A Porta Aberta

D.R.

O ano 2003 começou. Ano novo luta nova. O ano 2002 concluiu com toda uma série de acontecimentos que não me permitiram fechar todas as portas. Paciência. Iria entrar em 2003 com várias correntes de ar originadas por uma porta aberta. Mas, se Deus quiser, aos poucos irei fechá-la. Torna-se necessário dar a volta ao que nos acontece de menos bom e seguir em frente. Graças a Deus que tive oportunidade de participar na Real Basílica de Nossa Senhora e de Santo António na Vila de Mafra na última missa do ano, que também era por alma do falecido Papa Emérito Bento XVI. Foi de uma simbologia repleta de significado espiritual, com o Te Deum (A Vós, Ó Deus, louvamos), entoado no final da missa, em latim, por uma voz maravilhosa, de que destaco a seguinte frase: ”Nós vos bendiremos todos os dias da nossa vida e louvaremos para sempre o vosso nome…Desça sobre nós a vossa misericórdia porque em Vós esperamos. Em vós espero, meu Deus, não serei confundido eternamente”. O sacerdote apresentou ainda o Menino Jesus ao som da música “Adeste Fidelis”, para quem o quisesse beijar ou simplesmente reverenciar. Apressei-me a beijar o Menino Jesus com um sentimento de agradecimento e o pedido de desculpa pelo que não tinha conseguido realizar. Ut videam, (Que eu veja), neste novo ano que vai começar e que consiga fechar a porta que permaneceu aberta.

Durante a homilia o sacerdote referiu uma frase do Papa Bento XVI: “Fazei coisas belas mas, sobretudo, tornai as vossas vidas lugares de beleza”. Recordei ainda outras frases de Bento XVI: “A Igreja sente como sua missão prioritária, na cultura atual, manter desperta a busca da verdade e, consequentemente, de Deus, levar as pessoas a olharem para além das coisas penúltimas e porem-se à procura das últimas”. “Não ter “medo” de se confrontarem com a fonte primeira e última da beleza, de dialogar com os crentes”. Bento XVI indica como caminhos concretos “a reabilitação da tríade bondade, verdade e beleza”. Sobretudo, Bento XVI era um homem profundamente apaixonado por Jesus Cristo, que recebeu uma grande bênção e a soube colocar ao serviço dos outros. Prova disso são as suas últimas palavras: “Senhor, eu amo-te”.

Tive oportunidade de participar no funeral do Papa João Paulo II. Nunca mais o esquecerei. Foi a minha homenagem a um grande santo que muito admirava. Pensei como gostaria também de estar presente nesta cerimónia fúnebre e prestar uma homenagem ao Papa Emérito Bento XVI. Não sendo possível foi muito bom participar nesta missa por sua alma. Senti-me por alguns momentos no Vaticano na Basílica de S. Pedro. Deus é Pai! Dois papas tão diferentes mas cada um possuindo o seu próprio carisma. Josefh Ratzinger era um grande teólogo com uma atitude muito reservada e discreta, contrastando com a doçura e afabilidade que João Paulo II sempre demonstrou. O Papa Emérito surpreendeu-nos com a sua renúncia ao pontificado romano. Foi uma prova de grande humildade ter tomado esta decisão quando sentiu que não estava em condições de servir a Igreja enquanto Papa.

Tenho muito presente a homília do Papa Bento XVI no Terreiro do Paço em 11 de maio de 2010, aquando da sua visita a Portugal e que muito me sensibilizou: “Lisboa amiga, porto e abrigo de tantas esperanças que te confiava quem partia e pretendia quem te visitava, gostava de usar hoje as chaves que me entregas para alicerçar as tuas esperanças humanas na Esperança divina. Irmãos e irmãs, quem acreditar em Jesus não será confundido: é a Palavra de Deus, não Se engana, nem pode enganar… só Cristo pode satisfazer plenamente os anseios profundos de cada coração humano e responder às suas questões mais inquietantes acerca do sofrimento, da injustiça e do mal, sobre a morte e a vida do Além. “Eu estou sempre convosco, até ao fim dos tempos” (Mt 28,20).

O Papa Francisco na homilia do funeral de Bento XVI proferiu as seguintes palavras: …”No final da Regra Pastoral, São Gregório Magno convidava e exortava um amigo a prestar-lhe esta companhia espiritual: “No meio das tempestades da minha vida, confortava-me a confiança de que tu manter-me-ás à superfície sobre a tábua das tuas orações e, se o peso das minhas culpas me abater e humilhar, emprestar-me-ás a ajuda dos teus méritos para me elevar”. É a consciência do pastor que não pode carregar sozinho aquilo que, na realidade, nunca poderia sustentar sozinho e, por isso, sabe abandonar-se à oração e ao cuidado do povo que lhe está confiado. É o Povo de Deus que, congregado, acompanha e confia a vida de quem foi seu pastor… estamos aqui com o perfume da gratidão e o unguento da esperança para lhe provar, uma vez mais, o amor que não se perde; queremos fazê-lo com a mesma unção, sabedoria, delicadeza e dedicação que ele soube dispensar ao longo dos anos. Queremos dizer juntos: “Bento, fiel amigo do Esposo, que a tua alegria seja perfeita escutando definitivamente a para sempre a sua voz!”.

Termino este artigo denominado “A Porta Aberta”, feliz por ter conseguido fechá-la ao render através do artigo uma última homenagem ao Papa Bento XVI. Descanse agora em paz na companhia de Jesus, José e Maria.