Entrevista: P. Alexandre Mendonça fala da Venezuela: “Convivemos com uma realidade de grande sofrimento”

Foto: Jornal da Madeira

O Pe. Alexandre Mendonça, Capelão da Missão Católica Portuguesa em Caracas, presidiu à Novena dos Emigrantes na Igreja de Nossa Senhora do Monte na passada quinta-feira. Por  essa ocasião o Jornal da Madeira dialogou com este padre nascido na Madeira radicado na Venezuela há mais de 50 anos.

Jornal da Madeira – Pe. Alexandre Mendonça, como carateriza a atual situação da nossa comunidade na Venezuela?

Pe. Alexandre Mendonça – Em primeiro lugar, queria agradecer o acolhimento, a vossa oração e acompanhamento, pelo que está a acontecer, agradeço esta oportunidade. Como padre da missão há 27 anos, agradeço todo o carinho e apoio; estou na Venezuela há 50 anos, emigrei para lá aos 12 anos de idade; e em vários momentos, vim aqui agradecer a Nossa Senhora do Monte, por exemplo, aquando da tragédia de Vargas, em que recebemos uma grande ajuda dos madeirenses, em especial a presença de D. Teodoro de Faria e o seu acompanhamento espiritual.

Neste momento, convivemos com uma realidade de grande sofrimento que os meus amigos conhecem bem, têm mais informação do que nós próprios, os meios de comunicação social não podem transmitir e, pessoalmente, sei mais através da RTP internacional, que aproveito para pedir que continuem a nos acompanhar com as notícias, as festas, o futebol, porque neste momento ninguém pode dizer que está bem ou tapar o sol com a dedo…

“…Mas há fome, não há medicamentos, há insegurança, a violência é cada dia maior e estamos a viver dias difíceis”

Jornal da Madeira – Há fome, muitas necessidades ?

Pe. Alexandre Mendonça – Sim, sofremos como sofre toda a gente, há fome na Venezuela e também na saúde muitas necessidades. Quem tem melhores condições enfrenta de maneira diferente e a nossa comunidade busca ter no seu próprio meio instituições que ajudam, como o Lar Pe. Joaquim Ferreira, a Academia do Bacalhau, a Academia da Espetada, e pessoas de boa vontade que se aproximam da Missão Católica e do Centro Português de Caracas. Mas há fome, não há medicamentos, há insegurança, a violência é cada dia maior e estamos a viver dias difíceis

Jornal da Madeira – O que é que as pessoas procuram mais na Igreja?

Pe. Alexandre Mendonça – A nível da Igreja não há farinha para fazer pão, mas estes momentos de crise aproximam muito mais as pessoas de Deus e de Nossa Senhora. Neste momento, temos a visita da Imagem Peregrina de Fátima, está no interior do país, ainda não chegou a Caracas, onde a situação é mais difícil, mas as pessoas têm fome de tudo, também fome espiritual, pois ‘não só de pão vive o homem’. Sou um amigo, um irmão e partilho tudo, recebo muito mais e dou tudo pela minha querida comunidade.

“As pessoas não emigraram com as malas vazias, porque levavam no seu coração a Nossa Senhora”.

Jornal da Madeira – Esta ligação com Fátima é especial, como vivem esta espiritualidade de Nossa Senhora?

Pe. Alexandre Mendonça – Onde está um português estão presentes a devoção e o amor a Nossa Senhora de Fátima. O amor é tão grande que Fátima já não é propriedade da comunidade portuguesa; bem dizia o Papa Paulo VI que Fátima é o Altar do Mundo; a devoção é tão querida e amada por tudo o mundo; e na Venezuela não há rincão que não tenha celebrado com muito amor, devoção e dignidade, este centenário (100 anos das aparições de Nossa Senhora em Fátima). Assim, no dia 12 (de maio), na sede da Missão Católica, o novo cardeal da Venezuela, Baltazar Porras, presidiu às cerimónias; no dia 13, foi o cardeal-arcebispo de Caracas, Jorge Urosa; e no domingo seguinte, um bispo auxiliar; também celebrei em distintas paróquias, para devotos de todas as nacionalidades, dado que já é uma celebração com várias línguas, em que toda a Venezuela vibra.

A propósito, tenho uma experiência muito linda, numa paróquia, onde estive 15 anos, uma paróquia em que tinha muitos afilhados, muitos deles pretinhos, e muitas chamadas Fátima, sem que tivessem familiares portugueses. Quer dizer, soubemos semear esse amor a Nossa Senhora, construindo capelas e pedindo que nos levassem uma imagem de cá; lográmos também, com a ajuda de todos, construir uma igreja consagrada a Nossa Senhora de Coromoto, a padroeira da Venezuela. As pessoas não emigraram com as malas vazias, porque levavam no seu coração a Nossa Senhora.

Jornal da Madeira – Em relação aos apelos do Papa Francisco, a sua preocupação e a sua imagem são bem acolhidos, têm relevância até ao nível político?

Pe. Alexandre Mendonça – No meio do povo, esses apelos e preocupações do Santo Padre provocam muita gratidão e fazem chegar às pessoas esperança, fé, para que a situação melhore. Agora, penso que no mundo político não produz muito efeito, está a vista de todos, não vale a pena explicar mais.

Jornal da Madeira – Padre Alexandre, acha necessário haver um “plano de emergência” para os emigrantes que queiram sair da Venezuela, caso a situação possa agravar-se?

Pe. Alexandre Mendonça – Sempre é melhor prevenir do que lamentar, diz um ditado venezuelano. Tudo o que se possa fazer para evitar maior sofrimento, é bem-vindo e, neste aspeto, tenho agradecido aos governos central e regional a sua presença, preocupação e empenho. Ainda há pouco estiveram lá os secretários de Estado e da Região, e graças a eles também participei no recente “Fórum Madeira Global”. Agradeço essa proximidade que a todos nos anima neste momento tão difícil que estamos a viver. Cada caso que se resolve lá é menos um problema que vem para cá, e aqui já há suficientes.

“No meio do povo, esses apelos e preocupações do Santo Padre provocam muita gratidão e fazem chegar às pessoas esperança, fé, para que a situação melhore”.

Jornal da Madeira – A nível das pessoas que queiram regressar para cá, ou outro lugar, é fácil ou há obstáculos?

Pe. Alexandre Mendonça – Pelo aquilo que tenho ouvido ultimamente, parecer haver obstáculos para sair e entrar. Agora, honestamente, não conheço bem o assunto e quando não conheço prefiro não opinar.

Jornal da Madeira – Pessoalmente, como vive o seu ministério nesta situação, num país com estas dificuldades?

Pe. Alexandre Mendonça – Essa pergunta é curiosa porque as pessoas que souberam que vinha para cá perguntavam se ainda pensava voltar à Venezuela. Mas, moral e espiritualmente falando, uma pessoa que vive há 50 anos naquele país, com muitos anos de sacerdócio na comunidade tão querida, penso que deveria ser o último a abandonar o barco. Não tenho vocação de mártir, mas só quero uma Venezuela melhor, como grande nação que é e será, com fé em Deus e em Nossa Senhora.

Jornal da Madeira – A fé e o compromisso com o Evangelho de Cristo dão-lhe uma força especial para continuar…

Pe. Alexandre Mendonça – Se somos sacerdotes, temos a obrigação de ter esse sentimento, e ser os primeiros a transmitir com verdadeira confiança em Deus de que as coisas vão melhorar, porque o Senhor nunca nos abandona, somos nós que lamentavelmente nos distanciamos, como diz a Bíblia, tendo olhos que não veem, tendo ouvidos que não ouvem, mas o Senhor que tudo pode, cura a nossa cegueira e pode clarear melhor o que vemos e ouvimos.

“Oxalá que os que venham para cá encontrem uma mão amiga e que não suceda que, como acontece com frequência, ao chegarem cá serem tratados como venezuelanos”

Jornal da Madeira – O que precisa neste momento com maior urgência, qual a ajuda que a nossa comunidade pode dar, o que podemos fazer?

Pe. Alexandre Mendonça – Aproveito para pedir a todos os leitores desta entrevista, que nos acompanhem com a sua oração, tenham muita fé em Deus, a Ele nada é impossível, quem a Deus tem nada lhe falta. Outra ajuda é para todos aqueles que venham para cá ou vão para outros países, porque não se pode tapar o sol com o dedo, há muito sofrimento na tomada de uma decisão… Oxalá que os que venham para cá encontrem uma mão amiga e que não suceda que, como acontece com frequência, ao chegarem cá serem tratados como venezuelanos. Como eu dizia no “Fórum Madeira Global”, lá somos tratados como portugueses, e isso muito nos honra, mas ao chegar à nossa terra não é agradável ser venezuelano. Oxalá encontrem na sua terra verdadeiro apoio e solidariedade, porque não se pode amar a Deus sem amar os irmãos mais necessitados.

Todos vivemos um momento propício para elevarmos a nossa fé e amor a Deus e a Nossa Senhora, na caridade que é a única que nos pode salvar e colocar em prática o que o Senhor nos pede, o amor uns pelos outros.