Da compreensão do rosto histórico da Igreja ao tempo favorável do seu rosto criativo

Foto: Duarte Gomes

Intervenção na apresentação do livro “Paróquia de Nossa Senhora do Monte, Património Móvel e Integrado” no dia 9 de outubro de 2021 na Igreja de Nossa Senhora do Monte

Saúdo com amizade os membros do presbitério do Funchal aqui presentes, cumprimentando de modo especial o Senhor Bispo do Funchal e os Senhores Bispos Eméritos, e também o P. Vítor Sousa e do P. Héctor, promotores do trabalho que hoje aqui apresentamos. Saúdo também as autoridades e ainda o Dr. João Henrique e Dr. Martinho Mendes, do Museu de Arte Sacra.

Nas breves palavras que vos dirijo não tenciono fazer eco daquilo que na introdução escrevi, mas a partir deste “evento” – a inventariação e publicação do património móvel e integrado da paróquia do Monte, abrir a uma visão integral do reconhecimento e conservação, da valorização e inspiração criativa dos Bens Culturais da Igreja.

1. Reconhecimento e conservação

Quando folheamos o livro que tendes entre mãos, vemos um conjunto de peças – Escultura – Pintura – Mobiliário e Talha – Pedra – Cerâmica e Vidro – Têxteis – Livros – Ourivesaria – organizados por tipologia, mas de valor histórico artístico diverso.

Perante a transversalidade do património móvel e integrado da Paróquia do Monte que hoje vem a público na sua totalidade, podemos questionar: Qual o elemento liga todas estas peças, qual é o seu fio condutor? Será a Liturgia e o Culto? Será o seu valor histórico-artístico? Ainda que muitos se possam enquadrar nestes conceitos, uma boa parte também os extravasa.

O ponto medular que liga, contextualiza e vivifica todos estes bens é a comunidade cristã e local do Monte. Este é o primeiro dado a relevar: neste trabalho – simples e singelo – conta-se a história da comunidade do Monte, em todas as suas dimensões! Por isso reafirmo aquilo que já escrevi – é um livro em que a comunidade reconhece a sua história e o seu percurso de fé – e sem este contexto global é impossível compreender a dimensão criativa, histórica e vital de cada um dos elementos que aqui são apresentados. [Crucifixo]

À primeira vista, o livro pode causar um certo descontentamento pela escassez de aparato crítico, uma vez que tem apenas os dados mínimos do que podemos chamar um inventário básico. Idêntico processo fez a Diocese do Funchal, no fim da década de 90, inventariando todos os bens móveis das paróquias. Constitui-se um instrumento interno fundamental e absolutamente basilar quer para a salvaguarda e tutela, quer para a conservação e valorização do património, pois em boa verdade, não podemos conservar, estudar e valorizar o que não conhecemos.

Esta publicação não só retoma localmente aquele processo, mas diferencia-se pela opção de tornar público, em livro, aquilo que hoje, em muitos lugares, está em sistema informático. E este é um virtuosismo que podendo parecer, à primeira vista dispensável, abre a possibilidade a uma dimensão que hoje é fundamental: a reativação da relação nevrálgica entre a comunidade e o seu património. Tenho referido algumas vezes que este é um processo a repensar. O principal destinatário de tudo o que fazermos em relação aos bens culturais que possuímos não é o turismo, mas é a própria comunidade. Neste âmbito, reativar esta capilaridade local [este tecido capilar local] é fundamental quer para a conservação, quer para a valorização, quer até por uma questão de defesa da identidade cultural local, na qual toda a comunidade se sente protagonista e não apenas usufrutuária.

2. De uma tendência “seletiva” a uma opção “extensiva”

Nos últimos séculos, no âmbito da conservação e da valorização dos bens culturais, tem-se acentuado aquilo a que podemos chamar uma tendência “seletiva”, em contraponto com aquela mais “extensiva”. A primeira tende apenas a conservar e valorizar as obras histórico-artísticas mais significativas, enquanto a segunda olha para os bens culturais como “património integrado”, interessando-se por todos eles, independentemente do valor dos seus elementos constitutivos.

Esta segunda parece-me ser a via de futuro, porque não parcializa o património, olhando apenas para aquele “emerso” ou conhecido, deixando de lado o património “submerso”, ainda desconhecido. Esta linha recusa uma conservação e valorização fragmentaria e parcial dos bens culturais, tende a uma reconstituição progressiva e integral da identidade histórica e cultural da comunidade. A opção da Paróquia do Monte e do Secretariado diocesano de Educação Cristã, aponta nesta linha. Não se fez um catálogo histórico-critico com as peças cultural e historicamente mais emblemáticas, o que poderia ser uma via! Tornar público todo este património permite revelar a totalidade dos bens e oferecer assim a possibilidade de criar e compreender relações e interações com outras obras e ambientes.

Veja-se por exemplo o Missal – é um livro antigo – mas a fotografia profissional permite-nos descobrir a presença de uma iconografia particular da Santíssima Trindade, cuja tipologia também se encontra na Sacristia da Igreja Paroquial da Tabua, ainda que com elementos iconográficos diferentes. Para além de estabelecer relações entre territórios, abre ao mesmo tempo hipóteses de estudo e valorização de muitos bens que evidentemente se encontram “submersos”, e que só podem vir à luz do dia em publicações deste género que, mesmo discretas, se tornam um instrumento de trabalho valioso.

3. Da perspetiva particularista/local à dimensão integrada e difusa

Tenho conhecimento que o desenvolvimento progressivo deste projeto – processo divulgado paulatinamente nas redes sociais –já permitiu estabelecer parcerias pastorais e culturais com outros agentes dinamizadores dos bens culturais da igreja. Se por um lado esta publicação tende a reativar localmente e a nível paroquial o sistema nevrálgico de relação entre a comunidade e o seu património, por outro lado é um processo que será tanto mais eficaz cultural e pastoralmente, se extrapolar a perspetiva particularista/local, tendendo para uma dimensão mais integrada e difusa, hoje fundamental na conservação e valorização dos bens culturais, sejam eclesiásticos ou não. Parece-me importante, até para a democratização do acesso à cultura, que a construção de micro-histórias locais, a partir do respetivo e integral património que estes trabalhos podem potenciar, extravasem o próprio território local. A reconstituição de micro-histórias quando projetadas, integradas e articuladas numa perspetiva mais difusa, não só testemunham poliedricamente traços essenciais da cultura e identidade, como, no âmbito mais pastoral, podem favorecer a redescoberta dos valores essenciais do cristianismo num determinado território. Estes simples projetos, como aquele que hoje aqui apresentamos, se multiplicados e aliados a jornadas de estudo, e ou a itinerários temáticos ou artísticos, como também aos âmbitos pedagógicos e educativos locais, podem de facto constituir um processo importante que desenvolve três dimensões essenciais dos bens culturais da Igreja – a sua dimensão humana, histórica e pastoral. Só a articulação conjunta e equilibrada destas três dimensões, um pouco por todo o território, permite uma fruição efetiva e profícua dos bens culturais por toda a comunidade, permitindo vencer aquilo que às vezes pode ser o risco de os bens culturais estarem apenas voltados para um ambiente mais elitista ou então pecarem por parecerem apenas objetos de culto ligados aos ritos cristãos.

 

Objetivamente, esta fruição difusa por toda a capilaridade do território só é possível porque as referências eclesiásticas lá existem, e porque a grande maioria dos bens culturais da Região Autónoma da Madeira são bens culturais da Igreja ou bens culturais de interesse e âmbito religioso. É neste contexto que me permito fazer uma referência especial ao Museu de Arte Sacra e também aos museus no geral. A fruição estruturada, difusa e integral dos bens culturais, articulando o tecido eclesial das dioceses, só é possível com uma ligação e entreligação eficaz e competente, que não tende a substituir os contextos de sentido e compreensão dos respetivos bens, mas que os complementa e capacita, anima e valoriza. Os museus diocesanos ou não, podem assim qualificar-se “como autênticos «viveiros», centros vivos de elaboração cultural, com capacidade de desenvolver e difundir a consciência da conservação e valorização dos bens culturais» (FPME 4.2.3). Um Museu de Arte Sacra ganha assim uma função pedagógica que não é só dirigida às escolas, mas à inteira comunidade cristã e local, permitindo aos fruídores um olhar ao redor para refletir e ligar eventos, objetos, pessoas, tradições e história num processo que não só aproveita a comunidade cristã, mas a inteira comunidade local. Os museus de arte sacra deixam de ser assim, redutoramente entendidos como simples «locais eclesiais», com uma perspetiva apenas pastoral e catequética, mas autênticos «locais territoriais», que animam o humanismo, a cultura e a fé nos ambientes mais locais e diversos. [Tornam-se uma espécie de trave medular que anima os sistemas nevrálgicos periféricos.]

4. Articulação e cooperação – formação e competência

Nos tempos presentes é impossível falar de cultura e fruição dos bens culturais, sem falarmos em articulação e cooperação, em formação e competência. Só somos dignos da memória que recebemos se respeitarmos a sua identidade e a dimensão poliédrica dos bens que temos o dever de conservar e transmitir às gerações futuras. E tudo isto apenas se realiza na mútua articulação e cooperação onde mais do que estar em jogo os habituais problemas da jurisdição ou propriedade, no respeito destes, porque elementos essenciais da identidade e história de cada um dos bens, cooperamos de modo a servir a conservação, a transmissão e a fruição integral dos bens que recebemos. E este aspeto deriva do que referia anteriormente – que a grande maioria dos bens tem uma dimensão humana, histórica e pastoral – anular uma delas é ser parcial na sua valorização e fruição. Obviamente nada disto se faz sem formação e competência, elementos essenciais para valorizar qualquer um dos bens, cultural e eclesialmente. Uma das coisas que me impressiona em muitos ambientes e locais de Itália é a dimensão do voluntariado formado nas áreas dos bens culturais. Obviamente, que como diz o evangelho, o trabalhador tem direito ao seu salário, mas a par disto penso ser possível desenvolver este aspeto nos nossos âmbitos, bem como interagir com escolas e até grupo de jovens em projetos tão simples como preparar didascálias e sinaléticas para muitas das obras que temos nos nossos espaços de culto espalhados pelo território; bens que, atualmente, apesar de serem figurativos e narrativos, são autenticamente “arte abstrata”, incompreensível no conteúdo para muitos dos nossos contemporâneos. Quantos pequenos projetos, quando acompanhados por agentes formados e competentes, podem eles próprios serem formativos e contribuírem para uma fruição mais eficaz dos bens espalhados pelo nosso território.

6. Do criado à criação

A apresentação de um inventário ou catálogo tende por defeito a centrar a sua atenção na memória e no criado. Se aquilo que aqui apresentamos manifesta o rosto criativo e histórico da comunidade cristã da paróquia do Monte, transparecendo as nuances de estilo e produção artística de cada tempo, é importante perguntarmo-nos: “O que é que criamos hoje, neste tempo que é o nosso, a nível de qualidade artística, e temos para transmitir às gerações futuras?” Ao longo da história, a Igreja nunca deixou de estar presente e de contribuir para grandes saltos qualitativos, também no âmbito artístico e cultural. Parece-me não só importante, mas sobretudo fundamental que não o deixe de ser, retomando essa faceta identitária. 

Não podemos, apenas, ser protagonistas da conservação e transmissão do passado. É importante não nos colocarmos à margem da dimensão criativa do presente, nem nos limitarmos apenas à arte litúrgica, ainda que importante e necessária.  Como também não podemos reduzir os bens culturais da Igreja apenas à sua dimensão pastoral. É importante que os mesmos bens para além de testemunharem a fé de uma comunidade (dimensão pastoral) se tornem também laboratórios criativos (dimensão humana) onde os artistas e a arte atual encontrem espaço para dizer Deus e o inefável, para dizer o Homem, a sua procura, as suas contingências, as suas alegrias e esperanças, as suas tristezas e angústias (GS1) (dimensão histórica). 

Como referi, não tenhamos dúvidas, para os nossos contemporâneos a arte que temos nas nossas Igrejas é em grande medida “arte abstrata”, impossível de decifrar. Eles experimentam a mesma dificuldade que nós cristãos experimentamos em relação a muita da arte contemporânea. Isto não significa que ambas não sejam expressão eloquente de humanismo e cultura, mas ambas requerem um esforço de diálogo e mútua aproximação e compreensão, que favoreça a criação artística seja ela cristã ou não. Se muitas vezes olhando o passando nos referimos a alguma arte cristã como “Biblia Pauperum” [Bíblia dos pobres], o nosso tempo requer e obriga-nos, a partir da memoria patrimonial que possuímos, a favorecer uma capacidade criativa artística capaz de operar uma peregrinação: aquela que vai de uma espécie de “Hortus conclusus” [Jardim fechado] ao “Atrium vulneris” [Átrio da Ferida]. Uma arte que concorra à sutura das feridas antropológicas do tempo presente com o fio de ouro da esperança e o introduza na tensão da nova criação, com capacidade de conduzir a Humanidade ao encontro com o Homem perfeito, para nós revelado em Jesus Cristo.

A este propósito termino com as sempre atuais palavras de São Paulo VI aos artistas no já longínquo ano de 1964: “Nós precisamos de vós. O nosso ministério precisa da vossa cooperação. Porque, como sabeis, o nosso ministério é anunciar e tornar acessível e compreensível e sobretudo comovente, o mundo do espírito, do invisível, do inefável, de Deus. E nesta operação que manifesta o mundo invisível em fórmulas acessíveis, inteligíveis, vós sois mestres. E o vosso trabalho e a vossa missão, a vossa arte é justamente aquela de extrair do céu do espírito os seus tesouros e revesti-los de palavra, de cores, de formas, de acessibilidade. E não apenas uma acessibilidade como a do mestre da lógica ou da matemática, que torna compreensíveis os tesouros do mundo, inacessíveis às faculdades cognitivas dos sentidos e à nossa perceção imediata das coisas. Vós tendes ainda esta prerrogativa: no próprio ato de tornar o mundo do espírito acessível e compreensível, preservar neste mundo a sua inefabilidade, o sentido da sua transcendência, a sua aura de mistério, essa capacidade de alcançá-lo com facilidade e esforço ao mesmo tempo”.

Roma, 01.10.2021, Festa de Santa Teresa do Menino Jesus