“Desejo ser um bom padre, isto é: presença real e efectiva de Jesus”

Entrevista ao novo Sacerdote, Pe. Carlos Almada

O Pe. Carlos Almada é o padre mais novo da nossa diocese. Numa breve conversa damos-lhe a conhecer o percurso deste jovem sacerdote.

Jornal da Madeira – Carlos, sabemos que é natural de Campanário, o filho mais novo de dois irmãos. Conte-nos um pouco do seu percurso vocacional. A sua família compreendeu essa decisão?

P. Carlos Almada – É verdade, sou o mais novo lá de casa. Quando entrei no Seminário tinha apenas 15 anos. Lembro-me perfeitamente das férias de Verão que antecederam a minha entrada no Seminário. Já conhecia o que era um Seminário. Anos antes tinha frequentado o pré-seminário do Colégio Missionário. Deixei de lá ir porque interferia com outros planos que na altura achava mais importantes. Decisão simplesmente minha. Os meus pais nunca me obrigaram nem impediram de ir aos encontros do pré-seminário. E ao longo destes anos nunca senti qualquer pressão da parte deles.

Penso que a minha vocação, ou melhor, o chamamento de Deus foi-se manifestando nos pequenos grupos e atividades que frequentava na paróquia.

Então, há dez anos, no início das férias, disse ao meu pai que gostava de saber como era o Seminário diocesano do Funchal. Lembro-me de ouvir falar e conhecia alguns amigos que já lá tinham ido. E assim foi, depois de insistir muito com o meu pai, telefonamos para o reitor, o Cón. Fiel. Ficou combinado que em agosto viria ao encontro de Verão. Neste encontro éramos muitos, e destes, entrámos três.

Gostei do ambiente. E a decisão de entrar baseava-se muito no ter gostado de lá estar, de conhecer novos amigos, alguns dos quais mais adiantados no seu percurso, um deles da minha paróquia, o Pe. Estevão que já conhecia. Senti que ali estava bem. Penso que os padres viram nesta atitude uma possível vocação.

“O chamamento de Deus foi-se manifestando nos pequenos grupos e atividades que frequentava na paróquia”

Lá em casa, todos aceitaram a minha vontade em entrar no Seminário. Sabiam que iria custar a mudança, isto é sair de casa. Não só para mim, mas também para eles. Custa claro. Acho que é normal. Todos aqueles que saem do seu ambiente, da sua zona de conforto sente a mudança. Mas, rapidamente, senti que o Seminário era a minha casa. Tinha mesmo vontade em estar ali.

É claro que não tinha a certeza se Deus queria que fosse padre. Essa questão surge muito mais tarde.

Jornal da Madeira – Então como Seminarista, teve de deixar algumas coisas, como a família, a escola e amigos, que já tinha… como foi lidar com todas essas novidades?

P. Carlos Almada – Hoje posso dizer que deixei algumas coisas para ganhar outras. Reconheço que ganhei muito! Se Deus parecia agarrar-me e eu estava bem, não tinha que olhar para trás e lamentar-me do que já passou.

Porém, nos primeiros três anos de Seminário íamos a casa todos os fins-de-semana. Era possível manter o contacto com a família, e alguns amigos. Por isso, o corte não é assim tão radical. É claro que nem todos percebem este novo “estilo de vida”. Mas Deus capacita aqueles que escolhe. Isto é realmente verdade.

Quando entrei no Seminário tinha apenas quinze anos. Sabia que tinha muitos anos pela frente. Os jovens pensam assim… E como nunca tive muita dificuldade em integrar-me em novos grupos, e em fazer novos amigos, deixar algo para agarrar novos projetos nunca foi um problema.

O Seminário era realmente um lugar onde se zelava pelo crescimento humano e espiritual. Os nossos colegas mais velhos, assim como os padres eram, para nós exemplo de caminho a seguir.

 

Jornal da Madeira – E como é que os vossos colegas e amigos vos viam?

P. Carlos Almada – Acho que de forma normal. As conversas e o ambiente em geral eram normais. Nunca nos chamaram de extraterrestres. Isso é bom.

Recordo conversas e situações engraçadas. Desde colegas que não eram muito crentes e que faziam muitas perguntas, às quais não sabia responder; e colegas surpresos pelo nosso ritmo de vida em Seminário, os horários e atividades propostas. Mas as longas conversas prendiam-se com as exigências consentâneas com o ministério sacerdotal.

 

Jornal da Madeira – Logo depois do secundário foi para os Seminários de Lisboa continuar a formação. Já tinha a certeza se o sacerdócio era a sua vocação?

É verdade. Foi uma novidade para todos. Era a primeira vez que alguém ia para Lisboa fazer todo o percurso do Seminário Maior. Mas ia com muita alegria. Não ia sozinho, o que foi muito bom. E além demais, tinha colegas do Seminário do Funchal que já estavam em Lisboa a estudar.

Nesta fase do meu caminho a questão vocacional já era mais clara. A minha vida fazia mais sentido ali, numa maior proximidade com Jesus. Mas ainda faltava dar muito! As motivações para seguir Jesus ainda eram fraquinhas.

“Ser cristão é descobrir-se à medida de Cristo. É mais do que procurar a nossa realização; é perceber onde está a felicidade eterna”.

Jornal da Madeira – Lá encontrou outra realidade. Conte-nos como foi?

P. Carlos Almada – Encontrei uma outra casa, novos formadores, novos colegas e novos desafios. Entre dificuldades e resistências minhas o Senhor foi fazendo qualquer coisa. O primeiro ano foi bastante forte. A proposta passava por viver, mais intensamente, dois grandes dinamismos: o ser cristão à séria; e o sentido de comunidade. Foi neste primeiro ano em Lisboa, no ano Propedêutico que senti de forma mais real que Jesus me interpelava a dar-lhe a minha vida. Tivemos experiências de missão que nos convidavam a sair do nosso ambiente de conforto. Aquele ambiente morno que não exige nada de nós, e que impede o nosso crescimento. Ser cristão é descobrir-se à medida de Cristo. É mais do que procurar a nossa realização; é perceber onde está a felicidade eterna. Jesus é a única pessoa que nos pode indicar o caminho.

Nestes anos de Seminário, onde éramos quase cinquenta, tivemos uma verdadeira experiência de comunhão na diversidade. Embora provenientes de várias dioceses, e até de diferentes países, crescemos juntos para o mesmo fim.

“quando um jovem doa a sua vida ao serviço da Igreja, Jesus renova o envio de Pedro há mais de dois mil anos: Pedro, apascenta as minhas ovelhas…”

Jornal da Madeira – Tem algum lema para este momento da ordenação sacerdotal? Qual é, e porque o escolheu?

P. Carlos Almada – Escolhi o diálogo de Nª Sr.ª de Fátima com os pastorinhos a 13 de maio de 1917: ” Quereis oferecer-vos a Deus?”, perguntou Nª Sr.ª de Fátima. E os pastorinhos responderam: “Sim, queremos!”. E ainda, as palavras de Jesus a Pedro depois da pesca milagrosa: “Apascenta as minhas ovelhas!”

A mensagem de Fátima é um tesouro confiado ao nosso país. E a vida daqueles pastorinhos é um verdadeiro exemplo para toda a humanidade. O «Sim» destas crianças é o mesmo de Maria ao Anjo na Anunciação; é o mesmo «Sim» que darei no dia da minha ordenação; é o mesmo «Sim» que fui dando ao longo destes anos. Este «Sim» carrega a oferta radical da vida do chamado. Radical, porque deixamos a nossa vida nas Suas mãos.

E quando Jesus chama alguém a esta entrega especial é porque nos quer para trabalhar com Ele. E assim, quando um jovem doa a sua vida ao serviço da Igreja, Jesus renova o envio de Pedro há mais de dois mil anos: Pedro, apascenta as minhas ovelhas; “João”, apascenta as minhas ovelhas… “Carlos”, apascenta as minhas ovelhas.

 

Jornal da Madeira – Que expectativas tem para a primeira missão como Padre? Quer deixar alguma mensagem?

P. Carlos Almada – Não tenho alimentado expectativas. Simplesmente desejo ser um bom padre, isto é: presença real e efectiva de Jesus para todos aqueles que me rodearem. Na missão que me for confiada. Penso que é por aqui o caminho…

Queria dizer, que Jesus continua a passar e chamar por nós. Vejo a acontecer aquela passagem de Zaqueu, em que Jesus lhe diz: Zaqueu, eu HOJE tenho de ficar em tua casa. Como este homem, deixemos que Jesus fique já HOJE, em nossa casa.