Férias bem passadas em comunidade, na partilha de dons e experiências gratificantes

"Campo de Trabalho"

Igreja do Carmo - Câmara de Lobos © D.R.

A paróquia do Carmo (Câmara de Lobos) recebeu, por estes dias, uma atividade denominada “campo de trabalho”, desenvolvida por um grupo de leigos da nossa diocese, como o Jornal da Madeira já relatou oportunamente.

A iniciativa realiza-se há mais de duas décadas, em vários pontos da ilha, com vivências marcantes, como nos dão conta o testemunho e as lembranças de António José Freitas Gomes (Tozé), um dos primeiros participantes, num breve diálogo com a jovem Mena, que se mostrou curiosa pelo acontecimento e quis partilhar o que aprendeu.

– O que é isso de “campo de trabalho”, como começou?

Quando era jovem, fiz parte de um grupo de oito pessoas que se reunia semanalmente na casa uns dos outros, para refletir sobre as leituras da missa dominical, com o acompanhamento de um padre. Quatro eram professoras, sendo uma da Educação especial, outras empregadas de escritório e eu estava ligado ao teatro, espetáculo, música e paródias… Nesse ambiente, ouvimos a Manuel falar de uma experiência pastoral que tinha tido em Aruil (Continente) num grupo liderado pelo P. Óscar Sousa (salesiano). Daí, nasceu a ideia de se fazer algo, em conjunto, durante as férias grandes… Partilhar os nossos conhecimentos durante esse tempo no campo, longe da cidade e em contato direto com a natureza. Convidámos alguns jovens que se juntaram a nós e metemos mão à obra, muito radiantes e entusiasmados. Assim nasceu o “campo de trabalho”.

– Em que locais trabalharam e como eram as vossas atividades diárias?

Deslocámo-nos sempre para lugares distantes das vilas, onde não havia televisão e a “telefonia” (rádio) eram poucas as pessoas que a tinham. De acordo com o pároco, lá passávamos esses doze dias com a população, ensinando e aprendendo. O nosso dia começava muito cedo e, a seguir ao pequeno almoço, íamos visitar os doentes e ajudar as pessoas nas fazendas, mondar rama, apanhar fruta, legumes, cereais, cavar poios, ordenhar vacas, fazer coberturas de casas de colmo, etç.

Estivemos em várias localidades: Raposeira, São João (Ribeira Brava), Lombo Galego, Seixal, São Vicente, Florenças…, quase demos a volta à ilha. Após o almoço, o trabalho era com as crianças, fazendo trabalhos manuais com papel, massas, sabão, molas, rolhas, retalhos, cartões, arames, lã… ; faziam-se desenhos, colagens, molduras; ensaiavam-se canções e peças de teatro; e no final do “campo” havia uma exposição com tudo.
Ao cair da tarde, era o encontro com os jovens. E à noite, celebrava-se a Eucaristia na igreja ou ao ar livre, missa campal. Após o jantar, havia o convívio ou “brinquinho”, com canções, despiques, bailinhos, projeção de filmes (lá vinha a história do marido rabugento, contada pelo padre Eusébio, salesiano, que arrancava aplausos e gargalhadas que não acabavam…). Antes de dormir, fazíamos a avaliação ou balanço do dia.

– Ficavam em tendas?

Longe disso! Em casas e situações nem sempre boas e confortáveis, sem casa de banho, água quente, em colchões de palha de milho ou de trigo espalhados no chão…, mas ninguém morreu por isso. E até havia coisas hilariantes. Por exemplo, na Fajã do Penedo, Boaventura, os rapazes dormiam no chão da cozinha e no teto havia grandes travessões com ratos a passearem… Um colega que dormia de boca aberta foi logo alertado, não fosse o rato encontrar nova moradia ou buraco. Quando fomos à Ilha (Santana), tivemos que levar um “gerador” porque não havia eletricidade … Ainda assim, valeu a pena, porque tudo foi feito por Amor à pessoas. Foi gratificante viver naquele meio, estar ao seu lado, dar-lhes valor.

– Conclusão, apesar dos contratempos, houve muitos bons momentos?

Sim, muitos e incontáveis, as amizades que criámos, a generosidade das ofertas, desde ovos, galinhas, legumes… Para já não falar dos sorrisos, abraços, agradecimentos e lágrimas na despedida. Que saudades das noites de estio nos Prazeres escutando o canto metálico dos grilos nas searas; o coaxar das rãs ao luar, nas ribeiras do Faial! Para trás ficou um rasto de Amor e Felicidade, com o apoio de muita gente e dos párocos. Não esquecemos também a visita a alguns “campos de trabalho” do então bispo do Funchal, D. Teodoro de Faria, com alguns seminaristas. Numa palavra, voltava a repetir tudo, com muita alegria, apesar de algumas dificuldades.