Fiéis Defuntos: D. Nuno Brás diz que todo aquele que se alimentar da Eucaristia se alimenta já da vida eterna 

O modo como olhamos, como vivemos e como servimos e ajudamos o próximo é o grande tesouro que podemos levar connosco, disse ainda o prelado.

Fotos: Duarte Gomes

D. Nuno Brás presidiu na tarde desta terça-feira, dia 2 de novembro, a uma Eucaristia no Cemitério de São Martinho por todos os Fiéis Defuntos.

Na homilia desta celebração, D. Nuno Brás começou por se interrogar e à assembleia, sobre se “deste mundo, desta nossa vida, seremos capazes de levar connosco alguma coisa”. 

E apesar de parecer que “estamos condenados a perder todos os nossos esforços, todas as nossas conquistas, incapazes que somos de as levar connosco, e incapazes de garantir que perdurem”, a verdade é que “a fé, diz-nos o contrário”. “Diz-nos que nem tudo perdemos, e diz-nos ainda que a nossa comunidade de vida não é apenas com aqueles que connosco partilham deste mundo, mas também com todos os que vivem em Cristo”, frisou.

É certo que, “o dinheiro não nos acompanhará; as casas, os carros, o poder que temos e tudo o mais que pertence a este mundo, nada disso nos acompanhará”. Porém, “o modo como o fazemos, a finalidade com que vivemos, o amor em que existimos, isso sim, acompanhar-nos-á. Vai-nos transformando; vai abrindo (ou não) o nosso coração ao acolhimento à vida divina”. Vai, acrescentou, “preparando os nossos olhos para a visão de Deus. O modo como vivemos esta nossa vida (que o próprio Deus nos oferece) constitui uma boa parte desse tesouro próprio do céu.”

Desse tesouro, disse ainda o prelado, “faz também parte o modo como olhamos, como vivemos e como servimos e ajudamos o próximo”. Na verdade, “esse é o grande tesouro que podemos levar connosco. O cuidado do outro, sobretudo do mais fraco, do mais frágil; a ajuda desinteressada àquele que necessita; a palavra que damos e que ajuda o nosso próximo a ser mais; o testemunho da fé que o ajuda a dar sentido à sua existência: essa é a “grande fatia” do tesouro de cada um.”

Mas a fé convida-nos “a ir ainda mais longe”. Porque “a fé fala-nos de um acontecimento singular: fala-nos daquele acontecimento em que o próprio Deus entrou na história, se fez um de nós, e partilhou esta nossa vida frágil e passageira e, assim sendo, esta nossa vida limitada, finita, não pode deixar de se encontrar com momentos de eternidade”.

Os sacramentos, explicou ainda D. Nuno Brás, “são esses grandes momentos de eternidade que vivemos” e são “a grande riqueza da Igreja”.  “O batismo que nos torna filhos de Deus; a Eucaristia que nos alimenta; a vida no Espírito que nos faz testemunhas de Jesus na Igreja e no mundo; o perdão dos pecados que nos permite reviver o momento do batismo; o matrimónio ou a consagração total no serviço de Deus e do próximo; a unção com o óleo dos doentes, que dá novo vigor ao nosso existir… são, todos eles, esses momentos em que a eternidade de Deus toca o nosso tempo e a nossa fragilidade, para a transformar, a converter em vida eterna”.

O mesmo se diga, acrescentou, “da Palavra de Deus, quando é escutada e acolhida no coração. Deus vem até nós, entra na nossa história, na nossa vida, e enriquece-a com o tesouro imenso da Sua Vida!”

“São aqueles instantes em que Deus nos surpreende, em que o sublime nos sai ao encontro. E, deste modo, já aqui na terra, podemos viver o céu. Já aqui na terra nos são oferecidos momentos, instantes do céu. Também estes momentos constituem a nossa ‘bagagem’, o nosso ‘tesouro’ de eternidade”.

A Eucaristia, frisou ainda o prelado “é, de um modo muito especial, um desses momentos em que o céu toca a terra, a eternidade toca o tempo e lhe dá um novo sentido. Comungamos Deus. Deus torna-se a si mesmo o alimento da nossa existência.”

É por isso, explicou, que ao celebrar a Eucaristia, “fazemos memória de quantos já partiram. Porque aqueles que partiram, vivem em Cristo”.

E é por isso que, “em cada celebração da Eucaristia, não encontramos apenas os irmãos que connosco caminham nesta terra e vivem aqui a realidade da Igreja, corpo de Cristo; encontramos também os santos, que nos ajudam a louvar a Deus e intercedem por nós; e encontramos ainda todos aqueles que já partiram e que são nossos familiares, nossos amigos, nossos conhecidos, ou, simplesmente, partilharam connosco a vida da fé. Uma multidão imensa, que ninguém é capaz de contar, e que connosco louva o Senhor!”

Na Eucaristia, prosseguiu, “encontramos também aqueles que, deixando-se purificar por Deus, ainda caminham na direção da vida eterna, da vida plena e feliz com o Senhor. Na Eucaristia os encontramos. Na Eucaristia gozamos da sua companhia. Na Eucaristia, a santidade de Deus em nós torna-se para eles, enquanto membros do mesmo corpo, a ocasião de receberem os frutos da graça divina. E, assim, de facto, nem a morte nos separa dos amigos, dos familiares, dos conhecidos.”

“Alegremo-nos, pois, e celebremos a Eucaristia. Hoje, celebramo-la particularmente por quantos já partiram deste mundo e necessitam da nossa oração. Fazemo-lo com a certeza de que todo aquele que se alimentar da Eucaristia, de verdade se alimenta já da vida eterna, da vida de Deus connosco, da salvação”, concluiu.

Terminada a Eucaristia, houve a habitual oração no jazigo dos sacerdotes falecidos, bem como junto ao túmulo de D. Francisco Santana, antigo bispo da Diocese.

Leia na íntegra a homilia do bispo diocesano:

FIÉIS DEFUNTOS
CEMITÉRIO DE S. MARTINHO, 2 de novembro 2021

1. A morte parece uma derrota, o fim de tudo: o fim da vida humana e da nossa comunhão com aqueles que morreram. Por isso aqui, neste cemitério, não podemos deixar de nos interrogar: deste mundo, desta nossa vida, seremos capazes de levar connosco alguma coisa? A resposta imediata e irreflectida — a única resposta que tantos são capazes de dar — é aquela do Antigo Testamento: “saí nu do ventre de minha mãe, e nu para a terra voltarei: o Senhor deu, o Senhor tirou. Bendito seja o nome do Senhor”, dizia Job (Job 1,21).

Parece que estamos condenados a perder todos os nossos esforços, todas as nossas conquistas, incapazes que somos de as levar connosco, e incapazes de garantir que perdurem. Ficarão por cá, para que outros vivam com elas, as ignorem ou as destruam.

E a própria amizade, e os laços familiares, parecem chegar ao fim. Deles parece que permanecerão apenas as memórias que, sabemos por experiência, vão desaparecendo com o correr do tempo.

2. E no entanto, a fé diz-nos o contrário. Diz-nos que nem tudo perdemos, e diz-nos ainda que a nossa comunidade de vida não é apenas com aqueles que connosco partilham deste mundo, mas também com todos os que vivem em Cristo.

Como o próprio Jesus afirmou: “Não acumuleis para vós tesouros na terra, onde a traça e o caruncho os corroem, e onde os ladrões arrombam e roubam, mas juntai para vós tesouros no céu, onde nem a traça nem o caruncho corroem, e onde os ladrões não arrombam nem roubam; pois onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6,19-21).

O dinheiro não nos acompanhará; as casas, os carros, o poder que temos e tudo o mais que pertence a este mundo, nada disso nos acompanhará. Mas o modo como o fazemos, a finalidade com que vivemos, o amor em que existimos, isso sim, acompanhar-nos-á. Vai-nos transformando; vai abrindo (ou não) o nosso coração ao acolhimento à vida divina. Vai preparando os nossos olhos para a visão de Deus. O modo como vivemos esta nossa vida (que o próprio Deus nos oferece) constitui uma boa parte desse tesouro próprio do céu.

Mas desse tesouro faz também parte o modo como olhamos, como vivemos e como servimos e ajudamos o próximo. Esse é o grande tesouro que podemos levar connosco. O cuidado do outro, sobretudo do mais fraco, do mais frágil; a ajuda desinteressada àquele que necessita; a palavra que damos e que ajuda o nosso próximo a ser mais; o testemunho da fé que o ajuda a dar sentido à sua existência: essa é a “grande fatia” do tesouro de cada um. Com efeito, sabemos que, no entardecer da vida, seremos interrogados acerca do amor que tivemos e que vivemos para com o próximo (Mt 25).

Mas a fé convida-nos a ir ainda mais longe. Porque a fé fala-nos de um acontecimento singular: fala-nos daquele acontecimento em que o próprio Deus entrou na história, se fez um de nós, e partilhou esta nossa vida frágil e passageira. E, assim sendo, esta nossa vida limitada, finita, não pode deixar de se encontrar com momentos de eternidade. São aqueles momentos de Graça em que, vivendo ainda na terra, parece que tocamos Deus: o nascimento de uma criança, a morte de um amigo, a alegria de uma consagração total, a generosidade surpreendente de um estranho, a palavra que escutámos no momento certo… 

Mas, sobretudo, os sacramentos são esses grandes momentos de eternidade que vivemos e que são a grande riqueza da Igreja: o batismo que nos torna filhos de Deus; a Eucaristia que nos alimenta; a vida no Espírito que nos faz testemunhas de Jesus na Igreja e no mundo; o perdão dos pecados que nos permite reviver o momento do baptismo; o matrimónio ou a consagração total no serviço de Deus e do próximo; a unção com o óleo dos doentes, que dá novo vigor ao nosso existir… Os sacramentos são, todos eles, esses momentos em que a eternidade de Deus toca o nosso tempo e a nossa fragilidade, para a transformar, a converter em vida eterna. E o mesmo se diga também da Palavra de Deus, quando é escutada e acolhida no coração. Deus vem até nós, entra na nossa história, na nossa vida, e enriquece-a com o tesouro imenso da Sua Vida!

São os milagres quotidianos, que presenciamos e vivemos. Momentos em que a eternidade preenche o nosso coração, sacia a sede de vida e a nossa fome de eternidade, dando um novo sentido ao nosso viver. São aqueles instantes em que Deus nos surpreende, em que o sublime nos sai ao encontro. E, deste modo, já aqui na terra, podemos viver o céu. Já aqui na terra nos são oferecidos momentos, instantes do céu. Também estes momentos constituem a nossa “bagagem”, o nosso “tesouro” de eternidade.

3. O trecho do evangelho que escutámos sublinhava, particularmente, um desses momentos. Jesus dizia: “Este é o pão que desceu do Céu; não é como o dos vossos pais, que o comeram e morreram: quem comer deste pão viverá eternamente” (Jo 6,58).

A Eucaristia é, de um modo muito especial, um desses momentos em que o céu toca a terra, a eternidade toca o tempo e lhe dá um novo sentido. Comungamos Deus. Deus torna-se a si mesmo o alimento da nossa existência. Não espanta, pois, que em várias situações (Alexandrina de Balasar, beatificada por S. João Paulo II em 2004, é uma delas) a própria Eucaristia se tenha tornado, também, em alimento para o próprio corpo. A Eucaristia une-nos a Deus. A Eucaristia faz-nos um com Cristo e em Cristo. É semente de vida eterna que acolhemos.

É por isso que, ao celebrar a Eucaristia, fazemos memória de quantos já partiram. Porque aqueles que partiram, vivem em Cristo. O corpo em que vivem já não é aquele que receberam da natureza mas o que receberam de Cristo: “Assim como o Pai que vive, me enviou e eu vivo pelo Pai, também aquele que me come viverá por mim” (Jo 6,57). 

Os que partiram deste mundo vivem em Cristo. Aqueles perfeitamente unidos ao Senhor, participam já da sua glória, vêem plenamente o seu rosto: são os santos, glória da humanidade, alegria da Igreja, que ontem celebrámos. Aqueles que, ao contrário, recusaram viver em Cristo, sofrem a dor e a tristeza, o inferno dessa ausência. Aqueles que ainda necessitam de purificar o seu coração, esses caminham ainda em direção à vida plena e perfeita. Mas todos vivem por referência a Cristo ressuscitado.

É por isso que, em cada celebração da Eucaristia, não encontramos apenas os irmãos que connosco caminham nesta terra e vivem aqui a realidade da Igreja, corpo de Cristo; encontramos também os santos, que nos ajudam a louvar a Deus e intercedem por nós; e encontramos ainda todos aqueles que já partiram e que são nossos familiares, nossos amigos, nossos conhecidos, ou, simplesmente, partilharam connosco a vida da fé. Uma multidão imensa, que ninguém é capaz de contar, e que connosco louva o Senhor!

Na Eucaristia, encontramos e rezamos com os santos e os santos rezam connosco e ajudam-nos. Mas, na Eucaristia, encontramos também aqueles que, deixando-se purificar por Deus, ainda caminham na direcção da vida eterna, da vida plena e feliz com o Senhor. Na Eucaristia os encontramos. Na Eucaristia gozamos da sua companhia. Na Eucaristia, a santidade de Deus em nós torna-se para eles, enquanto membros do mesmo corpo, a ocasião de receberem os frutos da graça divina. E, assim, de facto, nem a morte nos separa dos amigos, dos familiares, dos conhecidos.

É a alegria da vida em Igreja, da vida de Deus em nós, da vida eterna, que em nós constrói comunidade. Alegremo-nos pois, e celebremos a Eucaristia. Hoje, celebramo-la particularmente por quantos já partiram deste mundo e necessitam da nossa oração. Fazemo-lo com a certeza de que todo aquele que se alimentar da Eucaristia, de verdade se alimenta já da vida eterna, da vida de Deus connosco, da salvação.