madeira e esse fluxo ininterrupto tem acompanhado a nossa história insular até ao presente.

A grande pergunta, lendo o diário de Isabella de França, é perguntar que fazem os pobres na paisagem. A paisagem mágica da ilha existe apesar deles, seria mesmo um cartão de visita mais conveniente sem a sua presença ou, pelo contrário, eles são cúmplices e artesãos da mítica magia do microcosmo da Ilha, ou são eles que zelam pelo imaginário da Ilha? Os meados do século XVIII constitui, na história cultural da Madeira, um ponto de viragem e um observatório curioso. Foi apenas nessa data que a imprensa periódica madeirense conhece o seu início, com a edição de O Patriota Funchalense (1821-1823). Antes disso não existia propriamente imprensa. Década e meia depois, em 1838, surge a Biblioteca Municipal do Funchal. E só muito depois uma atividade tipográfica regular, digna desse nome, e podemos supor com que limitações, se confrontarmos com os índices de analfabetismo. Porém, a cultura da Ilha não começa no século XVIII.

Como é que até aí se salvaguardou o património cultural madeirense, como se conservaram os seus romances e poesia, como se preservou do esquecimento a música, como se potenciou a efabulação dos lugares, como se geraram os mitos locais, as lendas, os enigmas, os enredos etiológicos? E mais, como explicar a extraordinária riqueza literária mantida durante séculos por uma população sem escolarização? De uma forma muito simples. Através de uma literatura oral que é, regra geral, obra da população não letrada e pobre, uma literatura baseada não na escrita, nem na transcrição, mas na memória e na repetição. Os professores Pere Ferré e Sandra Boto, publicaram em 2008 um dos livros fundamentais da cultura madeirense: o romanceiro oral do arquipélago (“Novo Romanceiro do Arquipélago da Madeira”, Coleção “Funchal 500 Anos”, 2008). Foi com espanto que nas campanhas de recolhas – sobretudo levadas a cabo nos inícios da década de 80 do século passado – se aperceberam de “uma tradição romancística madeirense fecundíssima” e pela presença de um romanceiro tradicional raríssimo em território português, comprovado por temas como a “Morte do Rei D. Fernando”, as “Queixas de D. Urraca” ou os romances pertencentes ao ciclo épico do Cid”. Aqueles pobres que aborreciam Isabella de França, e partiam aos magotes para outras paragens em busca de pão e de futuro, construíram uma impressionante biblioteca e uma cultura imaterial sumptuosa. Eles criaram a ilha como mito, assumindo-se sujeitos e escultores do seu espanto.

 

Devo confessar uma coisa. Tenho uma dívida afetiva para com o Novo Romanceiro do Arquipélago da Madeira. A minha avó materna aparece como informante de um romance tradicional. O encontro do investigador Pere Ferré com a minha avó vem registado na página 190 da obra citada, e sei por isso que ocorreu no dia nove de Agosto de 1981, cinco anos antes da sua morte. A minha avó era analfabeta.

A primeira memória que tenho da minha avó é situada em África, em contexto de emigração, num extremo da cidade do Lobito, numa língua de terra oposta à cidade. Vivia ali uma pequena comunidade de madeirenses, gente ligada ao mar e à atividade piscatória. A partir dos meus quatro anos, quando nem tenho ainda memórias muito distintas de quem era eu, já me recordo perfeitamente da minha avó e das histórias que ela contava, onde o maravilhoso da Ilha se impunha com absoluto assombro. Tantos anos depois, pergunto: quem era a minha avó? Era uma saia redonda. Era um bordado sobre o colo. Era uma trança como uma ponte de corda, que as mulheres da sua idade usavam. Era a sabedoria de muitas expedições. Era a posição central, o diâmetro imaginário, o regulador religioso e social das nossas casas. Era onde eu estava de manhã e à noite. Ouvia-a contar como, olhando para o mar desde Machico, a minha avó avistou, como num sonho, mas mais real do que qualquer sonho, os soldados do Rei Sebastião na Ilha de Arguim, e viu a espada de El-Rei fincada na esfolada ravina do Porto da Cruz, e assistiu ao cortejo dessas almas em torno à meia-noite, e observou-as a levitar numa dança, enquanto me repetia – e em escutava em puro fascínio – os romances d’«O conde da Alemanha», d’«A Barca Bela», d’«O veneno de Moriana», e não apenas esses como pude perceber lendo o romanceiro. Eu costumo dizer – e faço-o com toda a verdade – que esta minha avó analfabeta, emigrante em Angola e durante uns poucos anos ainda no Brasil – foi a minha primeira biblioteca. E sei que, em tantos postos de emigração, se podem encontrar experiências assim. A Ilha existe em nós, mesmo quando não a conhecemos ainda. Pode moldar-nos na distância. O trabalho de efabulação desencadeia-se por contágio humano, por imitação afetiva que fica a ressoar a vida inteira.

A Madeira tem poetas extraordinários aqui nascidos. Bastaria citar dois deles para percebermos a monumentalidade das obras que nos oferecem: Herberto Helder e José Agostinho Baptista. Herberto Helder escreveu alguns dos mais importantes poemas do século XX, e a Ilha esteve sempre no subtexto, como aquilo que faltava, o milagre sem o qual a poesia não floresce. Por sua vez, José Agostinho Baptista faz um precioso itinerário sobre os lugares arquetípicos da Madeira, um itinerário em cores elegíacas, como uma longa despedida para uso da alma que é também – e talvez seja sobretudo – a manifestação de um desejado reencontro. E dessa maneira constrói uma espécie de guia indispensável para a compreensão do sentimento insular. Vejamos uns trechos do poema intitulado “Funchal”:

(…) Há um desespero de gestos quando afago o teu rosto

porque o teu rosto é o rosto de uma ilha.

E a ilha é um cais sem fim e eu sou esse cais na

cidade da ilha.

E a ilha são lenços brancos, sinos, um cristal húmido

que amplia o tempo.

Nesse tempo vi uma terra esculpida na lava, uma teia

de fogo que não ardia.

Vi os seus jardins, a seda fulgurante, colorida.

Jardins do mundo, reclinados na melancolia, com o

orvalho por cima.

 

(…)

No terraço

uma cadeira embalava as tardes do porto.

As gaivotas perseguiam os mastros.

Eu ia sempre de pé no convés onde o sol batia.

O rumor das hélices batia na no mar.

O rumor das hélices batia na fronte de uma criança

contemplativa.

E a criança afastava os braços e a cidade entrava

e era uma cidade aturdida,

Com os navios que partiam.

Eu ia sempre nos navios que partiam.

 

(Canções da Terra Distante, Assírio & Alvim, 1994)

 

Há, sim, poetas extraordinários. Contudo, não deixo de acreditar que os relatos orais, as biografias, as memórias, a cultura popular que permanece – e que nas comunidades emigrantes espalhadas pelo mundo é tão viva – constituem um repositório fundamental para entender porque é que esta Ilha é tão assombrosa, tão enigmática e, à sua maneira, é tão irresistível o seu espanto. Ela é assim porque, na distância do mundo, é recriada fantasticamente.

 

Por isso, junto à minha voz aqueles que veem a urgência de construir-se uma unidade museológica ou um centro de investigação e interpretação que faça justiça ao contributo cultural e civilizacional que os emigrantes trazem à Madeira. A eles se deve não só um papel fundamental na economia da região, com os investimentos financeiros. É preciso valorizar o contributo cultural que têm dado ao longo das gerações. Sem isso nem se percebe bem o que é a Madeira, nem se pode pensar na sua sustentabilidade cultural.

De facto, a Organização das Nações Unidas, traçando os objetivos para o desenvolvimento neste novo milénio, apostou na criação de um novo conceito: o de sustentabilidade cultural. Conhecíamos os conceitos de sustentabilidade económica ou ambiental, e emerge agora esta nova categoria para recordar que tanto a herança cultural de cada comunidade humana, como as suas indústrias culturais e criativas, as suas infraestruturas e práticas culturais são patamares estratégicos para o presente e para as gerações vindouras.

Há, por vezes, o risco de pensar que a cultura é um luxo, útil nos tempos em que nos podemos permitir larguezas, mas ao qual é possível renunciar nos períodos de dificuldade. Ora a cultura não é um luxo: é uma necessidade primária. Ela tem o carácter daqueles elementos sem os quais a vida diminui. E é precisamente nos momentos de escassez e crise, seja ela financeira ou de identidade e sentido como é a que hoje, em grande medida, o Ocidente vive, que a cultura deve ser vista como bússola e motor de desenvolvimento. A atividade cultural, na pluralidade das suas linguagens, tem por isso de ser apreciada no seu fundamental papel humano, social e civilizacional.

Porquê falar da importância da cultura? A resposta não pode ser senão uma: apostar na cultura é apostar na vida, na vida de cada um e de todos. É investir no que ela tem de mais profundo e visível, de mais silencioso e partilhável, de mais histórico e utópico, de mais pessoal e comum. Todos vivemos na e da cultura. Na multiplicidade das suas linguagens ela é o nosso habitat permanente. É o nosso observatório e ateliê; é o nosso dicionário e, ao mesmo tempo, o caderno de anotações daquilo que diariamente emerge e que ainda não está dito em língua alguma; é a nossa identidade irredutível e a nossa forma de abertura aos outros. Sophia de Mello Breyner Andresen recordava o seguinte: “Mesmo que fale somente de pedras ou de brisas a obra do artista vem sempre dizer-nos isto: que não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência mas que somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser.” Ao lado do que parece estritamente necessário à sobrevivência temos de colocar aquilo que dialoga com a fome e a sede do coração e, sem o qual, até poderíamos viver, mas não seríamos nós próprios.