Dia Mundial do Professor: “I had a dream”

O Dia Mundial do Professor celebra-se anualmente a 5 de outubro, pretendendo homenagear e salientar a dignidade e a importância do Professor na sociedade, tendo como profissão a nobre “Missão” ensinar, crianças, jovens e adultos, formando-os como Pessoas e bons cidadãos. Apraz-me recordar uma etapa da minha vida académica, que graças a um bom Professor, teve um final feliz.

D.R.

Um sonho de adolescente levou-me a escolher o curso errado. Confundia Direito com Justiça e o belo sonho tornou-se um pesadelo. Foi um verdadeiro “abalo telúrico”, na família e no meu projecto de vida, pois tudo se desmoronou. – «Fracassaste! – Nós nunca fracassamos. – Puseste por completo a tua confiança em Deus. Não omitiste, depois, nenhum meio humano. Convence-te desta verdade: o teu êxito – agora e nisto – era fracassar. – Dá graças ao Senhor e… torna a começar!» – Ponto 404 de Caminho*

Recomeçar era a palavra de ordem e duas hipóteses se me afiguravam viáveis: História ou Filosofia, de ambas gostava, mas a capacidade de discernir estava obnubilada, pelo que pedir ajuda foi a atitude mais prudente. Assim, fiz uma exposição ao Conselho Científico e Pedagógico da Faculdade de Letras de Lisboa, solicitando uma autorização especial para assistir a algumas aulas de ambos os cursos e mais seguramente poder optar. O pedido foi aceite, com a indicação dos dias e das horas a cujas aulas me era permitido frequentar. Comecei por História, num anfiteatro repleto de alunos, uns em pé, outros sentados no chão e nas escadinhas, num clima eufórico no qual se ouvia o Professor José Barata Moura expondo de forma empolgada e vibrante, mas nem já recordo o tema da matéria. Tudo me desagradou naquele contexto, saí antes de ter terminado e dizia para comigo: mais um pouco e começava a cantar: “Come a papa, Joana come a papa, Joana come a papa…” Se agora me parece cómico, juro que na altura foi deveras traumatizante… «Fracassaste? – Tu (estás bem convencido) não podes fracassar. Não fracassaste; adquiriste experiência. – Para a frente!» Ponto 405, Caminho

A seguir esperavam-me as aulas de Filosofia, chegada a hora e o dia marcados dirigi-me à sala, um espaço pequeno, duas dezenas de carteiras alinhadas, todos os alunos serenamente sentados. Ao entrar, o Professor de pé no meio da sala, cumprimentou-me, referiu o meu nome, deu-me as boas-vindas e indicou-me o lugar. A aula começou, foram duas horas de êxtase, compreendi tudo, não sei se os meus colegas respiravam, não se ouvia um barulho. Com uma voz muito calma, as palavras claras do Professor tocavam em mim e transformavam-se em ideias, uniam-se, interligavam-se, o tempo voou e a aula terminou. Eu estava a “levitar” de encantamento e admiração, perfeitamente identificada, esclarecida e decidida a seguir aquele curso. O meu semblante deve ter mudado de tal forma que todos perceberam a alegria por ter encontrado o sonho sonhado. O Professor anuiu com o seu sorriso um pouco enigmático, mas ciente e consciente de que aquela aula foi decisiva para o meu futuro. «Frater qui adjuvatur a fratre quasi civitas firma” – O irmão ajudado por seu irmão é tão forte quanto uma cidade amuralhada. – Pensa um pouco e decide-te a viver a fraternidade que sempre te recomendo.» Ponto 460

O curso fluiu, a agradabilidade aumentava de ano para ano. Vários foram os bons mestres que moldaram o meu percurso académico. Mas foi com este professor que encontrei o idealizado caminho, o “meu caminho”. «Dizias-me, com desconsolo: – Há muitos caminhos! – Tem que haver: para que todas as almas possam encontrar o seu, nessa variedade admirável. Confusionismo? – Escolhe de uma vez para sempre; e a confusão se converterá em certeza.» Ponto 964

Sempre afável, embora distante, atento, preocupado, exigente e bom orientador. Com ele fiz várias cadeiras, nomeadamente Descartes, uma forma única de abordar este Filósofo, muito o recordei nos anos seguintes em que tive de leccionar este autor, nos programas do Secundário.

Embora vivêssemos muito perto, a certa altura deixei de o ver. Soube que estava doente e que tinha regressado à sua terra natal, o Porto. O impensável viria a acontecer. Era um Domingo, fomos à Missa num Oratório em Lisboa, ao descer as escadinhas de acesso verifiquei que ao lado esquerdo existia uma pequena mesa de madeira com algumas informações ou notícias e, surpresa das surpresas, ali estavam umas estampas de uma pessoa recentemente falecida, mas cuja foto me atraiu, pois me recordou alguém…sim, era o meu saudoso Professor Mário Pacheco.

Foi então que compreendi todo o seu procedimento e comportamento, desde o primeiro dia em que o conheci. Todo ele era um reflexo dos ensinamentos de S. Josemaria, os quais só com o decorrer dos anos eu fui aprendendo e apreendendo. «Lembra-te, meu filho, de que não és somente uma alma que se une a outras almas para fazer uma coisa boa. Isso é muito…, mas é pouco. – És o Apóstolo que cumpre um mandato imperativo de Cristo.» Ponto 942

75 anos volvidos sobre o início do Opus Dei em Portugal, saber que foi o primeiro membro do nosso país,  que esteve na base da minha opção académica, a qual deu um rumo tão afável ao todo da minha existência, foi sentir a Mão de Deus a pousar sobre mim.

*Caminho: um pequeno livro, fruto da actividade sacerdotal de São Josemaria Escrivá. Editado pela primeira vez em 1934, com o título de “Considerações espirituais”; em 1939, aquando da segunda edição aumentada, foi-lhe dado o nome actual. Hoje, Caminho, está traduzido em 43 idiomas e conta com cerca de 4 500 000 exemplares.