O padre Hélder Gonçalves, pároco de Gaula e Lombada, lançou no ano passado um inquérito às Confrarias do Santíssimo Sacramento presentes na Diocese do Funchal como forma de preparação para a realização do Congresso das Confrarias que se vai realizar amanhã, 6 de novembro no Colégio de Santa Teresinha.
O Jornal da Madeira falou com este sacerdote sobre esse estudo que apresenta um retrato atual da situação destas confrarias na Diocese do Funchal, concluindo que “há um trabalho imenso a fazer no sentido de renovação, animação e compromisso nas confrarias”.
Como surgiu este inquérito ás confrarias do Santíssimo Sacramento da Diocese do Funchal?
Padre Helder – Quando me foi pedido para preparar o Congresso das Confrarias do Santíssimo Sacramento, eu considerei importante fazer este inquérito e haver um estudo que depois possa ser trabalhado dentro dos arciprestados. Neste momento vejo que muitas confrarias só têm um objetivo: preparar a festa do Santíssimo Sacramento, e mais nada. É preciso mais. Eu admiro e aplaudo as iniciativas das confrarias de algumas paróquias que todos os meses se reúnem para fazer adoração ao Santíssimo.
Todas as confrarias responderam ao inquérito?
Padre Helder – De acordo com o número de paróquias da Diocese do Funchal, a taxa de respostas ao questionário foi de 52%. Não sabemos muito bem porque é que cerca de metade das confrarias não entregou as respostas. Uma das razões passa por talvez as confrarias não estarem canonicamente formadas. Depois tem a questão de talvez não haver um líder, ou alguém que realizasse este conjunto de respostas. Algumas, por não estarem formadas, podem mesmo já ter sido extintas, ou talvez não funcionam, ou só funcionam para a festa do Santíssimo Sacramento e mais nada. É a conclusão que podemos tirar deste relatório. É de realçar que mais de metade das confrarias responderam ao inquérito. Considero uma boa amostra, embora penso que poderia ser um pouco melhor. Tudo foi feito para que o questionário chegasse a todas as paróquias. Em primeiro lugar foi realizado um contacto com todos os arciprestes, onde facultei todas as informações, depois foi feito o esforço para que os párocos entregassem o inquérito aos responsáveis das confrarias do Santíssimo Sacramento.
Uma das questões apresentadas às confrarias é se tinham os estatutos e a direção aprovados pela diocese …
Padre Hélder – Sim, os resultados demonstram que 36% das confrarias não têm estatutos aprovados pela diocese. Os estatutos exigem o cumprimento de determinadas regras. Por exemplo, a direção de uma confraria envolve muitas pessoas. Nem todas as confrarias conseguem encontrar pessoas para assumirem essas responsabilidades e formarem uma direção. Quase metade das confrarias que responderam ao inquérito, 46%, não têm a direção aprovada pela diocese. Pode ser um desleixo ou também desconhecimento. Penso que deveria haver um orgão na diocese que pudesse fazer um acompanhamento às confrarias, que pudesse auxiliar os membros das confrarias. Quantas vezes ao chegar a altura para fazer eleições, a data vai sendo adiada de ano para ano? Ou ouvimos “Não é preciso! Ficamos na mesma”. É importante chamar à responsabilidade e ao compromisso daqueles irmãos que assumem a liderança deste movimento de igreja tão importante. Não podemos esquecer que as confrarias ajudam a pastoral da própria paróquia. Ajudam o pároco e à comunidade em todos os sentidos. Há uma paróquia onde os irmãos expõem o santíssimo e fazem um momento de adoração, na ausência do pároco. A maior parte das confrarias do Santíssimo Sacramento têm ministros extraordinários da comunhão. A acção das confrarias também passa por aí, pela disponibilidade. Não pensar que o pároco tem de fazer tudo. Aqui também entra o tema da sinodalidade.
“A abrangência da confraria do Santíssimo Sacramento é mais espiritual do que organizativa”
Na sua opinião, há um problema de identidade nas confrarias do Santíssimo Sacramento?
Padre Hélder – Penso que as confrarias estão a perder a sua marca e as suas características. Porque é que existem confrarias do Santíssimo Sacramento? Qual é o objetivo? É criar na paróquia a dinâmica de oração, de adoração, de acompanhamento, de vivência do mistério do Sacramento da Eucaristia. As confrarias perderam esta marca. As confrarias reúnem-se para fazer a festa do Santíssimo Sacramento, para convidar cantores e grupos folclóricos para a festa. Isto faz parte, naturalmente, da organização da festa, mas a confraria não existe só para isto. A abrangência é muito maior. A abrangência da confraria do Santíssimo Sacramento é mais espiritual do que organizativa. É isto que nós retiramos da conclusão deste inquérito.
A nível da composição dos membros das Confrarias, qual a conclusão que surgiu no inquérito?
Padre Hélder – Concluímos que temos a maior parte das confrarias envelhecidas. 66% dos membros têm 61 ou mais anos de idade. Significa que não estão a entrar membros novos, porquê? Sabemos que o contexto social que estamos a viver não ajuda. A juventude de hoje tem outras visões e depois penso que também tem a ver com uma certa mentalidade de que somos donos da confraria e não deixamos ninguém entrar. Criamos um grupo fechado, o que torna difícil a renovação dos próprios membros. É preciso chamar a atenção porque acho que a vivência espiritual do mistério da Eucaristia, alimenta e faz com que a missão de cada um deles seja ser testemunho e que o outro olhe para mim como testemunho. Que o outro veja que “vale a pena pertencer à confraria do Santíssimo Sacramento, é uma honra”. Por vezes não é isso que passa. Há um decréscimo muito grande de novos membros nas confrarias.

Como é que as confrarias podem atrair novos membros?
As gerações mais novas não percebem muito bem o contributo das confrarias para a própria vivência de fé. Por não haver espiritualidade, por não haver formação, não cativa. Se houvesse um espírito de grupo, um espírito comunitário, um espirito fraterno, naturalmente, quem vê, cativa. Muitos dos irmãos que pertencem à confraria do Santíssimo Sacramento, só aparecem para o dia da festa, no Natal, na Páscoa… A nível comunitário é muito pouco. Tem que haver formação para poder explicar às gerações mais novas o papel de uma confraria numa paróquia. Uma das coisas que vejo neste relatório é a falta de formação espiritual. 60% das confrarias faz uma ou duas reuniões por ano. É muito pouco para a essência daquilo que é a confraria. É importante haver mais formação para estes membros. A partir daí é possível fazer um caminho que possa cativar as novas gerações. Ainda bem que vamos realizar este congresso. É preciso uma reflexão e uma chamada de atenção pela diocese, pelos párocos, pelos responsáveis das confrarias para se centrem no essencial e no seu papel, que no caso das confrarias está desvirtuado. Há um trabalho imenso a fazer no sentido de renovação, animação e compromisso nas confrarias.
“pertencer à confraria do Santíssimo Sacramento é um dom, é uma graça, é uma benção”
Que dados positivos surgiram no relatório sobre as confrarias?
Padre Hélder – O empenho nas paróquias é o dado mais positivo. Muitos irmãos das confrarias estão comprometidos na pastoral da paróquia, colaboram com o pároco, em todos os sentidos, desde os movimentos, catequese, leitores, ministros extraordinários da comunhão, os coros. Eles continuam a responsabilizar-se e a se comprometerem com a igreja nesse sentido.
O que espera do Congresso das Confrarias do Santíssimo Sacramento?
Padre Hélder – Este congresso poderá ajudar numa coisa. Em primeiro lugar ajuda a reavivar e a reanimar as confrarias. Elas não são organizadores de eventos. Depois poderá ajudar a clarificar a dimensão essencial das confrarias que é a promoção da vivência, do culto e adoração ao Santíssimo Sacramento. Finalmente o congresso traz também o testemunho, não só a nível histórico, daquilo que foram as confrarias ao longo da história da diocese, mas também o testemunho pessoal, o que a confraria faz na vida de cada pessoa. Cada irmão é convidado a perceber que não faz caminho sozinho, mas em comunidade.
Que propostas para o futuro?
Padre Hélder – Realmente, não podemos ficar por aqui. Senão será mais do mesmo. Acho que devia haver uma estrutura diocesana de acompanhamento, de proximidade com os párocos e com as confrarias de cada paróquia. Tentar perceber o que se passa em 48% das paróquias. Não sei como é que estão. Não podemos deixar ninguém para trás. As Confrarias do Santíssimo Sacramento são das confrarias mais importantes da nossa diocese. Foi este o legado que nos foi deixado como relíquias espirituais. Somos as Ilhas do Santíssimo Sacramento. Devemos também criar iniciativas dentro da própria paróquia e valorizar o aspeto da formação espiritual. Fazer passar a mensagem que pertencer à confraria do Santíssimo Sacramento é um dom, é uma graça, é uma benção.
“Pertencer à confraria do Santíssimo é um dom, é uma graça, é uma benção”





















