Patrocínio de Nossa Senhora: Maria convida-nos a deixar transformar o nosso coração duro e frio

Foto: Duarte Gomes

D. Nuno Brás disse este sábado, dia 9 de outubro, que “a Virgem Maria é a indicação do caminho para passarmos da criação à glória, do pecado à salvação, do sinal à realização plena: “fazei tudo o que Ele vos disser”. 

O prelado, que falava na Eucaristia solene da Festa do Patrocínio de Nossa Senhora do Monte, a que presidiu na Sé do Funchal, lembrou que “assim o reconheceu também o povo do Funchal. Assim o reconheceu o povo madeirense ao longo da sua história, fazendo seus os sentimentos de todo o povo cristão”.

“Foi assim desde aquele primeiro momento, em finais do século XVI, quando uma menina ofereceu a merenda à pobre pastorinha, passando por todos os outros acontecimentos, mais ou menos legendários, que, de pais para filhos, foram sendo transmitidos acerca de Nossa Senhora do Monte — momentos em que o nosso povo se viu acompanhado pela presença desta Mulher e Mãe que reúne em si o destino da humanidade”, constatou.

E foi assim também “naquele outro 9 de outubro de 1803, dia que agora celebramos, quando a aluvião tudo parecia destruir, e na sequência do qual a cidade se entregou ao patrocínio de Nossa Senhora”.

D. Nuno Brás explicou ainda na sua homilia, que teve como tema central precisamente a Mulher e a Mãe, que “a pequena imagem de Nossa Senhora do Monte, com o rosto de Jesus Menino que surge por entre o seu manto e que segura na mão, vitoriosa, o fruto que Eva provou”, “não nos traz apenas ao coração a memória distante de todos aqueles sucessos.”

Na verdade, acrescentou, a imagem de Nossa Senhora do Monte dá corpo à devoção mariana madeirense em todos os séculos da sua existência”.

Diante dela, frisou, “desde sempre, rezaram os madeirenses”. Aliás, “Ela concretiza para nós a figura da Mulher e Mãe a que a Escritura faz referência. Torna visível o seu rosto”. 

D. Nuno Brás concluiu a sua reflexão sublinhando que “Nela e por Ela, somos pois convidados a que no nosso coração de crentes ressoem ainda hoje as palavras evangélicas: “fazei tudo o que Ele vos disser”, tornando-as vida, existência que ilumina o caminho, e nos conduz”  a “permitir que Jesus Cristo transforme o nosso coração duro e frio, como as talhas de pedra, frias e inertes, de Caná, no vinho da nova Aliança realizada para sempre no Sangue de Cristo”.

Leia na íntegra a homilia de D. Nuno Brás nesta solenidade:

PATROCÍNIO DE NOSSA SENHORA DO MONTE

Sé do Funchal, 9 de Outubro de 2021

1. Diante de nós, a Sagrada Escritura fez hoje surgir vários quadros que nos mostram a Mulher e a Mãe.

Na Iª Leitura (Gn 3,1-6.13-15), éramos confrontados não apenas com a situação inicial, colocada num primordial tempo longínquo, mas com a natureza do nosso próprio existir. No seio de uma humanidade que vive o drama da mentira e do pecado, que vive o esquecimento de Deus e que até se mostra incapaz de assumir a derrota, a figura da mulher, se é certo que começava por surgir humana e pecadora, logo dava lugar à “nova Eva”, carregada de esperança. 

Esta é a mulher do “Proto-evangelho”. Após a escuridão do pecado, Deus convida a humanidade inteira a não ficar prisioneira do mal, mas — vivendo a sua condição presente — a olhar para o futuro e para aquele sinal seguro que a todos é apresentado: “Estabelecerei inimizade entre ti a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela”. 

É, de verdade, o primeiro anúncio do Evangelho da salvação. Deus não deixa nunca o ser humano prisioneiro da situação de pecado em que mergulhou por culpa própria: sempre convida o homem a erguer-se, a ressuscitar. E o sinal seguro de que essa esperança não é vã, é a mulher cuja descendência atingirá mortalmente o mal: “há-de atingir-te na cabeça”.

A esperança surge de uma Mulher que é Mãe. De uma Mulher que — ao contrário de Eva — resiste e luta contra o mal, ainda que sofra as consequências desse embate (será atingida no calcanhar). A esperança surge da maternidade, que sempre nos convida a olhar para o futuro, seguros de que Deus não nos deixa sós no seio do sofrimento e da morte, no pântano do pecado.

A IIª Leitura, por seu lado, do livro do Apocalipse (Ap 12,1-3.7-12ab.17) dirigia o nosso olhar para o momento definitivo, final, do ser humano — momento narrado a partir de Deus, “Revelação”, para iluminar o nosso presente. Também aí nos surgia a mulher e a mãe. Mas, agora, esta mulher e mãe aparece vitoriosa, revestida do brilho do sol e acima da lua, quer dizer, vencedora da realidade que passa. 

Mulher e Mãe coroada por doze estrelas — o mesmo é dizer: coroada pelo novo povo de Deus. É a mulher que corporiza a Igreja triunfante, a Igreja que, terminada a sua peregrinação na história, partilha a vida gloriosa de Jesus ressuscitado. É o povo santo dos novos tempos — os tempos do Messias — que encontra a sua expressão máxima nesta Mulher e nesta Mãe. É a humanidade vitoriosa, ainda que trazendo consigo os sinais da luta que marca a existência livre — porque o dom da liberdade tem como preço a luta, a decisão, que não podemos deixar de exercer.

Entre estas duas visões de Mulher e Mãe, surge a Virgem Maria, em Caná. Maria é aqui, na narração do primeiro milagre de Jesus (Jo 2,1-11), a mulher que concretiza, que dá rosto, e em quem as duas outras páginas da Escritura encontram a sua plena realização. É, de verdade, “a mulher”, como Jesus gosta de chamar a sua Mãe, em várias passagens do evangelho de S. João.

Maria, em Caná, é o rosto concreto da esperança: é a mulher persistente, que não desiste de interceder pelos pobres: “não têm vinho”. É a mulher capaz de esperar a hora de Jesus, sem a antecipar (“ainda não chegou a minha hora”), mas segura de que esse momento chegará. É a mulher que indica, que convida aos servos e aos discípulos — que convida a humanidade de todos os tempos — à atitude do discípulo: “fazei tudo o que Ele vos disser”. 

Em Caná,Maria é ocasião para a manifestação da glória de Cristo: “Em Caná da Galileia, Jesus mostrou a sua glória”. Em Caná, Maria é aquela que se encontra entre as talhas de pedra da antiga Aliança e o vinho novo de Cristo ressuscitado, o “vinho bom”, incomparável. Em Caná, Maria ajuda os discípulos a passarem de meros convidados indiferentes, a homens de fé, capazes de percorrer o caminho da fé e de olhar para Jesus e para a Aliança que Ele realiza e que Ele é, não apenas com os olhos do corpo mas com aqueles do coração.

A Virgem Maria é pois, em Caná, o rosto concreto da esperança e o rosto da vitória da humanidade transformada pela fé. É a realização plena da vocação cristã. E, ao mesmo tempo, a Virgem Maria é a indicação do caminho para passarmos da criação à glória, do pecado à salvação, do sinal à realização plena: “fazei tudo o que Ele vos disser”.

2. Assim o reconheceu também o povo do Funchal. Assim o reconheceu o povo madeirense ao longo da sua história, fazendo seus os sentimentos de todo o povo cristão. 

Foi assim desde aquele primeiro momento, em finais do século XVI, quando uma menina ofereceu a merenda à pobre pastorinha, passando por todos os outros acontecimentos, mais ou menos legendários, que, de pais para filhos, foram sendo transmitidos acerca de Nossa Senhora do Monte — momentos em que o nosso povo se viu acompanhado pela presença desta Mulher e Mãe que reúne em si o destino da humanidade. Foi assim naquele outro 9 de outubro de 1803, dia que agora celebramos, quando a aluvião tudo parecia destruir, e na sequência do qual a cidade se entregou ao patrocínio de Nossa Senhora.

A pequena imagem de Nossa Senhora do Monte, com o rosto de Jesus Menino que surge por entre o seu manto e que segura na mão, vitoriosa, o fruto que Eva provou — a imagem que conversava com a pastorinha e que foi recolhida na Capela da Encarnação, a cerca de 1 kilómetro de distância daquele local — não nos traz apenas ao coração a memória distante de todos aqueles sucessos.

A imagem de Nossa Senhora do Monte dá corpo à devoção mariana madeirense em todos os séculos da sua existência. Diante dela, desde sempre, rezaram os madeirenses. Ela concretiza para nós a figura da Mulher e Mãe a que a Escritura faz referência. Torna visível o seu rosto. 

Nela e por ela, somos pois convidados a que no nosso coração de crentes ressoem ainda hoje as palavras evangélicas: “fazei tudo o que Ele vos disser”, tornando-as vida, existência que ilumina o caminho, e nos conduz a permitir que Jesus Cristo transforme o nosso coração duro e frio, como as talhas de pedra, frias e inertes, de Caná, no vinho da nova Aliança realizada para sempre no Sangue de Cristo.