D. Gilberto Canavarro dos Reis orientou um encontro espiritual na Casa de Retiros do Terreiro da Luta, no passado mês de julho, para sacerdotes da diocese do Funchal. Uma oportunidade para o Jornal da Madeira registar a opinião do bispo emérito de Setúbal sobre os desafios que hoje em dia mais se colocam aos padres, entre outras reflexões.
Jornal da Madeira – D. Gilberto Reis, como recebeu o convite para pregar um retiro na Madeira, com alegria ou tremor?
D. Gilberto Reis – Naturalmente com tremor porque a Palavra de Deus é tão rica e tão bela, é Cristo presente e aquele que vai orientar um retiro há de ser a transparência de Cristo para que seja Cristo a conduzir, a tocar o coração das pessoas pelo seu espírito. Naturalmente, também, com alegria pelo serviço que se presta, mas fundamentalmente com este tremor de quem sabe que só o Senhor é capaz de fazer.
Jornal da Madeira – Como é ser bispo da Igreja, primeiro como auxiliar, depois bispo de Setúbal e agora emérito?
D. Gilberto Reis – Na Igreja sempre entendi que o importante é ser discípulo de Cristo, viver a vida animado por Jesus Cristo, com o Seu Pai no Espírito Santo. Isto é o mais belo da vida cristã. Depois, é um serviço que se presta de várias formas; serve-se o povo de Deus como bispo auxiliar e foi uma experiência bonita, também como pároco antes, depois como bispo, mas é sempre uma maneira de servir; e agora como emérito, outra maneira de servir, estando mais disponível para ouvir e ir onde se é chamado, onde se é preciso e porventura contemplar mais o Senhor; no meu caso, também para realizar uma atividade que gosto muito, o serviço de confissões.
ser padre é entrar mais profundamente nesta amizade com Jesus, em todas as dimensões, na capacidade de olhar as pessoas e o mundo, na capacidade de rezar e de enfrentar a cruz, na experiência de ser livre e de construir um mundo de homens e de mulheres livres
Jornal da Madeira – Qual foi o tema deste retiro no Funchal?
D. Gilberto Reis – Orientei o retiro no sentido de ajudar as pessoas a andar com Jesus. Porque não se pode ser padre ou cristão sem andar com Jesus. O discípulo de Jesus é alguém que Ele escolhe para andar com Ele e que cria uma relação de intimidade profunda; não é um trabalhador, não é um funcionário, é um amigo; e, portanto, ser padre é entrar mais profundamente nesta amizade com Jesus, em todas as dimensões, na capacidade de olhar as pessoas e o mundo, na capacidade de rezar e de enfrentar a cruz, na experiência de ser livre e de construir um mundo de homens e de mulheres livres; fundamentalmente, esta coisa simples e essencial para o cristão, mas também essencial para o padre, como Jesus diz no Evangelho, no chamamento dos 12 e se aplica também aos padres: chamou-os para andarem com Ele, pregarem, expulsarem os demónios e libertá-los de todos os males.
Jornal da Madeira – É importante que os padres façam retiro?
D. Gilberto Reis – É importante que os padres, como todos os cristãos, sejam santos. E não se pode ser santo sem se encontrar tempo para rezar. Muitos dos nossos fiéis nunca fizeram a experiência de um retiro, nunca tiveram essa possibilidade. Os padres têm possibilidades e por isso mesmo participam num retiro. Nenhum padre ao longo do ano deveria deixar fugir a oportunidade e a graça de participar num retiro, nenhum. E os próprios fiéis deveriam ser os primeiros a dizer: senhor padre deve ir encontrar-se com Jesus e deixar-se santificar.
Jornal da Madeira – Quais são os grandes desafios para o sacerdote hoje?
D. Gilberto Reis – O primeiro grande desafio é ser alguém tocado, cativado, seduzido e apaixonado por Jesus Cristo. O segundo desafio é viver, ter um grande amor à Igreja, perceber que a Igreja é este povo e que Cristo é a cabeça e o espírito é a alma, que tem por finalidade a instauração do reino e por lei a liberdade, a caridade, conforme o Espírito de Jesus. É ter grande paixão, comungar dos sonhos, alegrias, paixões de tanta gente que nem acredita, mas que tem sonhos para este mundo, um mundo diferente; e fazer suas as dores de tanta gente que é humilhada, que é posta de lado, que é maltratada todos os dias. Viver assim, no meio do mundo e com o mundo, e como o Papa diz, indo ao encontro das pessoas todos os dias, deixando as 99 ovelhas no redil para procurar a que anda perdida, para lhe dar a alegria de Cristo, porque Cristo a quer abraçar.
Jornal da Madeira – Para terminar, quais são as qualidades que o povo de Deus quer ver no sacerdote?
D. Gilberto Reis – Curiosamente, no Ano sacerdotal eu estava em Setúbal e coloquei essa questão aos fiéis. Como tónica comum, de todas, disseram que era a capacidade de compreender e de estar próximo das pessoas, sentir as alegrias, ajudar cada pessoa a sentir-se bem, feliz, quando se encontrasse com ele e com a Igreja; esta capacidade de acolhimento cordial, como o acolhimento de Cristo no Seu coração de cada pessoa.






















