D. Nuno Brás presidiu a Celebração Ecuménica no âmbito da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos

Foto: Duarte Gomes

No âmbito de mais uma Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, que se iniciou no passado dia 18 e termina no próximo dia 25, realizou-se no dia 20 na Igreja do Convento de Santa Clara, uma Celebração Ecuménica presidida por D. Nuno Brás, e participada por representantes das Igrejas, Presbiteriana, Anglicana e Luterana.

No início da celebração, com o tema geral “Aprendei a fazer o bem, Procurai a Justiça” (Isaías 1,7) o Pe. João Carlos sublinhou que “temos falhado na prática do bem” e que “não temos procurado a justiça diante da grande opressão, nem obedecido ao mandamento de Deus, no cuidado com a viúva e o órfão”.

Terminou afirmando que “precisamos da graça de Deus para superar as nossas divisões e desmontar sistemas e estruturas que têm contribuído para dividir as nossas comunidades” e sublinhando que devemos “orar pelo fortalecimento da unidade que temos como cristãos para ‘abrir os nossos corações, para que possamos ser ousados na busca das riquezas de inclusão e dos tesouros da diversidade entre nós’ (Martin Luther King)”

Seguiu-se a leitura do Evangelho e a reflexão de cada um dos representantes das Igrejas presentes, a começar por Ilse Berardo, da Igreja Luterana Alemã, que considerou esta cerimónia uma reafirmação, na diversidade confessional, “a vontade e o desejo de paz, comprometendo-nos a ser intervenientes ativos para uma paz nacional, social, uma paz individual e para a paz na Ucrânia”.

É “o lado prático da fé cristã e a sua aplicação na nossa conivência pacífica, no dia a dia, na família, na paróquia, na política e até no trânsito, exigindo um trato social pacífico”.

“Temos de abrir ainda mais os nossos olhos e ouvidos para captar as oscilações sociais na nossa realidade e não ouvir e ver simplesmente o que parece mais conveniente para nós”, frisou.

De resto, “temos de olhar todas as pessoas com o mesmo amor, o mesmo amor de Deus, que se reflete em ações como ajudar, visitar e cuidar, para mostrar paz”.

Todos temos, disse, de dar este primeiro passo para aprender a fazer o bem e a justiça.

Para isso, temos de pensar menos em nós e olhar mais para os outros, contando com a força do Espírito Santo que recebemos no batismo, para eliminar os velhos preconceitos, medos e dúvidas que nos assolam”.

Só assim nos poderemos transformar numa equipa de irmãos que se compreendem mutuamente e que trabalham ativamente, partilhando as alegrias do Evangelho, os desafios contemporâneos com uma “postura ativa da salvaguarda da criação e de soluções comuns para a paz e para a justiça”.

Igreja não deve ter medo

Já o pastor Jorge Gameiro, da Igreja Presbiteriana, referiu que esta passagem do profeta Isaías “é central na vida de Jesus”. São a passagem de “um Deus que se horroriza com as ofertas aos sacerdotes do templo, um Deus que se horroriza com o comportamento dos seus fiéis”.

Um comportamento que descrimina e que, infelizmente, continua ainda hoje a ser uma realidade, da mesma forma que ainda prevalece “uma religiosidade individualista, tradicional, discricionária”, a mesma de que nos falava Deus através de Isaías.

A vontade de Deus é contrária a tudo isto. O que Ele quer é que “as pessoas se transformem, possam viver melhor umas com as outras criando uma sociedade mais justa, mais igualitária”.

A terminar defendeu que “a Igreja neste século XXI, tem de ter a dimensão profética de dizer o que está mal, de não ter medo de falar, de apontar o dedo se for caso disso” e falar com os outros atores sociais, sendo conselheira, mas exigindo-lhes que tomem decisões que verdadeiramente ajudem os que mais precisam.

Amor genuíno

Seguiu-se a reflexão do Pe. Michael Jarman, representante da Igreja Anglicana, que lembrou que Jesus fala da salvação em diferentes contextos para diferentes audiências. No Evangelho que acabara de ser pronunciado dividia a humanidade “em duas equipas: a das ovelhas e a dos cabritos”.

As ovelhas, colocadas ao seu lado direito, são abençoadas e vão para o reino que lhes está preparado, ou seja para a ida eterna. Já os cabritos não têm a mesma sorte, sendo renegadas ao fogo do inferno.

Perante este cenário, prosseguiu, “todos sabemos a qual das equipas queremos pertencer”, com Jesus a nos lembrar o que é preciso fazer para que consigamos esse lugar. Ou seja, ao contrário dos cabritos temos de olhar para quem está ao nosso lado, para as suas necessidades materiais e espirituais.

Sublinhou ainda o facto de Jesus ter deixado estes ensinamentos na sua última semana de vida, o que é algo fundamental para as pessoas que se dizem seus discípulos, os cristão de hoje, é que não há duas opções, isto é, só podemos estar com Ele. Isso implica, frisou, viver a nossa vida olhando para os que precisam de nós, os pobres os doentes, procurando a justiça para todos. Tudo isto de livre vontade, sem esperar nada em troca, pondo em prática um amor genuíno, autêntico.

 Fazer o bem aprende-se

Quanto a D. Nuno Brás disse ser “muito fácil cair naquela atitude que o profeta denuncia daqueles crentes que achavam que Deus se contentava com umas ofertas, um fumo de incenso e até mesmo umas orações”. A passagem de Isaías que serve de lema para esta semana de oração, vincou, “é verdadeiramente uma revolução e uma revolução também do homem com Deus, porque ela aponta um outro culto, um outro modo de nos relacionarmos com Deus, um outro modo de lhe darmos glória”.

O prelado explicou depois que “fazer o bem é procurar o bem do outro, é ser capaz de se deixar interrogar por aquilo que o outro é, pelas suas necessidades, por aquilo que é bom para ele”.

E “fazer o bem, diz o profeta, aprende-se”, lembrou D. Nuno Brás, para logo acrescentar que esta é uma caminhada diária e sem fim porque “não existem doutorados a fazer o bem”.

E o bem “é qualquer coisa que se faz verdadeiramente e que por isso não nos podem bastar os valores por muito importantes que eles sejam, não nos podem bastar as ideias por essenciais que elas sejam, não podem bastar as boas intenções”. Na verdade, “o bem exige-nos que tenhamos de sair de nós, do nosso bem-estar por causa do outro”.

Referindo-se ao Evangelho o bispo do Funchal diz que ele nos convidava ainda a ir mais longe, já que nos mostra que neste outro está presente Jesus Cristo, neste outro está a presença de Jesus e este é, de facto, “o culto perfeito, o modo de dar glória a Deus, o modo de procurarmos também a unidade”.

Por outras palavras, “fazer o bem une, fazer o mal trás consigo a guerra, fazer o bem trás consigo a Paz”. Daí o apelo para que “aprendamos a fazer o bem, sabendo que aquele a quem fazemos bem é o próprio Senhor Jesus que está ali diante de nós, pedindo que o acolhamos, que sejamos capazes de o servir de o ajudar” e “peçamos ao Senhor, neste momento de oração, que Ele nos ensine a fazer o bem e nos desinstale para procuramos constantemente a justiça, a sua justiça”

No final da celebração, a palavra voltou a ser dada ao Pe. João Carlos que fez os devidos agradecimentos, nomeadamente às irmãs de Santa Clara pelo acolhimento, ao coro e a quem preparou o pequeno convívio após a celebração.