Faleceu o padre Vítor Feytor Pinto

Sacerdote destacou-se pela ação na Pastoral da Saúde e no diálogo com a sociedade civil

Foto: Patriarcado de Lisboa

“Faleceu esta manhã o nosso querido Padre Vítor Feytor Pinto, no Hospital da Luz. Foi para tantos o amigo generoso, o companheiro de caminhada, o padre profundo e feliz e um homem de pensamento que deixa um legado extraordinário. As saudades são muitas, mas sabemos que ele olha por nós, envolvido na ‘ternura maravilhosa de Deus que nos acolhe’”, indica uma nota divulgada pela pároquia.

O sacerdote, natural de Coimbra, foi ordenado na Diocese da Guarda a 10 de julho de 1955, tendo ficado ligado à divulgação do Concílio Vaticano II no Movimento ‘Por um Mundo Melhor’; ao trabalho na Ação Católica e à vivência do 25 de Abril, antes de chegar à reflexão sobre a Pastoral da Saúde e a defesa dos direitos fundamentais; nos últimos anos, destacou-se pelo trabalho na paróquia do Campo Grande.

Ao longo do seu ministério foi Assistente Nacional e Diocesano da Associação Católica de Enfermeiros e Profissionais de Saúde (ACEPS), Assistente Diocesano dos Médicos Católicos e Assistente Diocesano da Associação Mundial da Federação dos Médicos Católicos (AMCP), para além de ter sido fundador do Movimento de Defesa da Vida, em Lisboa.

No livro-entrevista ‘A Vida é sempre um valor’, lançado pelas Paulinas, o falecido monsenhor Feytor Pinto explicava a sua fé na “vida para além da vida”.

“São Paulo disse: ‘a vida não acaba, apenas se transforma e, desfeita a morada do exílio terrestre, adquirimos lá a nossa casa’. Eu estou profundamente convencido disto. E, para minha alegria, Isaías tinha dito, muito tempo antes: ‘No céu temos preparado um banquete com as mais maravilhosas iguarias’, para nos servir a todos, conforme vamos chegando. Eu acrescentaria: deve lá haver, de certeza, trouxas de ovos, de que eu gosto muito…”, gracejava.

“O mistério da morte é um tempo de passagem, mas a nossa razão de ser é a vida. Aqui temos de dá-la a conhecer, para que toda a gente sinta que não é destruída pela morte. Nem a morte nos destrói. Acredito profundamente nisto”, acrescentava.

A obra tem como pós-título uma das frases proferidas pelo entrevistado, ‘Não posso dizer não a ninguém’.

O livro passa em quase 60 anos de sacerdócio, desde o Vaticano II, em Roma, passando pelo de cada ser humano.

“Eu sei que a Igreja tem de estar metida dentro do mundo, portanto eu tenho de servir a Igreja, servindo o mundo. E aí, o meu grande vade-mécum é a ‘Gaudium et Spes’: dignidade humana, comunidade humana, atividade humana e família, vida socioeconómica, cultura, política, paz. É muito simples: os grandes valores estão sempre cá dentro, não posso sacrificá-los, nunca”, afirmava.

Vítor Feytor Pinto nasceu na cidade de Coimbra, em 1932, mas cedo se mudou para Castelo Branco, onde o pai fundou um colégio; aos 10 anos entrou no seminário, convencido da sua vocação sacerdotal.

Para além de incorporar diversos organismos públicos internos, como a coordenação do Projeto Vida – o programa de combate à toxicodependência – ou o Conselho Nacional de Ética, a sua presença tornou-se ainda frequente nos fóruns internacionais, nomeadamente na OMS, na Federação Internacional das Associações de Médicos Católicos e no Conselho Pontifício da Pastoral da Saúde.

Monsenhor Vítor Feytor Pinto foi porta-voz, junto dos bispos portugueses, da revolução de 25 de abril de 1974, recordando sempre a forma “serena”, mas “interventiva” como a Igreja Católica viveu a queda do regime.

“A Igreja em Portugal nesse momento ficou com uma grande paz, porque o que aspirava era que se encontrasse uma solução para um país que estava em rutura profunda”, referia à Agência ECCLESIA.