Dia Diocesano do Catequista: “Não há catequese sem encontro”

Cristina Sá Carvalho falou aos catequistas da Diocese do Funchal

A psicóloga Cristina Sá Carvalho, que foi responsável pelo Setor da Catequese no Secretariado Nacional da Educação Cristã (SNEC), foi a oradora convidada do Dia Diocesano do Catequista que teve lugar no passado dia 5 de outubro, na paróquia do Caniçal.

Numa breve conversa com o Jornal da Madeira, falou sobre o novo Diretório para a Catequese, publicado pelo Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização em março de 2020 e que vem substituir o Diretório geral da Catequese escrito em 1997 pela Congregação para o Clero.

1 – Que novidades traz este Diretório para a Catequese?

Cristina Sá Carvalho – O Diretório vem principalmente trazer-nos uma perspetiva que já estava, obviamente, instituída e trabalhada na Igreja, mas que agora aparece numa linha de força que é a inclusão da Catequese no projeto de conversão missionária da Igreja. No fundo, é um diretório que decorre da Evangelii Gaudium, que ele depois vai explanar em todos os outros textos de acordo com a especificidade do tema. Depois o que diretório organiza, em função daquilo que foram os diretórios anteriores, aquilo que é a necessidade da catequese de participar efetivamente desse processo de conversão da Igreja.

Pedras Vivas 10 de outubro de 2021 (A4)

Pedras Vivas 10 de outubro de 2021 (A3)

2 – Dada a situação actual da Igreja, e da própria catequese, tratam-se de diretivas fáceis de aplicar?

Cristina Sá Carvalho – É assim, a fé move montanhas… e portanto é compreendendo efetivamente que a primeira grande questão está na conversão de cada um. Se cada um dos que somos hoje cristãos com maturidade humana e diferente nos convertermos, ajudaremos a converter o mundo e realmente a salvá-lo, porque ele está numa situação difícil. E não é só a pandemia. É aquilo que é a injustiça por todo o lado, a violência o egoísmo a corrupção. Isto não pode continuar porque são milhões e milhões de pessoas no mundo inteiro todos os dias que vivem em situações infra-humanas. Isso é detestável e não podemos pactuar mais com isso. Portanto, temos de nos transformar e nos converter para corresponder a esta crise antropológica e a partir da nossa conversão pessoal seremos capazes. Obviamente que são princípios elevados, portanto não são fáceis, mas eu estou convicta que são realizáveis. E tenho uma confiança muito grande no Papa, e quem o aconselha e em quem o ajudou a elaborar este diretório de quem compreende que é possível, apesar do grande desafio. Mas, enfim, Cristo na nossa vida é um desafio permanente e por isso não devemos estranhar.

“Cristo na nossa vida é um desafio permanentE”

3 – Falou da questão da pandemia que afetou a vida de todos, impediu os cristãos de irem à igreja, as crianças e jovens de irem à catequese, mas por outro lado parece que se conseguiu uma coisa que o Papa tantas vezes defendeu que era a aposta na Igreja doméstica…

Cristina Sá Carvalho – Quando eu estava no Secretariado Nacional desenvolvemos o Projeto da Catequese familiar. Eu como mãe de família sou muito sensível a essa necessidade, e temos uma forte e enraizada catequese familiar. Obviamente numa Igreja doméstica todo o processo de evangelização está muito facilitado e obviamente dará muito mais fruto. De qualquer forma eu confio que os Secretariados Diocesanos que conhecem o terreno, as paróquias estarão em condições de recuperar aquilo que foi perdido, os sítios onde não se fez catequeses ou se fez uma catequese muito superficial. Que vão saber acolher estas famílias que agora já querem outra catequese e ainda juntar os benefícios que fizemos da abordagem digital. Eu conheço bastante bem o terreno em todo o nosso país e as várias dioceses e tenho confiança nisso. Sei que os Secretariados Diocesanos e os seus bispos estarão capacitados para levar por diante essa tarefa.

4 – Seja como for, há pouco, na sua intervenção dizia aos catequistas que o digital não resolve todos os problemas. Aliás, há catequistas que não dominam as novas tecnologias. O que eu pergunto é se o novo diretório prevê formações nessa área?

Cristina Sá Carvalho – É assim, nós precisamos de catequistas multigeracionais, precisamos de riqueza de diversidade, de acolhimento na diversidade e portanto eu penso que aqueles que são mais jovens e que fizeram essas experiências – porque há uns que simplesmente são mais jovens de espírito – têm certamente a noção de que, para a nossa formação como adultos, fazer sempre à distância obviamente não é a mesma coisa e obviamente nos empobrece muito. De resto, é tão bom estarmos juntos. Aliás, hoje sentiu-se isso mesmo e o Senhor D. Nuno fez questão de sublinhar isso mesmo, o bom que é podermos estar juntos. Claro que a internet a podemos também utilizar, nomeadamente para actividades complementares à catequese, com grupos mais pequenos, chegar a grupos que estão longe, podemos atingir a catequese em zonas interiores do país que não teriam uma catequese qualificada se não tivesse uma catequese digital. Portanto, tudo tem lugar. É preciso é saber o que é o essencial, quais são os grandes pilares e ter pessoas formadas, sobretudo na sua maturidade humana e crente e depois, o seu treino, nas metodologias e sabermos o que é fundamental que é Jesus Cristo na sua dimensão trinitária e a grande base do material da catequese que são as Sagradas Escrituras.

“É preciso é saber o que é o essencial, quais são os grandes pilares e ter pessoas formadas, sobretudo na sua maturidade humana e crente e depois, o seu treino, nas metodologias”

5 – Uma das coisas que tem defendido é que os catequistas têm de ser exemplos, têm de ser cristãos convictos, pois só assim conseguem passar a mensagem…

Cristina Sá Carvalho – Às vezes as pessoas vêm porque os catequistas, de um modo geral recebem melhor formação do que os outros crentes. E muita gente vem porque quer receber essa formação. Mas, penso que o diretório também aponta nesse sentido, temos também de organizar melhor as comunidades de fé. Tem que haver bons responsáveis, com um certo sentido de dedicação, com disponibilidade, com formação especializada. Grupos de catequese por idades, em que também há alguém que coordena, porque então esses vários níveis de intervenção, juntamente com o pároco, juntamente com o bispo conseguem operacionalizar todas estas dificuldades e resolver todos os problemas. 

6 – Finalmente, já a concluir esta primeira parte da sua intervenção, disse que não há catequese sem encontro…

Cristina Sá Carvalho – É verdade. Não há catequese sem encontro. Sem encontro com Jesus Cristo, encontro com as escrituras, encontro com a comunidade, encontro com a pessoa na sua circunstância.