D. Nuno Brás: Olhemos para o Senhor dos Milagres e encontremos o Deus que vem até nós para nos salvar

No início da celebração D. Nuno pediu aos fiéis que rezassem “pelos nossos irmãos das Canárias” e pedissem ao Senhor que “os ajude no meio deste flagelo”.

Foto: Duarte Gomes

Não fossem as máscaras a cobrir os rostos e a esconder as emoções e quase nos atreveríamos a dizer que o ambiente vivido na noite desta sexta-feira, dia 8 de outubro, foi idêntico ao dos tempos antes da pandemia, em que Machico acolhia centenas de fiéis na véspera da Solenidade do Senhor Milagres.

À luz dos archotes dos pescadores e das muitas velas dos peregrinos, a imagem do Senhor na Cruz foi trazida em procissão desde a sua capela, na Banda d’Além, até à Matriz.

À chegada à igreja o Senhor dos Milagres foi, como sempre, recebido com aplausos, retirado da barca que o transportava e levado até junto do altar onde foi colocado no lugar que habitualmente lhe está destinado.

No início da Eucaristia, presidida pelo Bispo do Funchal e concelebrada por vários sacerdotes, incluindo o cónego Manuel Ramos, pároco de Machico, D. Nuno fez questão de “apresentar a Deus todas as vossas intenções, de uma forma muito particular as daqueles que fizeram algumas promessas ao Senhor dos Milagres, as intenções das almas daqueles que ao longo deste ano partiram para o Pai e também daqueles que vieram do Funchal, a pé, em peregrinação”.

O prelado convidou ainda a assembleia a “rezar pelos nossos irmãos das Canárias que, hoje, vivem uma situação tão aflitiva, como aquela outra que deu origem a esta festa. Sintamo-nos unidos a eles, rezemos por eles e peçamos ao Senhor que os ajude no meio deste flagelo”.

Já na sua homilia, que se centrou em torno da ideia de que “Deus está connosco” e de que “é sempre um Deus presente, em qualquer lugar do universo, que caminha com os homens”, sendo várias as formas através das quais Ele se manifesta – no seu amor, no seu cuidado, na sua presença – o prelado fez questão de deixar claro que “Deus está connosco, não para nos condenar, mas para nos salvar”. Aliás, “só não nos salvará se não quisermos. Só não nos salvará se recusarmos a sua oferta, a sua mão estendida”.

Prosseguindo, D. Nuno Brás explicou que “a cruz do Senhor dos Milagres é bem o sinal de que Deus está connosco, a partilhar a nossa vida, os nossos sofrimentos e as nossas alegrias”.

“Como o povo de Israel no deserto, ferido pela sua revolta, julgando ter sido abandonado por Deus, olhemos também nós, pecadores feridos pelo egoísmo e pelo esquecimento de Deus, olhemos para a cruz do Senhor dos Milagres”, frisou. 

E prosseguiu, acrescentando que “nós, feridos pelo pecado que cometemos; nós, que vivemos como se Deus não existisse. Nós, que olhamos para os nossos irmãos como se fossem coisas que estão aí para conseguirmos os nossos objectivos… Olhemos com fé para o Senhor dos Milagres, e descubramos neste Deus crucificado, morto por nosso amor, a mão divina que nos é estendida para iluminar os caminhos, esclarecer os pensamentos, emendar as vontades”.

D. Nuno Brás pediu ainda à assembleia, e através dela a toda a diocese, que “olhemos para o Senhor dos Milagres, e deixemo-nos encontrar, no concreto da nossa vida, por este Deus que não permanece indiferente ao que somos. Deixemo-nos encontrar por este Deus que se alegra com os nossos verdadeiros sucessos e conquistas, e que se entristece e sofre com os nossos sofrimentos e derrotas”.

“Olhemos para o Senhor dos Milagres e descubramos o Deus que não nos oferece facilidades ilusórias, mas que se oferece a Si mesmo: que oferece a sua vida e nos faz viver no horizonte de vida eterna. 

Olhemos para o Senhor dos Milagres, e encontremos o Deus que vem até nós — até à vida de cada um de nós — para nos salvar”, concluiu.

No final da celebração o cónego Manuel Ramos dirigiu-se à assembleia para agradecer a todos os devotos do Senhor dos milagres, a quem deixou “uma palavra de gratidão, de alegria e também de muita fé e esperança naquilo que nós celebramos, partilhamos, naquilo que é património também da nossa fé” e “marca da nossa identidade” que “importa transmitir às gerações vindouras”.

Aos peregrinos, vindos dos diversos cantos da ilha, lembrou ainda a importância de reviver e de reacender a chama da fé, particularmente neste tempo que temos vivido.

O cónego Ramos agradeceu ainda a todos os que de uma forma ou de outra estiveram envolvidos na preparação desta festa, dirigindo um agradecimento especial “aos pescadores que participaram com os seus archotes” e ainda ao bispo do Funchal “pela sua presença, pela sua mensagem e por este ajudar-nos a viver, a reacender esta chama da fé que é tão importante para a nossa vida e para o nosso caminhar”.

Já D. Nuno Brás, nas palavras finais que dirigiu à assembleia, pediu que “olhemos verdadeiramente para o Senhor dos Milagres, olhemos verdadeiramente para a cruz de Jesus Cristo, porque ali encontra-se o salvador, ali está o caminho da salvação, ali está a vida que Deus nos oferece”. É que, disse, “nós sabemos que a seguir à cruz vem a ressurreição”.

Leia na íntegra a homilia do bispo do Funchal:

SENHOR DOS MILAGRES
Machico, 8 de outubro de 2021

“Deus está connosco”. Desde a primeira à última página da Bíblia, uma afirmação percorre todas as narrações e o inteiro texto da Sagrada Escritura, seja do Novo ou do Antigo Testamento: “Deus está connosco”. 

Ele, o único Deus verdadeiro, está bem longe de ser um Deus distante, cioso das suas prerrogativas, indiferente ao destino dos seres humanos. Ele, o único Deus verdadeiro, está bem longe de poder ser comparado a um relojoeiro que fabrica um relógio, o vende, e se torna indiferente ao seu destino, apenas se preocupando com a sua fama de bom fabricante. Deus não é um criador que tenha oferecido leis ao mundo e que, depois, tenha simplesmente deixado que os seres humanos vivessem a sua vida, indiferente ao destino da humanidade — indiferente à sua felicidade, à sua salvação. Ou (muito menos) Alguém que apenas se possa invocar num determinado lugar, incapaz de oferecer vida fora desse espaço e dos seus arredores.

Pelo contrário: Deus é sempre um Deus presente, em qualquer lugar do universo, que caminha com os homens. Ele conhece-nos, mesmo no silêncio dos nossos pensamentos e das nossas vontades (“mais íntimo que o meu íntimo”, gostava Santo Agostinho de dizer). Deus não é apenas omnipotente. É também omnipresente. E, sobretudo, é o Amor. Sem nunca desistir de ninguém; constantemente chamando-nos a ser mais e a viver melhor, Ele ama-nos a cada um de nós e a todos. Onde quer que existam seres humanos, Ele está presente; onde quer que existam homens e mulheres, Deus cuida e partilha da sua vida. Aquilo que nos pede é que retribuamos o seu amor, o seu cuidado, a sua presença.

Desde o início do mundo, Deus oferece-nos o testemunho da sua presença: na obra grandiosa da criação; na beleza da natureza e nas leis pelas quais ela se rege; nos acontecimentos da história, em particular na história do povo de Israel; nas palavras dos profetas, que Ele próprio faz surgir no meio do seu povo, para que as escolhas deste último possam seguir não os meros pensamentos humanos mas se tornem dóceis à vontade divina. Deus está presente, acompanha o ser humano, conduz o seu povo, orienta-o, ilumina os seus caminhos.

Finalmente — S. Paulo diz: “chegada a plenitude dos tempos” — Ele próprio se torna presente no meio da história humana. Homem como os homens; homem entre os homens. Não veio para condenar o mundo mas para que este seja salvo — acabámos de o escutar na leitura do evangelho segundo S. João: “Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele» (Jo 3,17).

Certamente: diante da luz, as trevas desaparecem; diante do amor, o ódio e o egoísmo são desmascarados; diante da verdade, a mentira aparece clara. Diante daquele que é o novo Adão, o homem novo, com um novo modo de viver e de ser (quer dizer: o homem que aceita viver com Deus), diante do homem novo, o velho Adão (quer dizer: o modo habitual de vivermos, de pensarmos, de sentirmos, sem contar com Deus e com os irmãos), mostra todo o seu falhanço.

É inevitável: a luz julga e condena as trevas, iluminando-as; o amor julga e condena o ódio, pondo a claro a limitação da falta de amor, do egoísmo; a verdade denuncia e coloca a claro a mentira; o homem novo mostra a velhice e incapacidade do homem velho. 

Por isso, poderíamos pensar que estávamos todos condenados: nós que gostamos que nem tudo venha à luz; nós que usamos tantas vezes a mentira para atingir os nossos fins; nós que alimentamos tantos ódios contra o próximo; nós que parecemos ser incapazes de viver de outro modo, esquecendo Deus e a sua presença e pensando apenas no que achamos ser o nosso bem. 

Diante de Jesus, da luz que Ele é; da Verdade que nele brilha; do amor que Ele espalha; da novidade que Ele traz, poderíamos também nós dizer, como fez Pedro e fizeram tantos outros discípulos: “Senhor, afasta-te de mim que sou um homem pecador” (Lc 5,8). 

Deus, no entanto, não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo mas para o salvar. Deus não pactua com o nosso pecado. Mostra-o. Denuncia-o. Julga-o. Mas nunca deixa de estender a mão ao pecador. Qualquer que ele seja — quem quer que ele seja! Mesmo que seja o maior pecador, terá sempre a mão estendida de Deus para que se possa converter e ser salvo.

Deus está connosco, não para nos condenar mas para nos salvar. Só não nos salvará se não quisermos. Só não nos salvará se recusarmos a sua oferta, a sua mão estendida.

A cruz do Senhor dos Milagres é bem o sinal de que Deus está connosco, a partilhar a nossa vida, os nossos sofrimentos e as nossas alegrias.

Como o povo de Israel no deserto, ferido pela sua revolta, julgando ter sido abandonado por Deus, olhemos também nós, pecadores feridos pelo egoísmo e pelo esquecimento de Deus, olhemos para a cruz do Senhor dos Milagres. 

Nós, feridos pelo pecado que cometemos; nós, que vivemos como se Deus não existisse. Nós, que olhamos para os nossos irmãos como se fossem coisas que estão aí para conseguirmos os nossos objectivos… Olhemos com fé para o Senhor dos Milagres, e descubramos neste Deus crucificado, morto por nosso amor, a mão divina que nos é estendida para iluminar os caminhos, esclarecer os pensamentos, emendar as vontades. Olhemos para o Senhor dos Milagres, e deixemo-nos encontrar, no concreto da nossa vida, por este Deus que não permanece indiferente ao que somos. Deixemo-nos encontrar por este Deus que se alegra com os nossos verdadeiros sucessos e conquistas, e que se entristece e sofre com os nossos sofrimentos e derrotas.

Olhemos para o Senhor dos Milagres e descubramos o Deus que não nos oferece facilidades ilusórias, mas que se oferece a Si mesmo: que oferece a sua vida e nos faz viver no horizonte de vida eterna. 

Olhemos para o Senhor dos Milagres, e encontremos o Deus que vem até nós — até à vida de cada um de nós — para nos salvar.