Missa do Galo: D. Nuno Brás assegura que a procura humana pelo Salvador não terminou

O prelado celebrou a Missa da Meia-Noite na Sé, onde lembrou que “somos nós, que envolvidos pela Presença de Deus nesta noite santa de Natal, nos vemos cercados pela luz da glória de Deus, missionários e construtores da paz entre os homens”.

Foto: Duarte Gomes

O bispo do Funchal presidiu à Missa da Meia-Noite, também conhecida como ‘Missa do Galo’, na Sé. Uma Eucaristia concelebrada pelo pároco da Sé, cónego Marcos Gonçalves e por outros sacerdotes e em que D. Nuno Brás frisou que a procura humana pelo Salvador não terminou.

“Sabemos, nós que enchemos hoje as naves desta velha catedral (também ela testemunha natalícia no meio desta nossa cidade), que não terminaram nem o anúncio do Anjo, nem a procura humana pelo Salvador, nem a sua manifestação natalícia”, disse o prelado na sua homilia.

Além disso, continuou, “também sabemos, por experiência própria, o que significa vigiar na noite do sofrimento e da incompreensão como os pastores de Belém; ou procurar por caminhos desconhecidos, guiados por um qualquer sinal, como os magos de terras longínquas; ou seguir discretamente os passos de Jesus, como os discípulos da primeira hora; ou indagar de qualquer outro modo pelo Salvador”.

Da mesma forma sabemos igualmente, “a felicidade suprema de ter, um dia na nossa vida, encontrado o Menino, assim como Ele sempre se manifesta: pequeno, frágil, deitado na manjedoira, com sua Mãe; a felicidade suprema de perceber interiormente: ‘Encontrámos o Messias’”.

“Hoje, somos nós, que envolvidos pela Presença de Deus nesta noite santa de Natal, nos vemos cercados pela luz da glória de Deus, missionários e construtores da paz entre os homens”, constatou. Para logo acrescentar que, “somos nós que vemos e escutamos a sinfonia do louvor divino — a glória presente no amor dos irmãos, presente na vida quotidiana da Igreja, presente no bem que se faz por esse mundo fora, presente quando alguém estende a mão e conduz para Deus”.

Prosseguindo, o prelado explicou que “é esta mesma Presença divina que, saída do Presépio de Belém, chega hoje até nós, com o mesmo fulgor, com a mesma beleza daquela noite primeira, daquele momento “zero” da história da humanidade”.

“É esta Presença que hoje aqui acolhemos, nesta Catedral funchalense, e de que somos testemunhas uns para os outros — verdadeiros anjos que, com suas palavras e com suas vidas, assumem também a missão divina de contar, de proclamar a glória de Deus e de construir a paz, oferecida aos homens capazes de acolher o seu amor”, concluiu.

Tão participada como noutros tempos, esta Eucaristia foi animada liturgicamente pelo coro ‘Solidéu’ e amigos. No final da mesma, D. Nuno deixou uma saudação e votos de um Santo Natal em diversos idiomas àqueles que nos visitam e desejou “que verdadeiramente o Senhor nos abençoe e que todos nós sejamos uma bênção para o mundo”. 

Leia na íntegra a homilia do bispo diocesano:

 NATAL DO SENHOR
Missa da Meia-Noite
Sé do Funchal, 24 de dezembro 2022

“Rejubilam na vossa presença”

O Anjo do Senhor aproximou-se deles, e a glória do Senhor cercou-os de luz” (Lc 2,9).

Velando pelo rebanho, desprezados e marginais a toda a sociedade; sem tecto ou abrigo onde passar a noite, os pastores de Belém dão corpo e presença aos “herdeiros” de David — também ele um guardador de rebanhos e, depois, rei de Judá a quem fora prometida a vinda do Messias (cf. 1Sam 16,11; 2Sam 7,14).

Foi àqueles pobres pastores que viviam nos campos, fora da cidade — longe daquela cidade de coração endurecido, incapaz de acolher Deus e de albergar a família de Nazaré — foi a eles — talvez os únicos pobres disponíveis para, naquela noite, acolher semelhante notícia — foi a eles que o Anjo foi enviado para anunciar o Evangelho: “Nasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador, que é Cristo Senhor” (Lc 2,11).

Dum modo silencioso e imprevisível, tinha — por fim! — chegado o tempo escolhido por Deus para cumprir aquilo que, séculos antes, fora anunciado por Miqueias: “E tu, Belém-Efrata, pequena entre as cidades de Judá, de ti sairá aquele que há-de governar Israel. […] Ele se erguerá e apascentará o rebanho pela força do Senhor, com a majestade do nome do seu Deus” (Miq 5,1.3).

O tempo da preparação fora preenchido. O Messias, o Cristo prometido por Deus e esperado como Salvador, tinha nascido e manifestava-se. Nesse momento, a história de toda a humanidade recebeu finalmente o seu centro, aquele ponto único (preparado e esperado desde o princípio), capaz de lhe oferecer o sentido, o porquê do seu caminho e existência.

O Messias manifestava-se com toda a sua glória e, ao mesmo tempo, em toda a fragilidade do “Filho do Homem”: aquela fragilidade que não se impõe mas sempre propõe; aquela fragilidade que se apresenta à liberdade de todos, sem mais argumentos que não o próprio ser; aquela fragilidade de quem quer necessitar do outro, do seu acolhimento e do seu amor, do seu cuidado; aquela fragilidade que apenas o pobres são capazes de entender. No Menino do Presépio, no Menino recém-nascido, envolto em panos e deitado na manjedoira, manifestava-se o Messias.

Não espanta pois, que, no momento em que o Anjo evangelizou os pastores de Belém (quer dizer: o momento em que lhes comunicou a feliz notícia e eles encontraram o Salvador), não espanta que, nesse momento, a glória de Deus se tenha manifestado, e a noite se tenha transformado em dia. Os pastores escutaram a boa notícia, e tudo à sua volta se transformou. Tudo foi inundado da glória de Deus — a natureza que os rodeava e o íntimo do seu coração.

A “glória de Deus” é a expressão usada na Sagrada Escritura para falar daqueles momentos em que a Presença divina se mostra ao ser humano na sua majestade, peso, perfeição, bondade, santidade e beleza — mas também na fragilidade de quem se expõe e arrisca o acolhimento da liberdade humana.

Naquela noite, Deus manifestou a Sua glória àqueles pobres pastores, tornando luminosa a sua existência e envolvendo-os completamente (S. Lucas diz: “A glória do Senhor cercou-os de luz”).

Ao mesmo tempo, aquilo que era inicialmente uma percepção apenas visual (luz que tudo torna inteligível, compreensível), tornou-se também uma percepção audível, musical, sinfónica. S. Lucas diz: “Juntou-se ao Anjo uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus, dizendo: Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados”.

O ver e o ouvir, tudo se conjugava harmoniosamente e se tornava veículo para conduzir ao encontro da Presença de Deus. É o que sucede quando Céu e Terra se unem num ponto de singular coincidência: Deus e o Homem unidos na fragilidade dum recém-nascido; a glória de Deus que se manifesta na pequenez e humildade duma criança; e, ao mesmo tempo, o homem que é elevado a lugar de epifania divina.

É esta Presença de Deus que, a partir desse momento, passará a iluminar toda a história, toda a humanidade, em todos os tempos. É esta Presença que passará a animar toda a urgente procura humana pelo sentido da existência: “Vamos já a Belém — dizem os pastores uns aos outros — e vejamos o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer. Foram às pressas e encontraram Maria, José e o Menino deitado na manjedoura” (Lc 2,15-16).

Algo de muito semelhante sucederá com os Magos, no dizer do evangelho de S. Mateus: “E eis que a estrela, que tinham visto no oriente, avançava à sua frente, até que, ao chegar, parou sobre o lugar onde estava o Menino. Ao ver a estrela, sentiram uma alegria imensa. Entrando na casa, viram o Menino com Maria, sua mãe, e, caindo por terra, adoraram-no” (Mt 2,9-11).

E o evangelho de S. João narra como, mais tarde, André e outro discípulo, depois de escutarem o Baptista, seguiram Jesus que os interrogou: “Que procurais?” “Rabbi, onde moras?”, responderam. Disse-lhes: “Vinde e vede”. “Então, eles foram e viram onde morava, e permaneceram com Ele naquele dia”. “Encontrámos o Messias” — dirá depois André a seu irmão Simão. E, ainda, Filipe a Natanael: “Encontrámos aquele de quem escreveram Moisés e os Profetas: é Jesus de Nazaré” (cf. Jo 1,35-45).

Alguns anos depois, um ancião de aspecto venerável dirá a Justino, filósofo que procurava a verdade: “Reza para que, antes de mais, te sejam abertas as portas da luz”. E Justino recorda: “Pelo que me diz respeito, um fogo irrompeu naquele momento na minha alma, fui tomado pelo amor dos profetas e daqueles que são amigos de Cristo; reflectindo para comigo sobre os seus discursos, encontrei ser esta a única filosofia certa e salvadora” (Dial. Trif. 7,3.8,1).

E depois, tantos e tantos outros, ao escutarem o Evangelho (a mesma Boa Notícia anunciada naquela noite aos pastores), foram tomados pela mesma Presença divina e encontraram o mesmo Messias salvador: na presença escondida de um pobre, na contemplação do mistério da cruz, na palavra ou na vida de tantos, ou em qualquer outro momento em que Deus fez com eles Natal — a glória do Natal!

Sabemos, nós que enchemos hoje as naves desta velha catedral (também ela testemunha natalícia no meio desta nossa cidade), que não terminaram nem o anúncio do Anjo, nem a procura humana pelo Salvador, nem a sua manifestação natalícia.

E também sabemos, por experiência própria, o que significa vigiar na noite do sofrimento e da incompreensão como os pastores de Belém; ou procurar por caminhos desconhecidos, guiados por um qualquer sinal, como os magos de terras longínquas; ou seguir discretamente os passos de Jesus, como os discípulos da primeira hora; ou indagar de qualquer outro modo pelo Salvador.

Mas sabemos, igualmente por experiência própria, a felicidade suprema de ter, um dia na nossa vida, encontrado o Menino, assim como Ele sempre se manifesta: pequeno, frágil, deitado na manjedoira, com sua Mãe; a felicidade suprema de perceber interiormente: “Encontrámos o Messias”.

Hoje, somos nós, que envolvidos pela Presença de Deus nesta noite santa de Natal, nos vemos cercados pela luz da glória de Deus, missionários e construtores da paz entre os homens. Somos nós que vemos e escutamos a sinfonia do louvor divino — a glória presente no amor dos irmãos, presente na vida quotidiana da Igreja, presente no bem que se faz por esse mundo fora, presente quando alguém estende a mão e conduz para Deus.

É esta mesma Presença divina que, saída do Presépio de Belém, chega hoje até nós, com o mesmo fulgor, com a mesma beleza daquela noite primeira, daquele momento “zero” da história da humanidade.

É esta Presença que hoje aqui acolhemos, nesta Catedral funchalense, e de que somos testemunhas uns para os outros — verdadeiros anjos que, com suas palavras e com suas vidas, assumem também a missão divina de contar, de proclamar a glória de Deus e de construir a paz, oferecida aos homens capazes de acolher o seu amor.