Pe. Sérgio Leal defende que sinodalidade não deve ser palavra da moda e nem tempo desperdiçado 

O sacerdote da Diocese do Porto, especialista nesta temática, falava aos leigos que se reuniram ao fim da tarde de quinta-feira no colégio para assistir à sua conferência.

Foto: Duarte Gomes

A igreja do Colégio acolheu ao fim da tarde de quinta-feira, dia 14 de outubro, uma conferência sobre o próximo Sínodo dos bispos sobre o tema “Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão”, convocado pelo Papa Francisco.

O orador foi o Pe. Sérgio Leal, sacerdote da Diocese do Porto, que começou por procurar ajudar a assembleia a compreender o conceito de sinodalidade e o que isso significa no caminho proposto pelo Papa Francisco.

Para isso, começou por dizer que a melhor forma de descrever a sinodalidade é indo à etimologia da palavra, como gosta de fazer o próprio Santo Padre. “O Papa Francisco faz isto sempre que fala de sinodalidade. Diz ele: ‘Sinodalidade, tudo aquilo que a caracteriza está contido na palavra synodos, caminho conjunto’”.

O mesmo é dizer, “caminho conjunto de toda a Igreja: pastores, fiéis, consagrados, religiosos, religiosas, todos os batizados”. É verdade que hoje “muitas vezes falamos de sinodalidade ligando a estruturas de corresponsabilidade e de comunhão, eu diria que mais do que estruturas ou um somatório de estruturas a sinodalidade é um estilo, um modo de ser Igreja” – afirmou.

No entanto o sacerdote, que já na parte da manhã proferira outra conferência destinada ao clero da Diocese do Funchal, que estiveram reunidos em assembleia, na paróquia de Ponta Delgada, diz que o grande desafio da sinodalidade é “colocá-la em prática”. 

Por outras palavras, o mais importante até se chegar à XVI Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos que terá lugar em outubro de 2023 com o tema é ‘Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão’, “é o caminho a percorrer”. 

O processo sinodal lembrou, já teve início oficial em Roma nos dias 9 e 10 de outubro e no próximo dia 17, domingo, terá início em cada uma das Igrejas particulares. 

A partir desse dia “vai iniciar-se um caminho de escuta, de auscultação da realidade, porque o objetivo deste caminho sinodal alargado, é de facto conhecer a realidade concreta de cada diocese” e depois, numa outra fase de cada continente. Daí resultará um instrumento de trabalhos para que os bispos que serão chamados a Roma possam realizar essa assembleia sinodal.

À primeira vista parece tudo muito fácil, mas a verdade é que este caminho tem alguns perigos. Desde logo o de que a palavra sinodalidade, de que não ouvíamos muito falar, mas que de repente está na ordem do dia. “O meu receio é que esta palavra fique como uma palavra da moda”, frisou o Pe. Sérgio Leal, para logo acrescentar que “a sinodalidade não é apenas um tema, mas a identidade da Igreja, um estilo de ser igreja”, havendo um conjunto de “processos que respeitem e potenciem as especificidades de cada um, estruturas e eventos que o podem potenciar”.

O facto de se falar dela agora, explicou, é porque “este é o tempo favorável, o tempo oportuno”, o Kairós para perguntar “o que é que a igreja deve fazer aqui e agora”. Se é verdade que “todos os tempos são oportunos para anunciar o Evangelho” o que precisamos “é de descobrir novos modos de o fazer chegar”.  Ou seja, não podemos, defende o sacerdote, “é continuar a fazer o que sempre fizemos quando o tempo mudou”, isto é, “diante de uma realidade nova é necessário responder de modo novo”. 

Tudo isto exige “um coração aberto ao Espírito Santo” que, de resto e como diz o Papa, é o grande protagonista deste caminho que nos propomos fazer e que nasce “do amor a Deus e do amor aos irmãos”. E aqui não podemos cair em “pessimismos paralisantes”, nem tão pouco “em, otimismos desencarnados”. 

A forma de evitar estas visões “é olhar para a realidade com o olhar da fé, com o olhar da manhã de Páscoa, quando os discípulos ainda não veem o ressuscitado, mas anteveem uma nova esperança e um novo alento na sua vida”.

No mundo plural em que vivemos, a vida da fé “deixou de ser aquilo que unificava a sociedade”, moldando toda a vida social, familiar e até a académica e escolar. E neste mundo “a proposta da fé é uma entre muitas e algumas muito mais apetecíveis e atrativas”. 

Perante esta realidade, diz o Pe. Sérgio Leal, exige-se da igreja “uma proposta capaz de dizer, na diversidade daquilo que somos, somos chamados a caminhar em conjunto”. Ou seja, “o caminho da Igreja não é mais um caminho, mas é o caminho que somos chamados a construir”. 

Depois de lembrar as palavras do Papa que diz que «mais do que uma época de mudança estamos a viver uma verdadeira mudança de época”, o sacerdote alertou para o perigo de não termos aprendido nada com a pandemia, de não termos “aprendido a pensar de modo, a ver de modo novo a nossa relação com Deus e com todos os irmãos e o nosso sentido de pertença à igreja”.

É também por isso que “a sinodalidade não é apenas um tema pastoral, mas um tema da teologia trinitária, da contemplação da Santíssima Trindade, a igreja deve caminhar à imagem da Santíssima Trindade, Igreja como povo que caminha na unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. De resto, frisou, “é aqui que a sinodalidade ganha importância: no modo como vamos realizar isto”, sublinhando sempre a dimensão de povo, de comunhão e de fraternidade”.

Outra ideia deixada pelo orador, a partir do que pensa o Papa, é que “a Igreja sinodal é a Igreja da escuta de todos, que não é preconceituosa, que antes de ouvir já sabe o que tem para dizer”, que escuta com humildade, que valoriza a missão de cada um e potencia o caminho com as opiniões de todos e em corresponsabilidade. 

Isto implica uma conversão pessoal, porque “não podemos mudar a Igreja sem mudar a nós próprios”. Aliás, “a conversão do mundo, a conversão da humanidade, acontece quando cada um de nós se converte”, assume a sua corresponsabilidade na missão da Igreja e se torna discípulo missionário, que leva o Evangelho aos outros, nos diversos ambientes e lugares onde somos enviados, para onde saímos em missão. Levando à “redescoberta da fraternidade”, em que todos se sintam verdadeiramente irmãos uns dos outros e em que não se promova os ciúmes e as invejas que são próprias do ser humano, mas não do cristão. 

Em jeito de conclusão, o Pe. Sérgio Leal, apontou três riscos e três oportunidades deste sínodo que já foram equacionados também pelo próprio Papa. 

Do lado dos riscos, disse, temos “o formalismo, ou seja, disto ficar apenas pela forma, pelo evento; o intelectualismo e o imobilismo, não podemos ficar pelo ‘sempre foi assim”.

Já do lado das oportunidades, lembrou que “caminhamos não ocasionalmente, mas com estilo, porque este é o nosso modo de ser Igreja; que esta é uma oportunidade de a Igreja ser uma Igreja da escuta, que não tem medo do diálogo, que não tem medo de se abrir ao mundo, para que possa conduzir o mundo ao encontro de Jesus e finalmente ser uma Igreja da proximidade, porque a Igreja do século XXI marcará a sua presença no mundo e a sua ação pelo modo como for capaz de acolher a todos”.

Como nota final dizer que coube ao cónego Fiel de Sousa, vigário geral da Diocese, apresentar e agradecer a presença do Pe. Sérgio Leal no Colégio e acrescentar que para quem queira aprofundar o tema, a Paulinas Editora vai ter disponível, em breve, um livro da autoria do Pe. Sérgio sobre a sinodalidade no magistério do Papa Francisco.