D.  Nuno Brás desafiou cristãos a oferecerem-se ao Pai para a salvação do mundo

O bispo do Funchal presidiu, na Sé, a uma Eucaristia que marcou a despedida das relíquias de São Tiago Menor e o encerramento do Congresso das Confrarias do Santíssimo Sacramento.

Foto: Duarte Gomes

Celebrou-se na tarde de sábado, de 6 de Novembro, na Sé do Funchal uma Eucaristia que teve dois propósitos principais. Um deles foi o encerramento das Comemorações dos 500 Anos do Voto a São Tiago Menor, com a despedida das suas relíquias, e o outro o encerramento do Congresso das Confrarias do Santíssimo Sacramento que decorreu, durante toda a manhã, no Colégio de Santa Teresinha.

A Eucaristia foi presidida pelo bispo do Funchal que desafiou os fiéis a, como a viúva de que nos falava o Evangelho, oferecer tudo o que temos a Deus, incluindo a nossa vida porque “vida é o bem mais precioso que podemos alguma vez oferecer”. Nisso, frisou, “ ricos ou pobres, poderosos ou sem influência, estamos todos em pé de igualdade. Porque cada vida humana tem sempre o valor que o próprio Deus lhe dá: quer dizer, um valor infinito”.

O próprio Jesus, lembrou o prelado, “ofereceu tudo o que tinha: na cruz, Jesus não ofereceu nada ao Pai. Ofereceu-Se a Si mesmo. Como nos recordava a IIª Leitura: “ofereceu-Se uma só vez, para tomar sobre si os pecados da multidão” (Heb 9,27). E essa é a oferta perfeita, porque é oferta total”.

No seguimento de Jesus, acrescentou D. Nuno Brás, “também cada um de nós é convidado a oferecer-Se ao Pai para a salvação do mundo”. E a forma de o fazer, garantiu é simples: “trata-se de colocar Deus em tudo o que fazemos, em tudo o que somos”.

“Creio, irmãos que este é o grande desafio que hoje nos é colocado. E, de um modo muito particular, aos membros das Confrarias do Santíssimo desta nossa Ilha”. Estes precisam trabalhar no sentido de perceber o que têm para dar e o que podem fazer com os poucos recursos que têm, para além da festa anual.

Em primeiro lugar, disse, “podes dar-te a ti mesmo. Podes unir a tua vida à vida de Deus. Podes deixar que Deus esteja presente, que Ele partilhe tudo o que és (mesmo o teu pecado — para o transformar, para o converter)”. Essa presença de Deus, acrescentou, “constituía maior riqueza que um cristão pode oferecer a Deus e ao próprio mundo!”

De resto, disse D. Nuno Brás, “O grande problema do nosso mundo é que Deus está ausente dele. O grande problema do nosso mundo é que nós julgamos poder resolver tudo sem Deus, e que bastam a nossa sabedoria, o nosso engenho, as nossas artimanhas e a nossa esperteza! Todos querem viver a paz e o amor, no meio deste mundo de guerra e de confronto”.

Apesar de tudo isto, “Deus está presente no mundo de hoje se os cristãos o tornarem presente: Ele faz-se ouvir no mundo de hoje, se as palavras que os cristãos pronunciarem forem as palavras de Deus; faz-se ver no mundo de hoje, se os cristãos O mostrarem nas suas atitudes; faz-se sentir no mundo de hoje, se os cristãos não hesitarem em dar testemunho em seu favor”.

Essa é, garantiu, “a grande revolução da Eucaristia: Deus presente no mundo (na família, na escola, no trabalho, na política, nas associações, nos divertimentos, na festa e na alegria, nos sofrimentos e nas tristezas)… Quando Deus está presente e O percebemos e O vivemos assim, tudo à nossa volta muda; tudo se transforma. Porque tudo passa a ter a presença de Deus!”.

É possível ser santo.

Quanto às relíquias de São Tiago Menor, figura que “foi muitas vezes idealizada e, como a de tantos outros santos, apresentada de tal modo que quase nos parece impossível viver segundo o seu exemplo”, o que se passa é exatamente o contrário.

“Esta pequena porção do fémur de S. Tiago, pequeno osso, mortal e frágil, vem mostrar-nos, antes de mais, que os Apóstolos, os Santos, os Mártires eram (e são) homens e mulheres como nós: de carne e osso; frágeis; pecadores”.

Por isso, prosseguiu o prelado, “o primeiro e grande apelo que a relíquia de S. Tiago Menor nos faz é precisamente esse (que queremos permaneça no nosso coração): ainda hoje, 2 mil anos depois, ela diz-nos que é possível ser santo; é possível viver como santo; é possível ser presença de Deus neste nosso mundo e, assim, transformá-lo, torná-lo mais humano porque mais divino!”

D. Nuno Brás concluiu a sua intervenção fazendo votos de que “São Tiago Menor interceda por todos nós, e nos ajude a, ao longo de toda a nossa vida, em cada dia que passa, irmos adquirindo as feições interiores de Cristo, nosso Redentor, alimentados pela Eucaristia, tornados presença de Jesus neste nosso mundo, nesta nossa Ilha!”

Leia a homilía completa do bispo diocesano:

DESPEDIDA DAS RELÍQUIAS DE S. TIAGO MENOR
Catedral do Funchal, 6 de novembro de 2021
(XXXII DTC – B)

1. As leituras de hoje, próprias do XXXII Domingo do Tempo Comum (Ano B), colocam diante dos nossos olhos a pobre viúva que, no Templo de Jerusalém, deu “tudo o que tinha”. E que, por isso, “deu mais que todos os outros”.

Os ricos davam quantias avultadas, mas que não lhes faziam falta: davam do que lhes sobrava; a pobre viúva, oferecendo duas das mais pequenas moedas de cobre a circular no império romano da altura (equivalentes às nossas moedas de cêntimo), deu não apenas o que lhe faltava, mas tudo o que tinha para viver. 

Aos olhos dos homens, o valor do que é oferecido tem a ver com aquilo que se pode comprar com esse dinheiro. Aos olhos de Deus, o valor da oferta tem a ver com a dádiva da própria pessoa. A Deus não interessam dinheiro, ouro ou prata; a Deus interessa-Lhe o nosso coração, a nossa vida.

Aquela pobre viúva deu tudo. E, ao dar tudo quanto possuía, deu-se a si mesma. Ofereceu a Deus a sua vida. E a vida é o bem mais precioso que podemos alguma vez oferecer. Nisso, ricos ou pobres, poderosos ou sem influência, estamos todos em pé de igualdade. Porque cada vida humana tem sempre o valor que o próprio Deus lhe dá: quer dizer, um valor infinito.

Jesus viveu assim a sua vida na terra e, de um modo especial, a sua morte. Também Ele foi pobre (“Ele que era rico, tornou-se pobre, para nos enriquecer com a sua pobreza”, diz S. Paulo — 2Cor, 8,9). Também Ele ofereceu tudo o que tinha: na cruz, Jesus não ofereceu nada ao Pai. Ofereceu-Se a Si mesmo. Como nos recordava a IIª Leitura: “ofereceu-Se uma só vez, para tomar sobre si os pecados da multidão” (Heb 9,27). E essa é a oferta perfeita, porque é oferta total.

No seguimento de Jesus, também cada um de nós é convidado a oferecer-Se ao Pai para a salvação do mundo. Que significa isso? Como é que cada um de nós se poderá oferecer para, em Jesus, poder salvar o mundo?

A forma de o fazer é simples: trata-se de colocar Deus em tudo o que fazemos, em tudo o que somos. Muitas vezes, a Deus oferecemos apenas  coisas: uma moeda, ou uma hora por semana, a hora da nossa participação na Missa. Deus aceita, sem dúvida, essa oferta, tanto mais quanto for a expressão de uma vida. Mas pede-nos, sobretudo, que O deixemos partilhar todo o nosso dia, todos os nossos momentos. Pede que O coloquemos em tudo o que fazemos e somos: este é o modo de nos entregarmos; de oferecermos tudo.

Podemos julgar que a nossa vida tem pouco interesse; que é, simplesmente, uma vida comum, igual à de todos: sem pensamentos profundos; sem atitudes originais; sem gestos admiráveis. Mas precisamente: as duas moedas, os dois cêntimos que a viúva ofereceu, que valiam, em comparação com o valor monetário das ofertas dos ricos? E, no entanto, o Senhor diz sem hesitações: “Esta pobre viúva deitou na caixa mais que todos os outros”.

2. Creio, irmãos que este é o grande desafio que hoje nos é colocado. E, de um modo muito particular, aos membros das Confrarias do Santíssimo desta nossa Ilha. Que temos para dar? Que podem os membros das Confrarias do Santíssimo fazer com os poucos recursos que têm, para além da festa anual? Podes dar-te a ti mesmo. Podes unir a tua vida à vida de Deus. Podes deixar que Deus esteja presente, que Ele partilhe tudo o que és (mesmo o teu pecado — para o transformar, para o converter). E essa presença de Deus constitui — não tenhas dúvidas disso! — a maior riqueza que um cristão pode oferecer a Deus e ao próprio mundo! 

O grande problema do nosso mundo é que Deus está ausente dele. O grande problema do nosso mundo é que nós julgamos poder resolver tudo sem Deus, e que bastam a nossa sabedoria, o nosso engenho, as nossas artimanhas e a nossa esperteza!

Todos querem viver a paz e o amor, no meio deste mundo de guerra e de confronto: mas como pensamos construir um mundo de paz e de amor, senão com Deus que é o amor? Todos procuram viver bem a sua vida, em saúde e junto da sua família e dos seus amigos: mas como podemos viver a vida, a não ser unidos à fonte da vida que é Deus? Todos querem ser felizes; procuramos a felicidade — nem precisamos de grandes riquezas, apenas o necessário para viver em paz e tranquilidade: mas como queremos ser felizes, a não ser com Deus que é a vida feliz e eterna?

E como é que Deus pode estar assim, no mundo, a construir o amor, a vida, a felicidade para todos? Deus está presente no mundo de hoje se os cristãos o tornarem presente: Ele faz-se ouvir no mundo de hoje, se as palavras que os cristãos pronunciarem forem as palavras de Deus; faz-se ver no mundo de hoje, se os cristãos O mostrarem nas suas atitudes; faz-se sentir no mundo de hoje, se os cristãos não hesitarem em dar testemunho em seu favor.

O milagre da Eucaristia não é apenas (e como seria já grande!) a possibilidade de ver a Deus, percebê-lo presente, hoje, connosco. O milagre da Eucaristia é bem maior: é o facto de ela nos transformar, a cada um de nós, em presença de Deus! Membros do corpo de Cristo! Pequeno grão de trigo, quase invisível e insignificante, mas que recebe todo o seu valor do Pão que é Cristo, e que, desse modo, se torna presença, anúncio, alimento de um novo modo de viver.

Essa é a grande revolução da Eucaristia: Deus presente no mundo (na família, na escola, no trabalho, na política, nas associações, nos divertimentos, na festa e na alegria, nos sofrimentos e nas tristezas)… Quando Deus está presente e O percebemos e O vivemos assim, tudo à nossa volta muda; tudo se transforma. Porque tudo passa a ter a presença de Deus! 

3. Despedimo-nos hoje da relíquia de S. Tiago Menor que, por autorização do Santo Padre, deixou a sua “casa” em Roma para peregrinar pelos nossos arciprestados, paróquias, comunidades, pela nossa Diocese.

Há 500 anos, os nossos antepassados confiaram-se nas mãos do Apóstolo mártir, Irmão do Senhor, primeiro Bispo de Jerusalém, conhecido entre os seus com o cognome de “o Justo”. A figura de S. Tiago Menor foi muitas vezes idealizada e, como a de tantos outros santos, apresentada de tal modo que quase nos parece impossível viver segundo o seu exemplo.

Esta pequena porção do fémur de S. Tiago, pequeno osso, mortal e frágil, vem mostrar-nos, antes de mais, que os Apóstolos, os Santos, os Mártires eram (e são) homens e mulheres como nós: de carne e osso; frágeis; pecadores. 

Podemos dizer: como as duas pequenas moedas da viúva — insignificantes aos olhos do mundo, dos ricos e poderosos. E sabemos como os santos que, porventura, nasceram em berço de oiro, ou foram sábios ou poderosos tudo isso entregaram no serviço de Deus e dos irmãos. Que o mesmo é dizer: tornaram-se pobres, deram-se, entregaram-se totalmente. Deram tudo o que tinham: deram-se a si mesmos, como Cristo. 

Por isso, o primeiro e grande apelo que a relíquia de S. Tiago Menor nos faz é precisamente esse (que queremos permaneça no nosso coração): ainda hoje, 2 mil anos depois, ela diz-nos que é possível ser santo; é possível viver como santo; é possível ser presença de Deus neste nosso mundo e, assim, transformá-lo, torná-lo mais humano porque mais divino!

Que S. Tiago Menor interceda por todos nós, e nos ajude a, ao longo de toda a nossa vida, em cada dia que passa, irmos adquirindo as feições interiores de Cristo, nosso Redentor, alimentados pela Eucaristia, tornados presença de Jesus neste nosso mundo, nesta nossa Ilha!