Missa de Natal: D. Tolentino lembra que o tesouro maior de uma sociedade é a pessoa humana

De acordo com o Cardeal é “o próprio Menino do presépio que nos dá a medida do humano” e que “no presépio cada homem e cada mulher passa a valer mais”.

Foto: Duarte Gomes

O Cardeal madeirense, D. Tolentino Mendonça presidiu na manhã deste domingo, dia 25 de Dezembro, à Missa de Natal na Sé Funchal.

Antes do inicio da celebração, o colaborador do Papa Francisco falou aos jornalistas para lembrar que “o Menino nasce para nos ajudar a renascer e a encontrar um sentido para o nossa própria vida”.

Acrescentou ainda que “o nascimento do Menino Jesus é um investimento de confiança na construção de um mundo mais justo e mais humano”.

Já o bispo do Funchal, D. Nuno Brás, no acolhimento ao cardeal, agradeceu a sua presença e enalteceu o facto de nunca esquecer a ilha onde se fez sacerdote.

Na homilia, que teve tanto de belo como de direto e verdadeiro, o responsável pelo Dicastério para a Cultura e a Educação, do Vaticano, falou da importância da vida humana, neste tempo de “indecisão antropológica” e de “tantas crises”, em que a maior talvez seja “qual é o valor dessa mesma vida”.

A medida do que é humano

Depois de referir que “o Menino do presépio dá-nos a medida do humano” vincou que “no presépio cada homem e cada mulher passa a valer mais, porque no presépio ganhamos a consciência daquilo que somos, ganhamos a certeza deste amor de Deus que nos acompanha”.

No entanto, esclareceu, “nas nossas sociedades há uma certa hesitação e um certo pessimismo em relação à pessoa humana. Achamos que o ser humano vale pouco, que uma vida não tem assim tanto valor, sobretudo quando é uma vida que não produz, é mais frágil, mais vulnerável”. Nestes casos, prosseguiu, “achamos que até podemos descartá-la”.

Um valor sagrado

Mas na verdade, explicou logo de seguida, “o Natal do Senhor compromete-nos a todos a sermos testemunhas e construtores de uma cultura onde uma pessoa, desde a sua concepção até à sua morte natural possa valer, tenha de facto um valor sagrado que nada possa superar”.

A propósito, D. Tolentino Mendonça. afirmou mesmo que “a vida é o grande dom”, lembrando que “é a partir dela que surge tudo, todas as culturas, todo o progresso, toda a tecnologia”.

É por isso, defendeu o colaborador do Papa, que não podemos “descartar” ninguém, mas antes “acolher”. De resto, se assim não for, “facilmente nos desumanizamos”.

É aí, acrescentou, que “começamos a pensar que não podemos manter a vida das pessoas idosas ou doentes até o fim, não podemos tomar a nosso encargo os mais pobres, não podemos acolher os estrangeiros e os migrantes”.

Numa época da história em que atingimos patamares de desenvolvimento tão grandes, parece impossível que “nós possamos recuar em relação ao cuidado do humano, que o nosso coração se feche e não perceba que o tesouro maior de uma sociedade é a pessoa humana”. E não somente aquela que “pode contribuir com a sua saúde, o seu trabalho para o desenvolvimento dessa sociedade”, mas todos sem exceção.

De resto, frisou, “é quando temos de acompanhar alguém na doença, na velhice que temos oportunidade de renascer, de perceber coisas da vida que de outra forma não perceberíamos”.

Falta-nos perceber que temos de fazer tudo isto “juntos”. É por isso que “o presépio de Jesus desafia-nos, como sociedade a vivermos com maior coesão”, a deixar de sermos “uma sociedade de surdos”, em que só as minhas ideias e opiniões contam, para passarmos a ser “uma sociedade em que tenhamos uma sã curiosidade pelos outros uma sã abertura uns aos outros, em que nos escutemos, em que valorizemos as diferenças e sejamos capazes de fazer, como diz o Papa Francisco, o artesanato da paz”.

Capazes de fazer presépio

Disso depende que “tenhamos sociedades coesas, que não deixem ninguém para trás”, que “partam de onde a vida vale mais, para podermos juntos uns dos outros podermos confirmar vida”.

“O mundo precisa que quem acredita se torne terapeuta, porque nós temos de ser terapeutas das almas uns dos outros”, especialmente aqueles que acham que “já não são capazes, de ter uma segunda oportunidade e decidem pôr fim à sua história”, frisou o cardeal.

De resto, explicou, “o menino é frágil para nos lembrar que todos somos frágeis, que todos precisamos de uma palavra de consolo, de esperança, de ajuda e cuidado”.

“Quando temos esta consciência somos capazes de fazer presépio, somos capazes de ajudar um homem e uma mulher a renascer, somos capazes de tomar Jesus como medida do homem novo”, constatou.

D. Tolentino Mendonça disse ainda aos muitos fiéis que enchiam a Sé, entre os quais representantes de autoridades civis e militares, que “nós não vamos daqui de mãos vazias porque Jesus dá-nos um presente e esse presente é o verbo nascer”. E os cristãos, acrescentou, “têm de se tornar mestres, especialistas deste verbo, um ato que nós realizamos e conjugamos ao longo da vida”.

“Que o Menino do presépio olhe, com aquela ternura sem fim, para cada um de nós” e que nós sejamos capazes de ser “embaixadores desta alegria” do seu nascimento “junto das nossas famílias dos nossos amigos, da nossa cidade, dos lugares que habitamos”.

Terminada a Eucaristia, que voltou a ser solenizada pelo Coro Solidéu e amigos, várias foram as pessoas que quiseram saudar o Cardeal.