Em memória dos 500 anos da dedicação da Sé do Funchal (1517-2017)
Por Cón. Vitor Gomes
Pároco da Sé do Funchal
A 18 de Outubro de 2017, a Sé do Funchal celebra os 500 anos da sua dedicação. Nos princípios do século XVI, mais precisamente a 12 de Junho de 1514, era criada a diocese do Funchal, Igreja particular dotada de bispo próprio que na altura foi o prior da Ordem de Cristo de Tomar, D. Diogo Pinheiro. Porém, no momento da constituição da Diocese, a futura Catedral, então chamada a «Igreja grande», já estava em construção. Em 1517, com a sua dedicação, ela tornou-se a Igreja na qual o bispo da diocese tem a sua Sede ou Cátedra, sinal do seu ministério de sucessor dos Apóstolos, enviado para ensinar, santificar e governar o povo de Deus que vive na Madeira
A história, a nossa pessoal e a da sociedade em que vivemos, modela a nossa identidade. Sem história, não há identidade uma vez que o sentido da nossa vida tem a ver com a nossa história pessoal e colectiva. A história da nossa ilha está marcada na cultura e nas instituições (e não apenas religiosas) pela fé dos cristãos, os de ontem e os de hoje. A fé é dom de Deus que dá sentido e orientação à nossa vida mas para que isso aconteça é preciso que estes dons sejam recebidos e transmitidos de muitas formas, através do anúncio da Palavra de Deus, dos sacramentos e do exemplo de vida das famílias.
A construção duma Igreja, mais ainda se se trata duma futura Catedral, é objecto das aspirações dos cristãos que aí põem e aí deixam um pouco da sua vida. Os cristãos de cada época, desde o século XVI até ao século XXI, puseram a sua marca na Catedral, não só mantendo-a como uma manifestação viva da Igreja mas também gravando aí a marca das suas iniciativas e das suas devoções inscritas na pedra e na arte sacra, através de realizações que podemos supor mais ou menos bem conseguidas. Em todo o caso, elas são no seu conjunto objecto do nosso respeito porque mostram os traços concretos da fé dos cristãos em cada tempo.
No início da povoação do Funchal, a vida cristã centrou-se à volta da capela de Nossa Senhora do Calhau, dedicada à Natividade de Nossa Senhora e chamada pelo nome de Conceição de Baixo, uma vez que, a meados do século XV, foi mandada construir por João Gonçalves Zarco uma capela numa elevação da cidade que ficou conhecida como a Conceição de Cima, sendo mais tarde ampliada e remodelada para servir de capela conventual às Clarissas que aí tiveram a sua primeira comunidade.
A vila do Funchal crescia e o aumento dos seus habitantes tornava necessária a construção duma Igreja de maiores dimensões a par de um planeamento dos principais edifícios públicos tendo em vista uma possível elevação da vila a cidade, o que realmente aconteceu em 1508. Para isso, foi designado um espaço que era propriedade do Duque D. Fernando, pai de D. Manuel e chamado de «chão do Duque». Quando foi entregue a D. Manuel, duque de Beja, a administração da Ordem de Cristo, a Madeira passou para a sua jurisdição e ele pôs logo em curso um plano de urbanização da cidade do Funchal onde se incluía a construção, no então «campo do Duque», «duma Igreja e praça e casa do Concelho». Em Novembro de 1485 o chão foi medido e delimitado o lugar para a nova Igreja. O Concelho tomava à sua responsabilidade pagar o terreno para estas construções, assim como custear a construção das naves e da torre da futura Igreja, ficando o Duque D. Manuel com a obrigação de construir a capela-mor e as capelas contíguas. Vários decretos e cartas de D. Manuel tiveram por objectivo criar receitas para as obras da Igreja grande até que, em 1493, ele escreveu à Câmara e aos madeirenses dando ordem para começar a obra: «Eu determinei agora de se começar e meter logo mão na Igreja que tenho ordenado de se fazer nessa vila, sentindo assim por serviço de Deus, bem e honra de todos vós».
As obras de construção da Igreja iniciaram-se em 1493 ao ritmo que era possível manter graças ao financiamento, quer da Câmara, quer de D Manuel que, entretanto, assumira o trono de Portugal. Alguns documentos que constam de cartas trocadas entre as autoridades da Câmara e o rei D. Manuel revelam que, no ano de 1500, a obra da construção da Sé estava parada por falta de verbas e por um certo cansaço do povo quanto às taxas criadas para prosseguir as obras da Igreja. O rei mostra contudo a sua determinação em levar as obras da Igreja até ao fim e, de facto, em 1508, elas já estavam na fase final.
A nova Igreja, futura Sé do Funchal, foi benzida solenemente por D. João Lobo, Bispo titular, enviado à Madeira pela ordem de Cristo nos últimos meses de 1508 para exercer as funções do seu ministério episcopal. O Cº Jerónimo Dias Leite escreve que o vigário de Tomar enviou à Madeira «um bispo de anel», «o primeiro que entrou na ilha», o qual se dedicou no tempo da sua estadia a «crismar e dar ordens, e executar todos os ministérios competentes ao bispo, enquanto o não era o dito vigário».
Nesse mesmo ano de 1508, a sede da Paróquia que tinha como pároco Frei Nuno Cão foi transferida da Igreja de Nossa Senhora do Calhau para a nova Igreja, embora esta ainda se encontrasse em construção. Provavelmente não tinha todos os tectos completamente prontos e faltavam alguns pavimentos. Contudo, com o crescimento da população do Funchal, a capela de Nossa Senhora do Calhau revelava-se cada vez mais pequena para as necessidades do culto, sendo o espaço ainda inacabado da «Igreja grande» um lugar mais amplo para as celebrações litúrgicas.
Alguns historiadores estimam que o culto da nova Igreja paroquial deverá ter começado em 1512 ou 1513, altura em que a documentação disponível dessa época começa a chamá-la de Sé. Sabemos que em 1512 o retábulo do altar-mor já está em construção.
A 12 de Junho de 1514, pela bula Pro excellenti proeminentia, o Papa Leão X criava a diocese do Funchal e nomeava como seu primeiro bispo o «grão prior» de Tomar, prelado que nunca chegou a vir à Madeira.
Em virtude das determinações desta bula, o vigário da Igreja de Nossa Senhora, agora catedral e os quinze clérigos beneficiados que o ajudavam foram feitos Cónegos, constituindo-se assim o primeiro cabido da Sé, composto pelas seguintes dignidades: Deão, Arcediago, Chantre, tesoureiro.
Neste ano, as obras da Sé ainda continuavam uma vez que em resposta a uma carta de frei Nuno Cão, Pároco da Sé, escrita em Agosto de 1514 e na qual ele pedia a D. Manuel que determinasse como seria o acabamento da torre, o rei respondia que o coruchéu se fizesse de «ladrilho e não de madeira e de fora com seus azulejos» que seriam encomendados numa oficina de Sevilha.
O cadeiral do Cabido e o retábulo da capela-mor foram provavelmente terminados nos anos que medeiam a criação da Diocese e a dedicação da catedral em 1517. Sabe-se, através duma conta de meados de 1517, que nesta data ainda faltavam concluir alguns detalhes da construção, lajear as capelas, colocar uma grade no baptistério.
No dia 18 de Outubro de 1517, dia da festa do evangelista S. Lucas, D. Duarte, bispo de Dume sagrava o altar da Sé do Funchal em honra de Nossa Senhora e dos 11 mil mártires. Este bispo tinha sido enviado à Madeira por D. Diogo Pinheiro para exercer o seu ministério no que fosse necessário ao bem do povo de Deus. Sabe-se que crismou, conferiu ordens sacras e deu um regimento à Sé que não chegou até nós.
O documento com a precisão da data da sagração encontrava-se no altar mor da Sé junto com as relíquias dos mártires. O altar manuelino de forma muito simples e talhado em pedra da Arrábida é suportado por uma coluna quadrada. Entre a tampa e o pé do altar existia uma pequena caixa de madeira com o pergaminho da sagração e as referidas relíquias. Nele estava escrito em latim o breve memorial da sagração que transcrevemos:
“No ano do Senhor milésimo quinquentésimo décimo sétimo, no dia 18 do mês de Outubro (18 de Outubro de 1517), Eu, Duarte, bispo de Dume, consagrei a Igreja e o altar-mor em honra da Santíssima virgem Maria e nele encerrei as relíquias de dez mil mártires. Concedemos a cada um dos fiéis que hoje a visitem, um ano de indulgência na forma costumada da Igreja e, do mesmo modo, 40 dias àqueles que o fizerem no dia da consagração. Duarte, bispo de Dume.”
As relíquias são, de facto, dos dez mil mártires e a pedra, vinda da torre de santa Bárbara, foi extraída do monte Sinai.
Convém referir que, em 1523, S. Tiago menor foi escolhido como padroeiro da diocese do Funchal e a ele foi confiada a protecção da cidade em caso de peste ou de outra catástrofe.
Sabemos que a capela lateral que está à direita da capela-mor e que hoje comunica com o exterior por uma porta, capela conhecida como a de Nossa Senhora do Amparo e actualmente de N. Senhora de Lurdes, foi anteriormente dedicada a S. Tiago. Aliás, a devoção a S. Tiago andava ligada à de S. Roque que também possuía uma capela na Sé. Os dois santos foram associados na protecção contra a peste.
























