Raquel Silva em conferência: “Justiça Social” é missão de todos nós e não apenas dos governos ou da Igreja

Foto: Duarte Gomes

Teve lugar na Capela do Bom Jesus, ao fim da tarde de segunda-feira, dia 15 de novembro, uma conferência com o tema “Justiça Social” integrada no V Dia Mundial dos Pobres.

A oradora foi Raquel João Martins Silva que, em declarações prestadas ao Jornal da Madeira antes do início da dita conferência, considerou “desafiante” este tema da justiça social, por várias razões. A primeira, explicou, “é porque todos nós temos uma opinião sobre o que é a justiça sociale o problema é como é que nós conseguimos alcançá-la”. 

Citando Jesus quando este dizia «sempre tereis pobres entre vós”, Raquel Silva frisou que nessa altura “Ele já sabia que isto ia ser debatido por muitos anos”. 

A verdade é que este “é um trabalho inacabado” e que, no entender da nossa interlocutora “implica o esforço de todos nós, não só das instituições e dos governos, mas de todos nós, no nosso dia a dia, na disponibilidade para com o próximo e na capacidade de olhar para o outro e atendê-lo nas suas necessidades”. ´

Na verdade, há pequenos gestos que podem contribuir para essa justiça social, que não nos custam nada, em termos financeiros, mas que de facto podem fazer a diferença e a tal justiça na vida do outro. Raquel Silva dá como exemplo o “nos sentarmos à frente de uma pessoa e ouvirmos o que ela tem para nos dizer, um sorriso, um abraço [agora dificultados por causa da pandemia], um amparo, uma palavra de estima”. É “com estes pequenos comportamentos, que estão ao alcance de todos nós, que às vezes conseguimos salvar pessoas de situações dramáticas e angustiantes”.

O problema está na “dificuldade que às vezes temos em perder tempo com o próximo” e foi isso que Raquel Silva procurou abordar depois durante a sua conferência. “Nós costumamos achar que só temos direitos, os deveres sociais, esses, são responsabilidade dos que nos governam, quer dizer, temos muita facilidade em delegar as nossas obrigações nos outros e esperar dos outros comportamentos perfeitos, aqueles que nós nem sempre temos”, frisou. É por isso que defende que, no que toca à justiça social, “nós podemos ajudar as instituições e os governos a melhorar o mundo se fizermos os tais pequenos gestos e olhar para o lado, para o nosso vizinho, o nosso colega a nossa família e lhe dar um pouco de atenção”. 

A maioria de nós, garante a nossa interlocutora, “está capacitada para agir, então nós temos todas as ferramentas para podermos cuidar do próximo, do nosso irmão, do nosso semelhante”.

Quanto à Igreja, “ela tem na sua base Aquele que representa todos os pobres que é Jesus e Ele quando passou por cá foi extraordinário no acolhimento que fez aos mais vulneráveis, aos mais desfavorecidos, portanto a Igreja tem, na sua matriz, essa existência Social e por isso é natural que a Igreja olhe para os mais desfavorecidos e os mais vulneráveis com naturalidade e ajude com naturalidade naquilo que são as necessidades dessas pessoas”. 

Relativamente à Cáritas, e ao trabalho que esta tem desenvolvido especialmente neste tempo de pandemia, Raquel Silva começa por referir que “a pandemia veio mostrar a nossa real fragilidade em todas as dimensões, é algo que não controlamos e que nos leva a todos a sofrer de alguma maneira, nesta altura a Cáritas foi fundamental na sua capacidade de agir, também porque já está há muito tempo nesta área e depois porque conseguiu encontrar respostas sociais rápidas para as novas realidades que surgiram com a pandemia, o que é louvável”.

A terminar a conversa e questionada sobre se o pior ainda não estará para vir, Raquel Silva disse ao nosso Jornal que nunca consegue ver o copo meio vazio. Assim sendo, “tenho muita esperança no ser humano e na capacidade que nós temos para criar mecanismos de recuperação e de interajuda”.

Um murro no estômago

Durante a conferência a oradora falou de forma muito pessoal sobre o tema, tendo o público que assistiu manifestado, em tempo próprio a sua concordância com muitas das afirmações e experiências vividas e partilhadas por Raquel Silva.

No final do evento, organizado peloSecretariado Diocesano da Acção Social e que contou com as presenças do Bispo do Funchal, do Presidente da Assembleia Legislativa da Madeira e do Secretário Regional dos Equipamentos e Infraestruturas, D. Nuno Brás usou da palavra para frisar que “temos de ser otimistas” e reconhecer que “já foram dados muitos passos, positivos e importantes” nesta área.

Mas, acrescentou o prelado “o pobre não pode deixar de ser uma interrogação” nós “não podemos ficar satisfeitos nem descansados, porque aquele pobre que ali está ao meu lado não pode deixar de ser uma grande interrogação para todos nós”.

Depois de referir que o Dia Mundial dos Pobres, instituído pelo Papa Francisco, não é apenas para lembrar que os pobres existem, mas precisamente “para nos interrogar, para nos inquietar constantemente com toda esta problemática, mas sobretudo com aquele irmão que ali está”. 

Quanto à distinção que o papa faz entre o dar esmola e o partilhar D. Nuno disse que a encarou como “um murro no estômago”, frisando que ela “tem muito que se lhe diga”. Para começar “o dar esmola desculpa-nos, mas o pobre continua ali”, mas o partilhar a vida dos pobres é diferente. Implica “acolher o seu ensinamento, acolher aquilo que eles têm para nos dar”.

“Precisamos de perceber que não basta falar, precisamos verdadeiramente de cuidar”, concluiu D. Nuno Brás que fez questão de agradecer à oradora “não apenas pela conferência que fez, mas “por percebermos que naquilo que disse estava a sua vida, o seu testemunho pessoal que nos deixou muito mais enriquecidos e nos faz levar daqui a interrogação: como é que eu partilho a vida dos pobres, dos pobres tradicionais, mas também de todas esta novas formas de pobreza que estão ai a bater à nossa porta”.